Quais são as manifestações convocadas para março de 2020

Envolvimento de Bolsonaro põe em evidência protestos contra Congresso e Supremo. Opositores também vão às ruas

    Insufladas por uma declaração do ministro general da reserva Augusto Heleno, segundo a qual o governo estaria sendo chantageado pelo Congresso, redes bolsonaristas convocam uma manifestação contra parlamentares para 15 de março.

    A saída às ruas já estava sendo aventada desde janeiro, pela defesa da prisão em segunda instância, mas encontrou na fala do ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência, em 18 de fevereiro, o impulso de que necessitava para engajar apoiadores.

    A reclamação do general se referia à disputa entre governo e parlamentares em torno do controle do Orçamento público, com foco na obrigatoriedade de liberação de emendas parlamentares.

    O assunto ganhou ainda mais relevância depois que o próprio presidente Jair Bolsonaro compartilhou via WhatsApp um vídeo de chamamento para a manifestação de extrema direita, fato revelado em 25 de fevereiro, terça-feira de Carnaval, pela colunista Vera Magalhães, do jornal O Estado de S. Paulo.

    Profissionais da área jurídica e a classe política reagiram apontando possível quebra de decoro presidencial, um crime de responsabilidade passível de impeachment. Bolsonaro tentou despistar com ataques infundados à jornalista do Estadão. Nos bastidores, pediu para seus ministros não estimularem nem aparecerem no ato.

    Opositores do governo também se mobilizaram. Há pelo menos três atos marcados em março. Um no dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher. Outro dia 14, para lembrar os dois anos do assassinato da vereadora do PSOL Marielle Franco. E, por fim, mais um no dia 18, em defesa da educação e da democracia.

    A pauta bolsonarista em 15 de março

    Entre os grupos de maior adesão virtual que organizam a manifestação de 15 de março, estão o Nas Ruas, o Movimento Avança Brasil, o Movimento Brasil Conservador e o Movimento Conservador, antigo Direita Brasil. São grupos mais radicalizados da direita que se dividem entre apoiar apenas Bolsonaro ou incluir nas bandeiras levantadas a defesa da Operação Lava Jato.

    A ideia que os une para o dia 15 é a de que o presidente só não consegue realizar todo seu projeto de governo porque estaria refém de um “parlamentarismo branco”. O termo é usado como referência a um desequilíbrio de forças entre Executivo e Legislativo, em benefício dos parlamentares.

    As lideranças desses grupos negam que tenham tendências autoritárias ou que defendam o fechamento do Congresso ou do Supremo. Entre os seguidores desses grupos nas redes sociais, todavia, são numerosas as postagens que clamam pela deposição dos parlamentares e destituição dos ministros do Supremo, assim como ocorre em regimes ditatoriais.

    Os alvos principais das críticas são o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP). Como em todas as manifestações pró-Bolsonaro, entre os apoiadores há aqueles que defendem que a ocupação do poder por militares seria a solução para os problemas do país.

    Revoltam esse público decisões dos parlamentares que contrariaram projetos de Bolsonaro. Foi o caso da previsão em lei da prisão em segunda instância (por enquanto, já que projetos sobre o assunto estão em tramitação) e da ampliação do excludente de ilicitude para forças de segurança. Além dessas propostas, as reivindicações também incluem uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) contra magistrados.

    A pauta opositora em 8, 14 e 18 de março

    Para o 8 de março, Dia Internacional da Mulher, movimentos feministas já planejavam atos políticos pela defesa dos direitos das mulheres e contra o atual governo, como o protesto "Mulheres contra Bolsonaro".

    As pautas desses grupos abrangem questões como garantias trabalhistas, direitos reprodutivos e política ambiental. Também falam da violência contra mulheres, com motes como "justiça para Marielle, Claudias e Dandaras!". Diante da convocação pró-governo, agora planejam dar maior ênfase à questão democrática.

    Entre as organizadoras das manifestações estão as líderes do Movimento Mulheres em Luta e do Marcha Mundial das Mulheres, bem como integrantes de páginas do Facebook sem lideranças evidentes. Entidades sindicais também participarão do evento, em protesto aos impactos da reforma da Previdência na vida das mulheres brasileiras.

    Nas eleições de 2018, o eleitorado feminino foi uma das maiores dificuldades de Bolsonaro para se eleger. Aproximadamente metade das brasileiras rejeitavam uma Presidência bolsonarista, e as manifestações de “#EleNão”, em referência ao então candidato do PSL, foram as maiores manifestações de mulheres da história do Brasil.

    Já o dia 14 marca os dois anos do assassinato da vereadora Marielle Franco e de seu motorista, Anderson Gomes. No estado do Rio de Janeiro, a data tornou-se oficialmente o "Dia Marielle Franco – dia de luta contra o genocídio da mulher negra".

    Os atos estão sendo convocados pelo PSOL e outros partidos de esquerda, como PT e PC do B, e também por movimentos feministas. São grupos que também prometem protestar em favor da ordem democrática e contra o que consideram ser uma "escalada autoritária da extrema direita".

    A falta de esclarecimento total sobre o crime contra a vereadora causa indignação nas redes. O Ministério Público do Rio enxerga “motivação política” na execução, mas ainda não denunciou quem seriam os mandantes do crime. Estão presos o sargento reformado da Polícia Militar Ronnie Lessa, que teria sido autor dos tiros, e o ex-PM Elcio Vieira de Queiroz, acusado de dirigir o carro em que Lessa estava.

    Para o dia 18 de março já estavam previstas manifestações em defesa da educação e dos serviços públicos e contra a política econômica do governo atual. Com o agendamento dos atos bolsonaristas, os organizadores dessas manifestações também decidiram ampliar a pauta para bandeiras como "ditadura nunca mais" e a defesa dos movimentos sociais e da liberdade de imprensa.

    Organizam os eventos entidades como a UNE (União Nacional dos Estudantes), o MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto) e centrais sindicais, apoiados por partidos de esquerda, de oposição a Bolsonaro, como PT, PSOL e PC do B.

    Lideranças dos movimentos de oposição ao governo consideraram que não há clima, por ora, para pedir o impeachment do presidente durante os atos. Nas redes sociais de movimentos à esquerda, porém, são numerosos os comentários de pessoas que defendem a destituição do presidente, que, segundo elas, desrespeitou a Constituição e cometeu crime de responsabilidade em diversas ocasiões.

    Manifestações na década

    Jornadas de Junho

    Uma onda de protestos que se espalhou por várias cidades brasileiras a partir de junho de 2013 começou pelo aumento do preço das passagens, mais ligado à esquerda, mas logo se estendeu para os mais diversos tipos de reivindicação política, pendendo à direita. Fazia 21 anos, desde o movimento pelo impeachment de Collor, que não havia mobilização de rua tão grande.

    Na rua contra o PT

    Em março de 2015, após a reeleição de Dilma Rousseff, começaram a ganhar expressão movimentos contra o governo do PT. Os verde-amarelos tomaram as ruas, especialmente apoiadores do candidato derrotado, Aécio Neves, do PSDB. No fim daquele ano, Eduardo Cunha, então presidente da Câmara, aceitou analisar um pedido de impeachment contra Dilma.

    Na rua pelo impeachment

    Movimentos como MBL, Vem Pra Rua e Revoltados Online ganhavam projeção e mostravam grande capacidade de mobilizar um público antipetista favorável ao impeachment. A eles se somavam radicais defensores da intervenção militar. Os atos de março de 2016 foram os maiores do país desde as Diretas Já, nos anos 80. Dilma foi afastada em maio daquele ano e destituída em agosto.

    A greve geral contra Temer

    A esquerda foi às ruas desde o impeachment em 2016, mas ganhou força mesmo no governo do vice Michel Temer, em abril 2017, com uma greve geral que parou o país contra a reforma trabalhista (posteriormente aprovada) e contra a reforma da Previdência (adiada). Com o tempo, a mobilização opositora arrefeceu. A direita também foi às ruas em defesa da Lava Jato, mas já sem a mesma força de antes.

    Os atos a favor e contra Bolsonaro

    No governo Bolsonaro, a oposição fez atos em torno da educação, em maio e agosto de 2019. Os protestos foram liderados por estudantes e professores, com apoio de sindicatos contrários à reforma da Previdência, que acabou aprovada. Houve ainda atos pela Amazônia. Já bolsonaristas se manifestaram pela pauta governista no Congresso. As ruas nunca voltaram a se encher como no impeachment de Dilma.

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