O que o PIB de 2019 diz sobre a política econômica de Bolsonaro

Em ano de estreia do presidente, economia cresce 1,1%, abaixo do desempenho de 2018 e 2017. Especialistas ouvidos pelo ‘Nexo’ projetam baixo crescimento em 2020

    O PIB (Produto Interno Bruto) do Brasil cresceu 1,1% em 2019 em relação ao ano anterior, divulgou o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) na quarta-feira (4). O número marca o primeiro ano de mandato do presidente Jair Bolsonaro, cuja política econômica é chefiada pelo ministro Paulo Guedes.

    O PIB é o resultado da soma de todos os novos bens e serviços produzidos no país em certo período de tempo. Por ser um indicador de quanto e como a economia produziu em determinado período observado, o PIB aponta se a economia se expandiu, encolheu ou se manteve igual na comparação com outros momentos. Em sua metodologia, o IBGE contabiliza apenas os produtos finais, para evitar contagem dupla de valores.

    O PIB NA DÉCADA

    Crescimento anual do PIB brasileiro na década. Desde 2012, só uma vez foi acima de 2%. Em 2015 e 2016, foi negativo

    O resultado de 2019 manteve a tendência de baixo crescimento que persiste desde 2017, e está em linha com o esperado pelo mercado no fim de 2019 – conforme registrado no relatório Focus, boletim que é publicado semanalmente pelo Banco Central e compila as expectativas de agentes do mercado sobre a economia. As expectativas eram mais otimistas antes do início do mandato de Bolsonaro: no fim de 2018, entre a eleição e a posse do presidente, as projeções apontavam para um crescimento em torno de 2,5% em 2019.

    Da mesma forma, o PIB per capita – resultado da divisão do produto pelo total da população brasileira – teve baixo crescimento em 2019. O índice pondera o crescimento da atividade econômica pelo crescimento da população em um mesmo período.

    0,3%

    foi o crescimento real do PIB per capita no Brasil em 2019

    O patamar da economia brasileira

    O crescimento de 1,1% em 2019, somado aos desempenhos de 2017 e 2018, não foi suficiente para recolocar a economia brasileira acima do nível anterior às perdas ocorridas durante a recessão de 2015 e 2016. Segundo o IBGE, o patamar do PIB no fim de 2019 era o mesmo do começo de 2013.

    Os resultados de 2019 mostram que a economia brasileira ainda não se recuperou da queda ocorrida durante uma das mais longas recessões da história do país, que teve início no segundo trimestre de 2014 e durou até o fim de 2016.

    Bolsonaro e Guedes em 2019

    No primeiro ano de Bolsonaro na Presidência, a economia teve um desempenho semelhante a 2003, ano de estreia de Luiz Inácio Lula da Silva no comando do país. Assim como em 2019, o crescimento daquele ano foi de 1,1%.

    Em 2003, a economia brasileira se recuperava de uma crise energética ocorrida no governo de Fernando Henrique Cardoso e de impactos da desconfiança do mercado sobre o próprio Lula e suas ações na Presidência da República.

    Em 2019, Bolsonaro assumiu uma economia em recuperação lenta e desemprego alto, mas com amplo apoio do mercado, que reagiu com otimismo à sua eleição. Confiando no superministro Paulo Guedes, apostou em uma agenda liberal para tentar retomar o ritmo da atividade econômica do país. Tendo como pauta privatizações e reformas para redução do gasto público, Guedes falava no início de 2019 em um crescimento de 3% a 3,5% no ano. O resultado veio bastante abaixo dessa meta.

    Alguns números do PIB de 2019

    1,1%

    foi o crescimento do PIB brasileiro em 2019, em relação a 2018

    0,4%

    foi a queda no consumo do governo brasileiro em 2019, em relação a 2018

    1,8%

    foi o crescimento do consumo das famílias brasileiras em 2019, em relação a 2018

    0,5%

    foi o crescimento da indústria brasileira em 2019, em relação a 2018

    Duas análises sobre a política econômica de Bolsonaro

    Com base nos números divulgados pelo IBGE, o Nexo conversou com economistas para entender de que maneira os resultados de 2019 se relacionam com a política econômica do governo de Jair Bolsonaro em seu ano de estreia.

    • Nelson Marconi, coordenador do Centro de Estudos do Novo Desenvolvimentismo da Escola de Economia da Fundação Getulio Vargas
    • Fernando Ribeiro Leite, professor de economia do Insper

    Como definiria a política econômica do governo de Jair Bolsonaro em 2019? Quais foram suas principais medidas e características?

    Nelson Marconi A principal característica é a ausência de uma política econômica ativa. Eles [a equipe econômica do governo] tinham uma diretriz, que era tirar ao máximo possível o Estado da economia. Do próprio ponto de vista da política econômica, [a diretriz] é tentar reduzir a atuação do setor público.

    Outra coisa é que eles se preocupam muito apenas com o que chamamos de condições de oferta. Entendem que, ao agir dessa forma, vão conseguir reduzir os encargos sobre o setor privado, e que isso vai estimular o nível de atividade. Não há nenhuma prioridade, nenhum olhar para o que chamamos de lado da demanda. Mas os consumidores precisam ter renda e as empresas precisam ter receita, por sua vez, para poder aumentar o investimento e a economia crescer.

    Quando eles viram que o negócio não estava andando, eles adotaram uma medida que está associada a essa questão da demanda, que foi o que fizeram com o Fundo de Garantia [liberação de saques do FGTS]. No fundo, houve uma pressão sobre o governo, que acabou fazendo com que adotassem algum tipo de medida.

    Fernando Ribeiro Leite A única coisa que o Bolsonaro fez em termos de política econômica em 2019 foi passar uma reforma da Previdência que, de todo modo, já estava na agenda de Temer [2016-2018]. Então, em termos de política econômica, Bolsonaro não fez nada de original. Na verdade, acho que é uma apolítica econômica – uma ausência de política econômica.​​

    O ministro da Economia [Paulo Guedes] parece se dedicar mais a fazer declarações bombásticas e controversas que pressionam o câmbio do que propriamente conduzir e costurar acordos para encaminhar uma agenda de reformas.

    As diretrizes [da política econômica], como tudo no governo Bolsonaro, foram erráticas, oscilatórias. Apontavam para um lado e iam para o outro. Por exemplo, no começo do ano, falou-se em abertura comercial, mediante redução de tarifas de importação. Aí, de repente, algumas semanas atrás, o ministro disse que o câmbio desvalorizado é bom, porque já está gerando substituição de importações. Não dá para entender para onde vai. É abertura comercial ou substituição de importações? Ou é um, ou é outro. Estamos voltando para os anos 1960 e 1970, com certo estruturalismo econômico, ou estamos com uma agenda de uma democracia liberal, como eles [membros do governo] propagam? Não dá para dizer.

    Essa política se reflete nos números do PIB de 2019? Como?

    Nelson Marconi Acho que sim, porque o PIB está andando de lado já faz um bom tempo. Se olharmos essa taxa acumulada nos últimos quatro trimestres, ele [o crescimento do PIB] está rodando nessa casa do 1% (ou um pouco mais) desde o fim de 2017. Estamos há três anos – 2017, 2018 e 2019 – seguindo na mesma toada.​​

    A atividade está em um nível muito baixo, e sem nenhum reflexo grande do ponto de vista da demanda. Às vezes alguns componentes específicos ajudam mais, mas no geral a taxa continua muito baixa. Quando se olha o PIB per capita, então, [o crescimento] é mais baixo ainda: está próximo de zero. Acho que é reflexo dessa política: não há nenhum grande estímulo para a demanda.

    A única medida importante tomada foi a queda na taxa de juros. Essa queda teve impacto na construção, e isso aparece no PIB, porque a construção teve um sopro. O setor estava caindo e agora tem uma ligeira recuperação. Os próprios consumidores estão tirando recursos de alguns investimentos e aplicando no mercado mobiliário, o que ajuda o setor. Isso aparece, é a medida mais importante. Mas acho que ocorreu muito mais porque estávamos em uma recessão muito forte do que por acreditarem nisso. E há, um pouco em função do saque do FGTS, uma ligeira alta no consumo das famílias. Mas vemos que o patamar está muito parecido com o de outros trimestres. E continuamos com a indústria lá embaixo, crescendo muito pouco, que é um fator que atrapalha todo o restante da economia.

    Fernando Ribeiro Leite Ela se reflete do jeito que veio: é o “pibinho” do Bolsonaro. Falavam do PIB da Dilma, mas esse 1,1% é francamente uma frustração. E é claramente uma tradução da falta de coordenação e da falta de empenho do Executivo federal em encaminhar uma agenda.​​

    Em vez de articular para passar outros elementos da agenda (passou apenas a reforma da Previdência), o governo resolveu se engajar em duelos com o Congresso e duelos com a sociedade. Em vez de encaminhar resolução para os problemas, o governo resolveu criar novos problemas no front econômico.

    Vejo que esse 1,1%, de um lado, é uma frustração, porque prevíamos que seria melhor no começo do ano, em torno de 2,5%, 2,2%. Mas, ao longo do ano, foi se consolidando que, de fato, era isto que ia acontecer: mais um ano de crescimento baixo, crescimento medíocre. Só que pior ainda: acompanhado de uma ausência de pragmatismo na agenda econômica.

    Com base no que se desenha para a política econômica de 2020, o que podemos esperar da economia brasileira para o ano?

    Nelson Marconi Acho que a gente tende a continuar, infelizmente, nesse mesmo ritmo em que estamos há três anos. Vamos continuar crescendo em torno de 1%. Não há nada que possibilite crescimento maior.​​

    O governo, logicamente, vai dizer que vamos crescer pouco por causa do coronavírus. Mas, veja bem, já estamos crescendo pouco há muito tempo. Isso [a epidemia] pode atrapalhar o mundo inteiro, principalmente o setor de serviços em um primeiro momento. Realmente, pode haver um impacto no PIB – não só nosso, mas de todos os países. Mas já estávamos crescendo pouco antes disso. O que pode acontecer é que a gente cresça até um pouco menos neste ano [2020, em relação a 2019], dependendo do impacto em função do avanço desse vírus. Não sabemos como vai ser isso. Mas não consigo ver uma melhoria.

    Há aquelas previsões de que vamos crescer 2%, 2% e pouco. Olhando para os dados, não consigo ver onde. Nosso problema principal está na insuficiência de demanda. E isso o governo não acha que é um problema e não acredita que precisa atacar. Então vamos continuar crescendo pouco.

    Para sairmos do buraco, com a demanda muito baixa, teríamos que ter algum estímulo via investimento público ou via setor externo, porque o setor privado tem uma demanda insuficiente. As exportações estão ruins e vão continuar ruins, pelo jeito, porque a economia mundial vai desaquecer. E o governo não acredita em investimento público, então vamos continuar nesse ritmo.

    Fernando Ribeiro Leite Primeiro, há uma pressão internacional de forte recessão que virá à frente por conta da epidemia [de coronavírus]. Provavelmente, o que veremos é um primeiro trimestre, em termos de economia mundial, em franca desaceleração. E a recuperação dessa desaceleração na economia mundial acontecendo de maneira gradual ao longo do ano. Então isso deve trazer impactos negativos para fluxo de capital no Brasil e fluxo de comércio internacional do Brasil com o resto do mundo.​​

    Dentro do Brasil, há uma coisa que é pagar o preço por quase uma década de baixo crescimento, começando lá com a Dilma Rousseff. Pagamos esse preço com um parque industrial com investimento em máquinas e capital fixo baixíssimo. Esses fluxos de investimento desaceleraram, estão baixos em termos históricos.

    Dito de uma forma mais clara: uma coisa estrutural na economia brasileira que vem acontecendo há seis, sete anos é: sua capacidade produtiva diminuiu. O estoque de capital regrediu e a capacitação da mão de obra também regrediu. Então os dois fatores de produção fundamentais para uma economia andar para frente – capital e trabalho – estão em regressão no Brasil. Isso diminui nosso PIB potencial.

    Além disso, estamos sem muita meta, sem muita definição de política econômica. Acho que o governo Bolsonaro tem que vir a público e falar o que quer do ponto de vista da economia mais claramente. E não ficar falando uma coisa e ficar fazendo outra.

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