Como a Itália tenta conter o efeito do coronavírus na economia

País com surto mais grave da doença fora da Ásia já sente impacto da epidemia no turismo e prepara pacote bilionário de estímulo fiscal

    A epidemia de coronavírus tem na Itália um de seus principais focos fora da China. Até quarta-feira (4), havia mais de 3.000 casos confirmados da doença no país, com pelo menos 100 mortes registradas. O governo decretou que escolas e universidades fiquem fechadas entre 5 e 15 de março.

    A Itália é hoje o local mais atingido pelo vírus fora da Ásia. No mundo, apenas China (epicentro do surto da doença) e Coreia do Sul têm mais casos confirmados. Na Europa, o segundo país com mais ocorrências é a França, com cerca de de 262 infectados.

    Diante do aumento no número de casos e de países afetados, a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) diminuiu a projeção para o crescimento da economia global em 2020. A economia italiana também já começou a sentir os impactos da rápida disseminação do vírus no país, e o governo preparou medidas para reagir aos efeitos negativos da epidemia sobre a atividade econômica. Abaixo, o Nexo traz os principais setores afetados e as ações tomadas pelo governo italiano.

    Os impactos na economia italiana

    O norte da Itália tem sido o principal palco do surto, em especial as regiões da Lombardia e do Vêneto. São locais que concentram cerca de um terço da produção de bens e serviços e 40% das exportações do país.

    Atividades caracterizadas pela reunião de grande número de pessoas têm sido limitadas nas regiões. Estabelecimentos de cultura, como cinemas, teatros e casas de festa têm permanecido fechados nas cidades mais atingidas, como Veneza, Verona e Milão. Da mesma forma, diversos museus têm restringido o número permitido de visitantes. O tradicional Carnaval de Veneza foi cancelado por conta do surto da doença. Algumas cidades recorreram ao confinamento, estratégia usada também nos locais mais atingidos da China.

    O campeonato italiano de futebol também foi afetado. Por conta do vírus, partidas foram adiadas ou realizadas com portões fechados, para evitar a grande concentração de pessoas nas arquibancadas. O presidente-executivo da Inter de Milão, Giuseppe Marotta, chegou a afirmar que a temporada do campeonato da primeira divisão pode não ser concluída se mais jogos forem adiados.

    Além da limitação do acesso a espaços públicos e aglomerações, empresas que operam na Itália têm incentivado os funcionários a trabalhar de casa. A medida, adotada por companhias como a seguradora Generali e a gigante da moda Armani, levou à redução da circulação nas ruas das principais cidades do norte italiano.

    Os efeitos no turismo na Itália

    De todos os setores impactados pela doença, o mais atingido é o turismo, que representa uma parcela significativa do PIB (Produto Interno Bruto) da Itália. No quinto país mais visitado do mundo, o setor é responsável por 13% de toda a atividade econômica nacional. Uma derrocada do setor, portanto, pode ressoar pelo restante da economia.

    A Turquia, por exemplo, ordenou o cancelamento de todos os voos com origem ou destino na Itália. Da mesma forma, autoridades de saúde dos EUA e do Japão recomendaram não viajar ao país – somente em casos “essenciais”. Na segunda-feira (2), a companhia aérea brasileira Latam suspendeu os voos entre São Paulo e Milão.

    O impacto já é sentido nos setores de viagens aéreas e hotelaria da Itália. Em Nápoles, Veneza e Milão, os hotéis registram aumento nos cancelamentos e queda na taxa de ocupação. O efeito chegou até cidades pouco atingidas pelo coronavírus, como Roma, capital do país. A queda nas atividades do setor de turismo podem resultar na demissão de milhares de funcionários.

    Além do turismo, a redução no tráfego internacional também tem impactado o setor ligado à importação e exportação de produtos. Os efeitos são mais sentidos em setores com vínculos comerciais com a China, principal foco de coronavírus no mundo. Fontes ligadas ao setor comercial italiano ouvidas pelo jornal The New York Times esperam queda de cerca de 20% nos lucros de empresas com ligações de importação e exportação com a China.

    As medidas do governo italiano

    Na virada de fevereiro para março, o governo italiano anunciou dois pacotes para estimular a economia e dar suporte às regiões mais atingidas pelo novo coronavírus. O primeiro, anunciado na sexta-feira (28), injetava € 900 milhões (cerca de R$ 4,5 bilhões, na cotação de 3 de março) na economia italiana. O segundo, anunciado no domingo (1°), aportava € 3,6 bilhões (cerca de R$ 18 bilhões, na cotação de 3 de março).

    € 4,5 bilhões

    é o total injetado pelo governo italiano na economia na virada de fevereiro para março de 2020. O valor equivale a cerca de R$ 22,5 bilhões, na cotação de 3 de março

    O ministro da Economia da Itália, Roberto Gualtieri, afirmou que os pacotes buscam dar suporte às empresas e aos trabalhadores mais afetados pelo surto da doença. O plano é dividido em diferentes etapas e escalas.

    No primeiro momento, o governo pretende oferecer apoio imediato às cidades onde o coronavírus marca presença mais forte – em especial as do norte do país que estão em quarentena. Nessa etapa, o governo decidiu atrasar o prazo para pagamentos de impostos nesses locais, adiando também o pagamento de hipotecas. Para as empresas que registrassem quedas de ao menos 25% nas receitas, o governo prometeu incentivos na forma de crédito tributário. As cidades mais afetadas também devem receber mais aportes para serviços de saúde.

    A segunda etapa do programa de estímulo consiste em uma política ativa de aumento nos gastos do governo. Ainda não foi detalhado para que setores esses gastos serão direcionados, nem os valores destinados a cada área da economia. Para conseguir aplicar o plano de estímulo, o governo italiano iniciou conversas com a União Europeia, procurando autorização para elevar a meta de deficit fiscal para o ano.

    Além disso, o ministro da Economia italiano disse que procura, junto a outros ministros do bloco europeu, criar um plano de ação fiscal conjunta. Isso significa que diversos países da União Europeia se uniriam para elevar gastos e cortar impostos, buscando aquecer a economia no bloco. As conversas ainda estão em fase inicial, e não há previsão de valores ou prazos.

    A questão da dívida pública italiana

    Uma das preocupações que surge nos mercados quanto ao poder de ação do governo italiano é o alto patamar da dívida do país no início de 2020. A relação dívida/PIB da Itália é a segunda mais alta da União Europeia, atrás apenas da Grécia.

    135%

    é a relação dívida/PIB da Itália no início de 2020

    A dívida pública de um país é formada pelo acúmulo de deficits ao longo dos anos. Ela aumenta quando as receitas do governo são menores que suas despesas para cobrir a diferença, mais dinheiro é tomado emprestado. Isso é feito essencialmente por meio da emissão de títulos de dívida e de sua venda no mercado de capitais. A dívida pública é importante para um país na medida em que indica o estado das contas do governo.

    É comum que se examine a relação dívida/PIB ao se avaliar a saúde das finanças públicas. Essa relação compara a magnitude de tudo o que o país deve e quanto consegue produzir de riqueza por ano. Os 135% sustentados pela Itália no início de 2020 podem ser considerados um patamar alto.

    O impacto do coronavírus no Brasil

    Três casos do novo coronavírus haviam sido confirmados no Brasil até quarta-feira (4), e um quarto aguarda um exame de confirmação. Não há evidências de transmissão interna da doença. Apesar disso, a economia já sentiu os impactos da epidemia.

    Além da queda na bolsa de valores de São Paulo – que seguiu a tendência de instabilidade nos mercados financeiros pelo mundo –, economistas já tratam de possíveis efeitos negativos do coronavírus sobre o PIB brasileiro em 2020. O governo brasileiro admitiu a possibilidade de uma redução da atividade econômica por conta do vírus.

    O crescimento previsto do PIB para 2020 varia de acordo com cada projeção, mas tende a ficar em torno de 2% no ano. O governo mantém a previsão de crescimento de 2,4%, enquanto o relatório Focus – que é publicado semanalmente pelo Banco Central e compila as expectativas de agentes do mercado sobre a economia – de 28 de fevereiro projeta alta de 2,17%, 0,03 ponto percentual abaixo da previsão da semana anterior.

    Um dos fatores apontados para a possível diminuição do PIB brasileiro é a redução do comércio mundial, o que resultaria em menor demanda por produtos brasileiros e menor oferta de insumos para a cadeia produtiva no Brasil. Os movimentos globais também podem afetar os preços de commodities, atingindo exportadores brasileiros em setores como a siderurgia e a mineração.

    Especialistas ouvidos pelo Nexo no fim de janeiro de 2020 também apontaram possíveis reduções no consumo pelo mundo, a depender da escala atingida pela doença – por medo de sair às ruas, as pessoas podem deixar de trabalhar, viajar ou fazer compras. Por ora, esse cenário ainda está distante no Brasil, mas já é realidade na Itália.

    530

    era o número de casos suspeitos de Covid-19 no Brasil em 4 de março de 2020, segundo o Ministério da Saúde

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