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Coronavírus: o possível impacto de adiar a Olimpíada de Tóquio 

Governo japonês considera realizar evento até o fim do ano, e não em julho, por causa de epidemia da doença. COI descarta ideia 

O governo do Japão afirmou que considera adiar os Jogos Olímpicos de Tóquio, previstos para acontecer entre 24 de julho e 9 de agosto. Em declaração dada nesta terça-feira (3), a ministra da Olimpíada, Seiko Hashimoto, disse que a proposta seria adiar a realização do evento para o fim do ano.

Segundo a ministra, o contrato do país com o COI (Comitê Olímpico Internacional) prevê que os jogos têm de acontecer no ano de 2020. Na avaliação das autoridades japonesas, isso permite que o torneio aconteça alguns meses depois da data prevista.

O COI, no entanto, descartou a possibilidade de mudar a data dos jogos. “O COI está totalmente determinado a fazer com que os jogos ocorram com sucesso a partir de 24 de julho até 9 de agosto”, afirmou o dirigente da entidade, Thomas Bach, em Lausanne, na Suíça. Algumas semanas atrás, o canadense Dick Pound, vice-presidente do COI, chegou a sugerir o cancelamento dos jogos se o surto piorasse.

Em comunicado, a organização afirmou que medidas de prevenção foram previamente discutidas com o comitê japonês do evento, as autoridades do país e a OMS (Organização Mundial da Saúde). O COI disse ainda que continuará seguindo as recomendações da OMS.

US$ 12,6 bilhões

custo dos Jogos Olímpicos de Tóquio

Para a Olimpíada no Japão, são esperados 11.000 atletas olímpicos e 5.000 paralímpicos. Uma cidade que sedia os Jogos Olímpicos costuma receber uma quantidade grande de turistas estrangeiros também. Em Londres, em 2012, foram 470 mil, enquanto que o Rio de Janeiro contabilizou cerca de 410 mil, segundo informações oficiais.

Os Jogos Olímpicos foram cancelados apenas três vezes, por conta de guerras mundiais. Em 1916 (seriam em Berlim), por causa da Primeira Guerra, e em 1940 (Tóquio) e 1944 (Londres), por causa da Segunda Guerra.

Nunca houve um cancelamento por motivo de saúde pública. Em 2016, 150 cientistas de várias partes do mundo assinaram uma carta em que pediam o adiamento ou mudança de local das Olimpíadas do Rio de Janeiro por causa do surto de zika. A OMS, entretanto, afirmou à época que não via justificativa para uma decisão dessa magnitude.

Como o Japão lida com o coronavírus

A epidemia de coronavírus começou na China, no fim de dezembro de 2019, e já atinge mais de 70 países. O Japão contabiliza ao menos 283 infectados e 6 mortes. O primeiro caso foi confirmado no país em 28 de janeiro. No mundo, já são cerca de 3 mil pessoas mortas e mais de 90 mil pessoas contaminadas. O Brasil confirmou dois casos de infecção.

As autoridades japonesas sofreram críticas pela maneira como administraram uma quarentena de passageiros de um navio cruzeiro que aportou em Yokohama em meados de fevereiro. Uma reação demorada e medidas incompletas de isolamento de infectados resultaram em mais de 600 passageiros e tripulantes contaminados, além de duas mortes. Além disso, cidadãos japoneses foram autorizados a desembarcar sem passar por quarentena, voltando a circular entre a população.

Em artigo publicado no New York Times, o cientista político japonês Koichi Nakano atacou a postura do governo do país, chamando-a de “impressionantemente incompetente”. Nakano lembrou que o primeiro-ministro, Shinzo Abe, rejeitou um pedido da oposição para aumentar o orçamento dos esforços de combate ao vírus, apesar de já haver registros de falta de equipamentos e profissionais médicos no país. Em resposta, um funcionário do Ministério das Relações Exteriores disse que o governo tem sido “pró-ativo” e, no caso do navio, “fez o seu melhor apesar de circunstâncias desafiantes”.

Impactos econômicos de um cancelamento

Em dezembro de 2019, a organização das olimpíadas de Tóquio divulgou que o orçamento do evento era de aproximadamente US$ 12,6 bilhões. O valor é sete vezes maior que estimativas iniciais. A estimativa oficial do custo dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016, foi de US$ 12 bilhões.

Empresas japonesas desembolsaram mais de US$ 3 bilhões em cotas de patrocínio até agora. Do exterior, também vem dinheiro. A empresa de TV americana NBC teria pago US$ 1,4 bilhão pelos direitos de transmissão. A TV Globo é uma das emissoras brasileiras com direitos de transmitir competições do evento. De acordo com o site da área de comunicação Meio e Mensagem, cobra quase R$ 100 milhões por uma cota de patrocínio no mercado brasileiro.

A indústria de turismo do Japão também tem grandes expectativas com o evento, de cadeias de hotéis a empresas aéreas. A Japan Airlines aproveitará os Jogos para lançar uma subsidiária nova, de voos de baixo custo. Chamada Zipair Tokyo, receberá um investimento de US$ 200 milhões para dar conta do aumento da demanda durante a competição.

No entanto, apesar da dimensão dos investimentos, especialistas preveem que o impacto no PIB do Japão de um eventual adiamento ou cancelamento não seria expressivo – considerando o efeito que o coronavírus já está tendo na economia. “O ponto principal é que a maioria dos gastos para as Olimpíadas já aconteceu. Os gastos durante os jogos são pequenos, talvez apenas 0,2% do PIB, e muito disso seria gasto [de qualquer forma] em outras opções de turismo e lazer”, disse Marcel Thieliant, economista especializado em Japão da consultoria Capital Economics, ao site The Diplomat.

Segundo o economista, o influxo de turistas ao país já diminuiu por conta do surto, uma tendência que deve continuar ao longo do ano. A estimativa é que essa queda reduza o crescimento do PIB em até 0,4%. Cancelar o torneio em cima disso teria “impacto adicional marginal”.

Outros eventos cancelados por causa do coronavírus

  • O Grande Prêmio de Fórmula Um da China, marcado para 19 de abril, foi adiado.
  • Grandes prêmios seguintes, programados para acontecer na Austrália, Vietnã e Barém, também poderão ser adiados.
  • A 14ª Maratona de Tóquio, que aconteceu em 1º de março, cancelou a participação de corredores não-profissionais. Dos 38 mil participantes esperados, apenas 200 atletas profissionais correram.
  • A Game Developers Conference (GDC), em San Francisco, EUA, maior conferência de games do mundo, agendada para ocorrer entre 16 e 20 de março, foi cancelada.
  • Foi cancelada também a Mobile World Congress, um dos maiores eventos de tecnologia e celular do mundo, que reúne cerca de 100 mil pessoas anualmente em Barcelona.
  • O Facebook suspendeu sua conferência anual de desenvolvedores, a F8, programada para os dias 5 e 6 de maio, em San Jose, Califórnia.
  • O South by Southwest, evento de tecnologia e tendências que acontece em Austin, nos EUA, foi mantido. Mas várias pessoas e empresas cancelaram participações. Um abaixo-assinado pedindo seu cancelamento do evento já tem mais de 15 mil assinaturas.
  • O governo suíço anunciou a proibição de todos os eventos "públicos e privados" do país, envolvendo mais de 1.000 pessoas, até 15 de março. Um dos afetados foi o Salão de Genebra 2020, uma das principais feiras de automóveis do mundo.
  • O governo francês determinou o cancelamento de eventos com mais de 5.000 pessoas em áreas fechadas, além de alguns eventos externos.

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