O projeto que usa deepfakes para entreter em vez de enganar

The Fakening subverte os propósitos maliciosos associados às manipulações, usando inteligência artificial para criar vídeos surreais e engraçados

    Um vídeo publicado nas redes sociais em setembro de 2019 mostra o CEO da Tesla, Elon Musk, fazendo um monólogo bizarro ao telefone. Em tom grave, ele ameaça perseguir e matar a pessoa no outro lado da linha. A imagem é convincente, mas é possível perceber algo de errado: a voz distintiva do ator Liam Neeson logo acusa que este é um vídeo adulterado da famosa cena do filme “Busca implacável” (2008).

    Esse tipo de fraude de imagens ou vídeos, difícil de identificar a primeira vista, é chamado de deepfake (ou “fake profundo”). A tecnologia já causou bastante tumulto por seu potencial de desinformação, sendo aplicada na produção de pornografia e na propagação de conteúdo enganoso sobre políticos. Mas o americano Paul Shales, criador do projeto The Fakening, percebeu que os deepfakes também podem ser usados para o humor.

    Shales é o responsável pelo vídeo de Elon Musk. O rosto do bilionário aparece em várias outras de suas criações, publicadas no Instagram, YouTube e Twitter. Em um post, ele está no corpo do ator Charlie Sheen, dando uma entrevista sobre seu consumo de drogas; noutro, inserido em uma cena de Game of Thrones ou de Star Trek.

    Ainda que bem produzidos, o propósito desses vídeos não é enganar: todos são acompanhados de descrições que denunciam o fake e levam a marca d’água do projeto. Além disso, em geral retratam situações absurdas, colocando rostos de homens em corpos de mulheres (e vice-versa), ou inserindo o presidente dos Estados Unidos Donald Trump em um videoclipe de rap rock.

    Lucrando com os deepfakes

    The Fakening é bem sucedido em entreter. “Eu pensei, ‘eu acho que consigo conquistar seguidores muito rápido se eu afastar [os deepfakes] da pornografia e transformá-los em memes engraçados”, comentou Shales em entrevista ao site The Verge. Criado no início de 2019, seu perfil no Instagram já tem mais de 170 mil seguidores.

    Os fakes se tornaram uma fonte de renda para Shales, que realiza projetos pagos por pessoas que o encontram na internet. Seus talentos já foram empregados inclusive por celebridades: o videoclipe da música “Nice to meet ya” do cantor Niall Horan, ex-membro da boyband One Direction, foi adulterado de forma a trocar o rosto de Horan pelo de Diplo, DJ que fez um remix da canção.

    Outro exemplo mais recente é o trabalho de Shales no vídeo de “Bad decisions”, single do novo álbum da banda de rock The Strokes, “The new abnormal”, com lançamento em 10 de abril. O clipe foi filmado com atores cujos rostos foram substituídos pelos integrantes do conjunto, que aparecem mais jovens.

    O rejuvenescimento dos Strokes foi gerado a partir de imagens antigas da banda, que foram alimentadas a um mecanismo de “deep learning” (ou “aprendizagem profunda”, daí o “deep” em “deepfake”), inteligência artificial capaz de aprender e manipular grandes quantidades de informações. Shales contou ao The Verge que esse foi seu maior projeto até hoje, elaborado ao longo de um mês.

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