O home office como saída contra contaminações do coronavírus

No Brasil e no exterior, companhias já adotaram o trabalho remoto. Prática encontra resistência por parte de alguns supervisores

    Na última década, o home office se tornou uma prática cada vez mais comum em empregos de escritório ao redor do mundo. Com esse modelo de trabalho, o funcionário realiza suas atividades diárias em casa, se comunicando com o resto da equipe por meio de plataformas digitais.

    O Brasil seguiu a tendência: segundo levantamento do IBGE, em 2018, 5,2% dos trabalhadores ocupados do país trabalhavam em regime de home office, excluindo da conta funcionários do setor público e trabalhadores domésticos. Ao todo, a porcentagem equivalia a cerca de 3,8 milhões de pessoas.

    O número é um aumento de 44,2% se comparado ao número de pessoas que trabalhavam em casa no ano de 2012.

    A pandemia do novo coronavírus, que tinha na tarde de quarta-feira (11) 122 mil casos confirmados ao redor do mundo, aumentou o número de empresas que adotaram o home office como uma forma de diminuir a propagação do vírus, já que escritórios aglomeram um grande número de pessoas.

    Empresas que já adotaram o modelo

    Tanto no Brasil, como no exterior, empresas adotaram o regime de home office por causa do novo coronavírus.

    O BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento), instaurou a prática na sexta-feira (7). Além disso, funcionários que estiveram em viagens de férias ou a trabalho para qualquer país do mundo deverão permanecer em quarentena por 14 dias.

    A corretora XP Investimentos liberou o home office para todos os seus colaboradores. A decisão veio após ser confirmado o segundo caso de coronavírus em funcionários da empresa.

    Nos EUA, o Google recomendou que todos os seus funcionários trabalhem em casa pelo menos até o dia 10 de abril, quando uma nova avaliação da situação será feita.

    Ainda no setor da tecnologia, a Amazon também aderiu ao home office até o fim de março, pelo menos. A sede da empresa fica em Seattle, em Washington, estado mais afetado pelo coronavírus nos EUA.

    A Microsoft, que também tem sede em Seattle, seguiu os passos e recomendou o home office até o dia 25 de março, quando uma nova avaliação da situação será feita.

    Apesar de diversas empresas adotarem o modelo de trabalho remoto, por enquanto não há nenhuma recomendação específica da OMS (Organização Mundial da Saúde) em relação ao tema.

    Em Comissão Geral no Congresso nesta quarta-feira (11), o Ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, sugeriu a adoção do modelo de trabalho remoto. Segundo ele, o Ministério está preparando um guia de orientação com recomendações para as empresas.

    A decisão de implementar o home office parte de cada empresa. A única recomendação concreta e que já foi amplamente divulgada é a de se evitar aglomerações.

    O home office como prática

    Mesmo com a tendência crescente de adesão ao home office, muitas empresas ainda são relutantes em permitir que seus funcionários trabalhem em casa.

    De acordo com a consultora americana de Recursos Humanos Liz Ryan, a resistência vem de uma falta de confiança dos supervisores nos próprios funcionários e neles mesmos.

    “Líderes que não confiam em si mesmos o suficiente para contratar pessoas em que confiam sempre vão se voltar a mecanismos de poder e controle”, afirmou em uma edição de sua coluna na revista Forbes em 2017.

    “Isso inclui forçar as pessoas a dirigirem um carro ou pegar um trem todos os dias para que possam ser supervisionadas de perto”, acrescentou. “Eles acreditam que um funcionário que está trabalhando em casa está na verdade assistindo novelas e comendo chocolate em vez de realizar as tarefas”, concluiu.

    O coro foi engrossado por Prithwiraj Chouhdhury, professor de Geografia do Trabalho na Escola de Negócios da Universidade de Harvard.

    Em texto publicado no blog da instituição em agosto de 2019, Choudhury afirmou que há uma outra preocupação além da ideia de que os funcionários trabalhariam menos se estivessem em casa.

    “Há também preocupações de que permitir que funcionários trabalhem de qualquer lugar poderia resultar na queda de comunicação e colaboração entre colegas de trabalho e pode diminuir o aprendizado informal que ocorre no ambiente de trabalho”, disse.

    Em 2003, pesquisadores da IBM publicaram um artigo na Revista de Ciências Vocacionais dos EUA avaliando os efeitos do home office nos trabalhadores americanos.

    Eles descobriram que o trabalho remoto tem efeitos positivos e negativos no trabalhador.

    Os positivos estão associados à uma melhor produtividade e efetividade na realização das tarefas na maioria dos casos investigados. Já os negativos estavam relacionados à falta de convívio social e a diminuição das fronteiras entre vida profissional e vida pessoal, já que um imprevisto fora do horário de trabalho pode surgir e compelir o funcionário a resolvê-lo.

    A pesquisa foi feita com cerca de 1.200 funcionários da IBM nos EUA que trabalhavam remotamente à época e que responderam um questionário.

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