O caminho para desenvolver uma vacina contra o coronavírus

Especialistas afirmam que pode levar até 18 meses para proteção ficar pronta. Método genético pode tornar processo mais rápido

    Em meio à preocupação global com o coronavírus, autoridades e empresas farmacêuticas discutem a criação de uma vacina para combatê-lo. Dezenas de companhias e institutos de pesquisa nos EUA, Europa e Ásia correm para desenvolver um tratamento que possa barrar a covid-19, a doença provocada pelo coronavírus que já matou mais de 4 mil pessoas em todo o mundo.

    No Brasil, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, avisou que o país não participará no desenvolvimento de uma vacina, mas que precisará ter capacidade para produzir e distribuir vacinas e remédios que venham a surgir.

    "Essa corrida o mundo todo está envolvido. O Banco Mundial liberou US$ 12 bilhões, os Estados Unidos liberaram US$ 9 bilhões, a comunidade europeia mais alguns bilhões de dólares", declarou Mandetta à imprensa.

    Trump e as empresas

    Em 2 de março, o presidente americano Donald Trump se reuniu com representantes de 12 empresas farmacêuticas para discutir a viabilidade de se produzir uma vacina contra a covid-19.

    Trump se empolgou quando o CEO da Moderna, Stéphane Bancel, afirmou que sua empresa poderia apresentar uma vacina em cerca de dois meses. A promessa foi contestada pelo diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas, Anthony Fauci, que já trabalhou com seis líderes americanos.

    “Você não teria uma vacina. Você teria uma vacina pronta para começar a fase de testes”, rebateu. Para Fauci, uma previsão mais realista seria entre 12 e 18 meses. No entanto, Trump afirmou que “gosto mais quando falam em dois meses, para ser sincero”. O presidente quer resultados antes da eleição de novembro.

    "Acreditamos que existem boas ferramentas e abordagens que serão bem-sucedidas, mas não devemos ter muita confiança de que isso possa acontecer rapidamente", afirmou John Shiver, vice-presidente global de pesquisa e desenvolvimento de vacinas da Sanofi Pasteur. O pesquisador acredita que levará entre um ano e um ano e meio até que uma vacina fique pronta.

    Dois tipos de vacinas

    Método genético

    A empresa farmacêutica americana Moderna desenvolve o que se chama de “vacina de mRNA”. São vacinas que introduzem em células humanas um trecho do código genético do vírus. O segmento contém instruções para a fabricação de proteínas idênticas às do vírus que o sistema imunológico é capaz de reconhecer. A partir daí, o sistema imunológico passa a “conhecer” o vírus e está melhor preparado para combatê-lo. Esse método ainda não produziu nenhuma vacina. A Moderna anunciou já ter começado a testá-la em humanos.

    O mesmo princípio de injeção de informação genética orienta o projeto que une a empresa farmacêutica americana Inovio e a chinesa Beijing Advaccine Biotechnology. A diferença é que a vacina INO-4800 é baseada em DNA. Essa empreitada se diferencia da anterior por utilizar um método ligeiramente distinto de codificar a proteína a ser produzida . Segundo as empresas, testes pré-clínicos e manufatura em pequena escala já estão sendo realizados.

    Método convencional

    Tradicionalmente, vacinas procuram expor o organismo humano a componentes do agente causador da doença. Geralmente, as vacinas são virais, embora algumas sejam bacterianas. O vírus nunca é injetado em sua forma integral, mas sob a forma de versões enfraquecidas ou mortas ou ainda parcialmente. Patógenos como sarampo, febre amarela, rubéola são combatidas dessa forma.

    Boa parte das vacinas sendo pesquisada contra a covid-19 é desse tipo. A Johnson & Johnson, por exemplo, estuda uma vacina que se baseia em uma versão do vírus que não se reproduz. O mesmo método foi utilizado para produzir uma bem-sucedida vacina contra o ebola.

    Fundos

    Pesquisar e desenvolver uma nova vacina no mínimo de tempo e que possa ser utilizada em larga escala é um processo custoso. Em 2017, a Cepi (Coalizão de Inovações em Preparação para Epidemias) foi fundada em Davos, Suíça, para custear pesquisas que busquem vacinas para potenciais pandemias. A ONG é mantida por governos de países como Noruega e Índia, além de doadores privados como a fundação Bill e Melinda Gates. Até agora, a Cepi já anunciou fundos no valor de US$ 23,7 milhões para pesquisas de uma vacina para o coronavírus, incluindo as iniciativas da Moderna e da Inovio.

    Fase inicial

    É o primeiro estágio de testes em seres humanos. Aqui são testados itens como segurança, efeitos colaterais, melhor dose e método de formulação do medicamento. Outros efeitos podem incluir o desempenho da droga ou tratamento antes ou depois da ingestão de alimentos. O grupo testado normalmente fica entre 20 e 100 indivíduos saudáveis. São realizados em clínicas onde as pessoas testadas podem ser observadas em tempo integral por especialistas. Geralmente, esse estágio tem duração de três meses.

    Fases posteriores

    As fases 2 e 3 consistem de experimentos em grupos bem maiores de pessoas, realizados em diversos centros de análises clínicas. No Brasil, o pedido de registro de um produto na Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) só pode ser encaminhado depois da conclusão das três fases. Cada nação tem sua agência regulatória e nem sempre o que é aprovado em um país é liberado da mesma forma em outro. Algumas vacinas podem levar até 15 anos para chegar ao mercado.

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