Qual o histórico das crises mundiais do petróleo

Dependência do combustível faz com que oscilações de preços tenham forte impacto na economia geral. Principais abalos globais foram nas décadas de 1970 e 1990

    O valor do barril de petróleo despencou na segunda-feira (9) depois que a Arábia Saudita anunciou a redução dos seus preços e o aumento da produção interna, com impacto nos mercados pelo mundo. A medida do país do Oriente Médio foi uma reação à negativa do governo russo de aderir a um esforço de redução da produção mundial diante da queda da demanda por causa do novo coronavírus.

    Nesta terça-feira (10), os mercados abriram com uma recuperação parcial, mas os efeitos econômicos da doença e da queda do valor do barril ainda são incertos. Podem ir de recessões nos EUA e na Europa a um baixo crescimento na China. O crash dá sequência à tendência de queda no preço internacional do barril de petróleo que se estende desde o fim de 2019.

    O objetivo do governo saudita era fazer com que os países-membros da Opep (Organização dos Países Produtores de Petróleo) e a Rússia colaborassem para manter os preços do petróleo estáveis.

    “Houve um consenso entre a Opep [para o corte de produção]. A Rússia se opôs e disse que a partir de 1º de abril todo mundo pode produzir o quanto quiser. Então o reino [saudita] também está exercendo esse direito”, disse um especialista no tema ao Financial Times.

    “Ninguém imaginava que esse seria um resultado possível”, afirmou Ian Nieboer, diretor-gerente do grupo RS Energy, ao site da Bloomberg. “Há uma ameaça agressiva à demanda que é amplificada por uma enxurrada de barris nos mercados que não precisam deles. Difícil imaginar onde vamos parar.”

    O preço do barril de petróleo chegou a cair mais de 30% durante a segunda-feira (9), o pior resultado desde a Guerra do Golfo, em 1991. No fim do dia, a redução ficou em 20,6%.

    Para a Fitch, agência de classificação de risco de crédito, “os efeitos econômicos do choque do petróleo podem durar muito mais do que aqueles provenientes do Covid-19”.

    Em 2019, o setor de perfuração de petróleo e gás representou cerca de 3,8% da economia global, avaliada em US$ 86 trilhões.

    Dependência do petróleo

    O desenvolvimento econômico e industrial do planeta está ligado às suas fontes de energia. No século 19, o carvão substituiu a madeira como principal recurso energético. O fato de o carvão ser mais eficiente energeticamente e mais barato de produzir contribuiu para expandir a industrialização.

    O petróleo começou a tomar o lugar do carvão entre o fim do século 19 e o início do 20. O desenvolvimento de veículos e máquinas movidos a gasolina rapidamente posicionou o petróleo como um recurso essencial para o funcionamento da economia. A Primeira Guerra Mundial (1914-1918), com seus tanques, navios, veículos automotores e aviões que usavam a gasolina como combustível, deixou clara a dependência que havia se estabelecido.

    Na vida civil, o automóvel a gasolina se popularizou, especialmente nos países mais ricos. Do Ford Model T, primeiro carro acessível, foram produzidas 15 milhões de unidades entre 1908 e 1927. Seu preço despencou em duas décadas, indo de US$ 950 em 1909 para US$ 290 em 1926.

    Em paralelo, o gás natural, liberado da terra junto com o petróleo, passou a ser percebido como um subproduto de valor, utilizado para fins como aquecimento e geração de energia. Até a década de 1920, o gás natural era visto como algo sem utilidade e queimado nos pontos de extração.

    Com o fim da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), as reservas mundiais de petróleo cresceram exponencialmente. Subiram de 62 bilhões de barris de óleo cru para aproximadamente 534 bilhões no pós-Guerra. O Oriente Médio foi responsável por 70% desse aumento, abrindo caminho para a região se tornar a principal produtora do mundo.

    A crise de 1973

    A produção de petróleo no Oriente Médio, entretanto, era dominada pelas chamadas Sete Irmãs, um cartel de multinacionais petrolíferas, sendo cinco americanas, uma britânica e uma anglo-holandesa. Além de controlar todo o processo de exploração e exportação, as Sete Irmãs tinham forte influência política e econômica na região.

    Insatisfeitos com o domínio estrangeiro e estimulados pelo forte sentimento anticolonialista da época, cinco países produtores se juntaram para fundar a Opep (Organização dos Países Produtores de Petróleo), em Bagdá, em 1960. Integravam a nova entidade Arábia Saudita, Irã, Iraque, Kuwait e Venezuela. Em alguns anos, entrariam outras nações, entre elas os Emirados Árabes, Qatar, Nigéria, Líbia e Equador.

    Em 1973, os países-membros da Opep anunciaram um embargo, limitando a produção e as exportações a países europeus e aos Estados Unidos por seu apoio a Israel na guerra do Yom Kippur. Como resultado da escassez de petróleo, o preço do barril quadruplicou de cerca de US$ 3 para US$ 12.

    O movimento dos países da Opep levou à falta de combustível em diversos países. No Reino Unido, a queda na produção industrial levou à introdução da semana de trabalho de três dias como medida emergencial. Nos EUA, a venda de gasolina foi restrita, levando a filas de automóveis nos postos e desabastecimento. A crise do petróleo contribuiu para um período de recessão no Ocidente que durou até 1975. Era o fim do ciclo de prosperidade que havia caracterizado a maior parte do pós-Guerra nesses países.

    O Brasil também foi afetado. Nessa época, o país importava 70% do petróleo que consumia. O governo racionou o combustível, proibindo vendas nos fins de semana e limitando a velocidade nas estradas a 80 quilômetros por hora. A situação motivou o governo a investir em fontes alternativas de energia por meio do programa Proálcool e da usina nuclear de Angra dos Reis.

    Em 1979, ocorreu a segunda crise do petróleo. Com a Revolução Islâmica que derrubou o xá Reza Pahlevi, no Irã, as exportações de petróleo do país diminuíram drasticamente. No espaço de um ano, o preço do barril dobraria de valor.

    A Guerra do Golfo

    Em agosto de 1990, o Iraque invadiu e anexou o vizinho Kuwait. O regime de Saddam Hussein vinha incrementando a animosidade com relação ao país do golfo por motivos diversos, entre os quais uma política de produção que Bagdá acusava de prejudicar suas exportações. O Iraque também acusou o Kuwait de roubar seu petróleo fazendo perfurações inclinadas.

    A resposta militar não demorou. Em janeiro de 1991, uma coalizão de 35 países liderada pelos Estados Unidos iniciou um intenso bombardeio contra alvos civis e militares iraquianos. Em pouco tempo, a soberania do Kuwait foi restabelecida. No entanto, à medida que se retiravam, militares iraquianos incendiaram mais de 600 campos de produção de petróleo do país do golfo.

    O preço do barril subiu de US$ 21, na época da invasão, para US$ 41,90 em outubro. Apesar de o aumento ter durado apenas nove meses, bem menos tempo que as crises da década de 1970, ele contribuiu para a recessão americana do início da década de 1990. Diversos setores sentiram o impacto das oscilações, em especial as empresas aéreas que registraram diminuição no tráfego aéreo entre 1990 e 1991.

    Houve também um considerável impacto ambiental causado pelos incêndios dos campos petrolíferos kuwaitianos. O fogo demorou 10 meses para ser inteiramente controlado, o que causou a liberação de quantidades enormes de monóxido de carbono e dióxido de enxofre na atmosfera. Óleo bruto contaminou o Oceano Índico e a zona costeira do país.

    O petróleo no século 21

    Após passar o restante dos anos 1990 em relativa estabilidade, o petróleo esteve no centro dos acontecimentos no início dos anos 2000, com os atentados de 11 de setembro de 2001, as crescentes tensões no Oriente Médio e a invasão do Iraque pelos EUA. À época, discutia-se a possibilidade de estar em curso uma nova crise do petróleo, aos moldes daquelas ocorridas nos anos 1970.

    EVOLUÇÃO EM 30 ANOS

    Preço internacional do barril de petróleo. De 1990 a 2020, com quedas fortes em 2008, 2014 e 2020

    De fato, ocorreu um boom do petróleo na década de 2000. O movimento esteve ligado ao crescimento acelerado das economias de países emergentes, liderados pela China, que elevaram a demanda internacional pelo produto. O preço do barril atingiu um pico em julho de 2008, quando chegou próximo aos US$ 150 por unidade.

    A crise financeira global de 2008, que eclodiu apenas dois meses após o pico do preço do petróleo, derrubou os mercados de commodities – e o petróleo não foi exceção. Antes mesmo da virada para 2009, o barril já custava menos de US$ 40 a unidade. O preço em dezembro de 2008 era cerca de um quarto do preço de julho.

    A década de 2010 marcou novas turbulências no mercado petrolífero. Diante de tensões no Oriente Médio, com a Primavera Árabe, o petróleo foi atingido por novas incertezas, recuperando em parte o nível de preços anterior à crise de 2008. A partir de 2014, o cenário que se instaurou foi de mudanças na configuração do mercado.

    O barril de petróleo sofreu uma nova queda forte. A indústria petroleira passou a encarar a concorrência do óleo e gás de xisto, encabeçada por empresas americanas. Ao mesmo tempo, o crescimento da cobrança mundial por fontes de energia renováveis deslocou parcialmente as atenções das empresas do setor, que passaram a investir em alternativas limpas. A Opep e seus aliados chegaram a agir para cortar a produção e tentar conter quedas no preço do barril.

    No início da década de 2020, um descompasso entre dois dos maiores exportadores de petróleo do mundo – Arábia Saudita e Rússia – somou-se ao cenário global tomado de incerteza com a disseminação do novo coronavírus. A queda abrupta no preço, se duradoura, pode consolidar o crash como uma crise do setor e reconfigurar o mercado mundial de energia.

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