O ‘PIB privado’ usado pelo governo. E o investimento no país

No último trimestre de 2019, volume total investido recuou 3,3% em relação ao trimestre anterior. Ministro Paulo Guedes aposta em reformas para estimular mercado

    O Brasil conheceu na quarta-feira (6) o resultado de seu Produto Interno Bruto de 2019, que cresceu 1,1% em relação ao ano anterior. Um dos itens que compõem o PIB, o investimento cresceu 2,2%. No último trimestre, porém, esse item recuou 3,3% em relação ao trimestre anterior.

    Investimento total

    Gráfico em linha. Taxa de investimentos no eixo Y, e cronologia no eixo X.

    A queda dos investimentos no último trimestre de 2019 chamou atenção porque esse item, na sua parte ligada ao setor privado, é a grande aposta do ministro da Economia, Paulo Guedes, para que o Brasil volte a crescer de forma consistente.

    Guedes promete reformas estruturais para que haja mais confiança do setor privado para investir. O setor privado foi responsável por cerca de 85% do volume de investimento total brasileiro nos últimos anos.

    Origens

    Gráfico em linha. No eixo Y, porcentagem de participação no total de investimentos. No eixo X, cronologia. Linha de famílias e empresas superior à linha do governo

    Desde 2016, o governo brasileiro, ainda com Michel Temer, aprovou um teto de gastos para o setor público, uma reforma trabalhista que flexibilizou as relações entre patrões e empregados, e uma reforma da Previdência, já com Jair Bolsonaro na Presidência, que dificultou o acesso a aposentadorias. O plano agora é aprovar uma reforma tributária e uma reforma administrativa.

    A polêmica do ‘PIB privado’

    No dia da divulgação dos resultados pelo IBGE, a Secretaria de Política Econômica, ligada ao ministério da Economia, emitiu uma nota para avaliar o desempenho econômico nacional. No texto, a equipe de Paulo Guedes usou a expressão “PIB privado”, separando o Produto Interno Bruto em duas partes, uma pública e outra privada, para comemorar o desempenho da economia em 2019.

    “A composição do PIB indica uma melhora substancial, com aumento consistente do crescimento do PIB privado e do investimento privado, de forma que a economia passa a mostrar dinamismo independente do setor público”

    Secretaria de Política Econômica

    Nota “Atividade Econômica e Resultados do PIB de 2019”, publicada em 4 de março de 2020

    No entanto, economistas questionaram essa separação. Segundo eles, é possível distinguir investimentos públicos e privados, mas não é possível dividir o PIB como um todo. O Produto Interno Bruto é composto de investimentos, consumo, gastos do governo e exportação menos importação.

    A divisão proposta pelo governo contradiz conceitos da macroeconomia, que dizem que todo bem ou serviço ofertado está relacionado (de forma não-causal) com uma demanda e uma renda gerada. É impossível “rastrear” as correspondências entre oferta, demanda e renda relativas especificamente ao que é público e ao que é privado, como sugere a separação do governo.

    Por exemplo, se o governo decide investir na construção de uma ponte, ele contrata uma empresa para construir a estrutura. Nesse caso, fica impossível definir se o produto final (a ponte) seria classificado como parte do "PIB público" ou do “PIB privado”, porque a demanda (o investimento) seria pública, mas a ponte seria produzida por uma empresa privada. E um mesmo bem não pode entrar nas duas contas ao mesmo tempo.

    A separação que é possível fazer é a de destrinchar os fatores que compõem a demanda ou a oferta. O consumo, por exemplo, fator que compõe a demanda, pode ser dividido em público (gastos com saúde e educação, por exemplo) e privado (compras de mercado por uma família, por exemplo).

    A mesma coisa vale para o investimento, que também faz parte da demanda: há investimentos que são feitos por empresas (como a construção de uma fábrica) e outros feitos pelo governo (como a construção de uma estrada).

    Duas análises sobre o investimento no Brasil

    O ´Nexo´ conversou com dois economistas sobre os fatores que mobilizam ou desmobilizam o investimento privado no Brasil.

    • Juliana Inhasz é doutora em Teoria Econômica pela Usp e professora do Insper
    • Antonio Corrêa de Lacerda é doutor pela Unicamp, professor e diretor da faculdade de Economia da PUC-SP e presidente do Cofecon (Conselho Federal de Economia)

    O que impede o investimento privado de aumentar de forma consistente no Brasil?

    Juliana Inhasz O setor privado não enxerga muito motivo para investir atualmente no Brasil. Ainda não foi convencido adequadamente. O setor privado investe ou porque pagamos bem ou porque prometemos crescer e, lá na frente, pagar bem.

    Hoje não entregamos nem uma coisa nem outra. Temos uma taxa de juros muito baixa, o que não atrai o investimento externo, e nossa economia não está crescendo. Além disso, a incerteza política é tão grande que coloca em dúvida se, no futuro, conseguiremos entregar um crescimento sólido.

    Antonio Corrêa de Lacerda A cantinela do governo de que, com as reformas, a confiança se retoma e o investimento cresce não tem precedentes na história econômica em que se apoiar. É um auto-engano. O investimento privado responde, na verdade, a crescimento econômico e a expectativa de rentabilidade.

    No entanto, o crescimento da economia brasileira é muito baixo porque o desemprego é muito elevado e o crédito ainda é muito caro. A renda da população está restrita. Além disso, por que o setor privado investiria, se o próprio governo, que é um indutor importante do investimento, não investe, e se não há expectativa de demanda? Aliás, pior, há capacidade ociosa no setor industrial.

    O que precisa ser feito para o setor privado investir para valer no Brasil?

    Juliana Inhasz As reformas já feitas eram fundamentais, mas ainda não suficientes para colocar o Brasil de volta a uma rota de crescimento. A superação da crise pede reformas muito mais amplas: não apenas a da previdência, mas outras com impacto mais efetivo no curto prazo. Precisa também de mais segurança jurídica, bem como de unidade e estabilidade política.

    Também falta uma agenda para o longo prazo, que aponte, de forma estratégica, aonde queremos chegar e como faremos isso. Era o caso, por exemplo, da Agenda Brasil, no começo dos anos 2000.

    Antonio Corrêa de Lacerda É preciso mudar substancialmente a política econômica. Isso inclui baratear o crédito para os financiamentos, retomar o investimento público, que está no menor nível da história, e criar um ambiente de política dos setores produtivos favorável ao crescimento. É necessário estimular o emprego, a renda e o crédito.

    O governo diz que fez a reforma da Previdência, mas o que isso muda para quem vai investir? Não muda nada. Sem uma política industrial de fato, ninguém vai investir. Isso só irá acontecer quando houver expectativa de crescimento econômico mais robusto e sustentado.

    Como avalia a estratégia de Paulo Guedes em apostar nas reformas legislativas para impulsionar o investimento privado e retomar o crescimento?

    Juliana Inhasz O ministro Paulo Guedes tem intenções claras e aposta no investimento privado, o que faz sentido. No entanto, ele não diz que ações factíveis planeja para promover esse tipo de investimento. Falta uma agenda, com medidas concretas de fomento ao desenvolvimento econômico.

    Hoje, temos objetivos de curto prazo, com reformas que vão apagando incêndios. Sabemos que queremos sair do déficit e voltar a crescer, mas não sabemos que ações tomar para fazer isso.

    Antonio Corrêa de Lacerda A estratégia de Paulo Guedes não tem política industrial, política agrícola, política de crédito. Enfim, não tem importantes instrumentos de política econômica. Para fazer o Brasil crescer, o governo teria que fazer uma mudança substancial na política econômica.

    Mas a equipe econômica, por motivos teóricos e ideológicos e por apoio dos rentistas, insiste em apostar somente nas reformas para retomar o investimento privado. Assim, como não vejo qualquer sinalização disso, também não vejo um crescimento econômico mais robusto e sustentado para este ano. O investimento, consequentemente, também não irá crescer. Continuam ganhando apenas o setor financeiro e os rentistas, que não dependem do crescimento econômico. Eles ganham especulando.

    Qual deve ser o papel do Estado brasileiro nos investimentos?

    Juliana Inhasz Para fomentar o crescimento, além de prover segurança jurídica, segurança política e instituições sólidas, o Estado tem que investir. Enquanto o investidor privado não sentir confiança, é o Estado quem tem que bancar a necessidade de investimento e mostrar aos investidores que confia no projeto econômico do país. Até porque foi o setor público quem nos colocou na situação de crise, com gastos excessivos. Ele tem responsabilidade e agora precisa contribuir.

    Se o Estado não investir, o processo de retomada será extremamente lento e, mesmo que aconteça, fica suscetível a inúmeros choques, sem conseguir abandonar de forma sólida esse passado recessivo. O setor privado, se enxergasse viabilidade econômica no país, teria capacidade de investimento mesmo em obras de infraestrutura e conseguiria maior eficiência em seus projetos, porque se especializa em diferentes setores. Na falta dele, porém, o Estado deve agir.

    Antonio Corrêa de Lacerda O Estado tem um papel fundamental especialmente em momentos de crise, como é o caso brasileiro. Ele mesmo deve realizar os investimentos e, via política econômica e bancos públicos, criar as condições para o desenvolvimento da atividade econômica.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

    Já é assinante?

    Entre aqui

    Continue sua leitura

    Para acessar este conteúdo, inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: