Por que o crash do petróleo pode mudar o mercado de energia

Queda do preço do barril leva a pânico aos mercados e faz despencar as ações da Petrobras. O ‘Nexo’ explicou como o efeito pode ir além das bolsas de valores e levar a uma reconfiguração do setor energético em 2020

    O preço do petróleo precisou de apenas alguns segundos para cair cerca de 30% nos mercados internacionais no domingo (8). Na segunda-feira, os mercados reagiram com pânico.

    Na Ásia, as bolsas de Tóquio, Xangai, Hong Kong e Seul abriram o dia de negociações com baixas. Na Europa, os principais índices das bolsas tiveram quedas na casa dos 6%.

    Já nos EUA e no Brasil, as sessões dos mercados financeiros foram interrompidas temporariamente para esfriar o ritmo acelerado das quedas. O mecanismo – chamado de circuit breaker – não era acionado em São Paulo desde maio de 2017, no dia conhecido como Joesley Day.

    As principais empresas afetadas nas bolsas foram as que atuam diretamente no setor de energia. Os bancos ligados a essas empresas também foram afetados. No Brasil, a Petrobras teve, em apenas meia hora, perdas bilionárias em seu valor de mercado.

    QUEDA EM 2020

    Preço internacional do barril de petróleo desde 2019. Queda em 2020, com crash no início de março

    O crash na segunda-feira dá sequência à tendência de queda no preço internacional do barril de petróleo que se estende desde o fim de 2019. Em meio à disseminação do novo coronavírus, o choque no preço da commodity pode reconfigurar o setor de energia em 2020.

    O que está por trás da queda

    A queda está relacionada a uma disputa entre Arábia Saudita e Rússia. Em face à epidemia internacional de coronavírus, a demanda por petróleo tem diminuído, pressionando o preço do barril para baixo. Diante desse movimento, a Arábia Saudita propôs à Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) e seus aliados – ao todo, um grupo de 24 países – um corte na produção, para impedir quedas substanciais no preço do produto. A ideia era acompanhar a redução da demanda com uma diminuição da oferta, amenizando impactos sobre o preço e sobre o mercado de petróleo.

    A Rússia, entretanto, rejeitou o acordo. O entendimento dos russos era que a queda no preço ajudaria o petróleo a concorrer com o gás de xisto no mercado internacional de energia. O xisto é obtido por tecnologias de extração de combustíveis crus de rochas sedimentares, sem necessidade de perfuração do solo como é feito na exploração tradicional de petróleo. Essas tecnologias são adotadas com protagonismo de empresas americanas, e o raciocínio da Rússia era que uma ação para elevar ou estabilizar o preço do petróleo seria benéfica às empresas de xisto dos EUA.

    Diante da negativa russa, a Arábia Saudita decidiu agir e começou uma guerra de preços, largando na frente dos outros países exportadores. O país, que é o maior exportador de petróleo do mundo, anunciou um aumento na produção e a oferta de barris de petróleo com descontos. Os sauditas, portanto, tomaram as rédeas do mercado e decidiram ter sob seu controle a queda do preço, prejudicando a Rússia e outros países do mercado. As ações da Arábia Saudita levaram o barril de petróleo à sua maior queda em um dia desde a Guerra do Golfo, no começo dos anos 1990.

    Os possíveis efeitos pelo mundo

    A queda do preço internacional do petróleo tem efeitos sobre o mundo todo. Além do primeiro impacto, de desestabilização das bolsas de valores pelo globo, o movimento pode ter efeitos duradouros no mercado de energia se os níveis baixos do preço do petróleo forem mantidos. Abaixo, o Nexo explica quem pode ser afetado e por quê.

    O xisto americano

    O mercado internacional de óleo e gás xisto – produto concorrente do petróleo – já vinha de um momento ruim em 2020. Endividada e com baixa capacidade de pagamento, a indústria via nas quedas de preço do petróleo na virada de 2019 para 2020 um cenário de risco. Por isso, possibilidade da Opep agir para elevar os preços do petróleo era bem recebida no mercado de xisto.

    Com a produção em alta e os lucros em baixa, as empresas de xisto podem ser vítimas da queda nos preços do petróleo. Se o preço do barril se mantiver em baixa e o petróleo ganhar espaço no mercado internacional de energia, o impacto sobre o xisto pode ser significante e abrir uma crise no setor. O movimento pode afetar estados americanos ligados à produção de energia, como o Texas e a Dakota do Norte.

    Quem importa e quem exporta

    A queda no preço do petróleo afeta também países que dependem do petróleo. Isso vale tanto para quem exporta o produto como para quem importa e usa o petróleo como insumo na cadeia produtiva.

    Países como Nigéria, Venezuela e Iraque, cujas economias são ancoradas na exportação de petróleo, devem ser gravemente afetados pela queda no preço do petróleo. A própria Arábia Saudita e a Rússia também podem ser atingidas.

    O preço internacional já vem em baixa desde 2014, o que teve também efeitos sobre essas economias. Em 2020, se o preço do barril permanecer no patamar alcançado após as ações da Arábia Saudita, os países mais dependentes devem sofrer novos golpes.

    A queda no preço internacional do petróleo teoricamente beneficiaria os países importadores do produto, como China, Índia e os próprios EUA. Entretanto, no começo de 2020, o cenário internacional marcado pelo surto do novo coronavírus pode frear eventuais aumentos da demanda.

    O surto de coronavírus

    Antes mesmo da queda no preço do petróleo, as perspectivas para a economia global em 2020 já não eram animadoras. Diante do surto do coronavírus, a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) diminuiu a projeção para o crescimento mundial em 2020. Em 9 de março, já eram mais de 110 mil casos mundiais da doença, com mais de 3.800 vítimas fatais. No Brasil, o número de infectados era de 25.

    A perspectiva de queda no ritmo da economia global, com redução no comércio internacional, pode afetar também o mercado de petróleo. Mesmo com a queda do preço do barril, é possível que a demanda pelo produto não cresça. Isso significa que, mesmo diante do preço mais baixo, países deixem de importar petróleo, mantendo a tendência de baixa do mercado internacional.

    O que pode mudar para o Brasil

    O mercado de petróleo brasileiro tem como protagonista a Petrobras, maior estatal do país. A empresa já sentiu os primeiros efeitos da queda, com o preço de suas ações despencando na abertura da sessão da bolsa de valores de São Paulo de 9 de março.

    Mas, além das perdas na bolsa, a Petrobras pode ter planos de longo prazo prejudicados pelo baixo preço do petróleo. A empresa tem três leilões de direitos de exploração previstos para 2020, e a queda do barril pode diminuir a sua atratividade. Isso significa que as vendas podem ser adiadas ou arrematadas por valores menores – já que os retornos previstos para as empresas serão menores do que eram antes da queda no preço.

    A expectativa no mercado é que a Petrobras perca receitas em escala bilionária em 2020. A tendência também é que haja menos recursos disponíveis para investir na exploração de petróleo.

    Além disso, com o petróleo mais barato, é possível que a Petrobras repasse a queda para as bombas de combustível pelo Brasil – mas não há garantias de que isso aconteça. A definição dos preços nos postos brasileiros passam pelo crivo indireto da Petrobras. Isso porque a maior estatal brasileira define os preços dos combustíveis nas refinarias de petróleo, de onde os produtos saem para serem distribuídos por todo o país.

    Petrobras e os preços dos combustíveis

    COMO SE DÁ O CONTROLE

    Oficialmente, o preço dos combustíveis no Brasil é definido livremente pelo mercado, mas a Petrobras tem praticamente um monopólio em uma das etapas de produção: o refino. Assim, o preço que a estatal define para o combustível recém-refinado acaba sendo a base para todos os preços no país. Antes de chegar ao tanque, a gasolina e o diesel passam ainda por distribuidoras e pelos postos. Ao preço básico das refinarias somam-se os impostos e todos os custos das empresas envolvidas na distribuição e venda, além dos lucros.

    A POLÍTICA DE PREÇOS DESDE 2016

    Quando assumiu a Presidência da República em 2016, Michel Temer mudou a política de preços praticada pela Petrobras. Na época, a gestão escolhida para a estatal, sob o comando de Pedro Parente, definiu que a partir dali o preço dos combustíveis no Brasil seria pautado pela cotação do barril de petróleo no mercado internacional – em dólares. Em 2018, por aumentos no preço do petróleo e na cotação do dólar no Brasil, o governo brasileiro decidiu adotar medidas de atenuação de choques bruscos no preço da gasolina. Assim, se o preço internacional do barril estiver muito instável, o governo poderá acionar mecanismos que atrasam o impacto das mudanças no Brasil, protegendo o consumidor brasileiro de choques muito fortes no preço.

    Os ecos do preço dos combustíveis no Brasil

    Caso a Petrobras opte por reduzir o preço dos combustíveis nas bombas, o movimento pode ter efeitos negativos em duas principais frentes na economia brasileira.

    A primeira é o mercado de etanol, que concorre com a gasolina nos postos de abastecimento. O preço do álcool está em um momento de alta no início de 2020, e o produto não deve ter condições de concorrer com uma gasolina mais barata. A decisão de repassar a queda do preço do petróleo para a gasolina, portanto, pode inviabilizar o setor.

    A segunda frente é a arrecadação dos estados, que ganham receitas cobrando ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) nas bombas dos postos. Se o preço da gasolina ficar menor, os estados devem arrecadar menos, tendo menos receitas para cumprir compromissos e fazer investimentos.

    A arrecadação dos estados também deve ser impactada de outra forma no contexto de redução do preço internacional do petróleo. Caso a queda se consolide, estados e municípios devem ganhar repasses menores de royalties relacionados à exploração de petróleo. A perda nas receitas dos estados, portanto, pode ocorrer em duas frentes de arrecadação.

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