O que fazer diante da chegada do coronavírus ao Brasil

Dois casos confirmados no país foram importados, mas medo de propagação da doença gerou corrida por máscaras e álcool gel. O ‘Nexo’ conversou com Esper Kallás, professor de imunologia da USP, para tirar as principais dúvidas

    O Ministério da Saúde confirmou no sábado (29) um segundo caso do novo coronavírus no Brasil. Assim como o primeiro paciente identificado com o vírus, trata-se de um homem que esteve na Itália, país que enfrenta um surto de covid-19, nome dado à nova doença respiratória causada pelo coronavírus.

    O novo caso é de um homem de 32 anos que chegou de viagem de Milão na quinta-feira (27). Ele pegou avião de máscara, acompanhado da mulher, que não apresenta sintomas. No Brasil, foi atendido no Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, na sexta (28). Por ter o quadro clínico estável, foi orientado pelos médicos a ficar em isolamento domiciliar.

    A Anvisa (Agência Nacional de Segurança Sanitária) e secretarias de saúde começaram a investigar possíveis contatos próximos feitos durante a viagem. O procedimento é o mesmo adotado para o primeiro homem identificado com a doença no Brasil, na quarta-feira (26).

    O Ministério da Saúde afirma que não há evidências de contaminação dentro do Brasil. Até sábado (29), o órgão havia contabilizado 207 suspeitas de infecção e descartado 79. Quinze estados do país, além do Distrito Federal, têm casos suspeitos. A maior parte está em São Paulo.

    O coronavírus no mundo

    No mundo, foram registrados mais de 85 mil casos em 54 países, segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), e cerca de 2.900 mortes. A grande maioria aconteceu na China, mas outros países têm enfrentado crescimento acelerado de casos. Na Itália, o número passou de 1.000 no sábado (29) e foram registradas 29 mortes. Também no sábado os Estados Unidos tiveram o primeiro óbito pelo vírus.

    A OMS (Organização Mundial da Saúde) alterou, na sexta-feira (28), a avaliação de risco para o novo coronavírus no mundo, de “alta” para “muito alta”. “O alerta é para todos os governos do planeta”, afirmou Michael J. Ryan, diretor do programa de saúde emergencial da OMS. “Acordem. Se preparem. O vírus pode estar a caminho.”

    Uma empresa de biotecnologia americana, Moderna, anunciou uma vacina experimental contra o coronavírus na segunda (24). O desenvolvimento levou 42 dias, considerado um tempo recorde. Na China, a empresa Clover Biopharmaceuticals, em parceria com a britânica GlaxoSmithKline, declarou que poderá testar uma vacina em abril.

    Pânico e desinformação

    Desinformação, mentira e alarmismo acompanham a repercussão sobre o coronavírus no país. Fake news sobre tratamentos e casos circulam pelas redes sociais e pelo WhatsApp. Desde o início de fevereiro, a OMS tem trabalhado com empresas de tecnologia para tentar conter o que começou a chamar de “infodemia”.

    Uma mensagem falsa diz que um diretor do Hospital das Clínicas de São Paulo fez várias recomendações por estar “preocupado com a nova gripe”. O conteúdo falso também cita um suposto infectologista do Hospital São Domingos, que recomenda a ingestão de chá de erva-doce como forma de combater o vírus da gripe. As instituições desmentiram as informações.

    Por causa do aumento de notícias falsas sobre o coronavírus, empresas como Facebook, Google e Twitter anunciaram medidas para tentar conter o conteúdo errôneo. O Facebook, por exemplo, declarou ter firmado parceria com sete organizações parceiras para verificar conteúdo sobre coronavírus. Constatada a mentira ou imprecisão, a rede social fará com que o post perca circulação.

    Os modos de prevenção

    Os coronavírus são transmitidos pelo contato com secreções de pessoas contaminadas: gotículas de saliva, espirro, tosse, toque ou aperto de mão seguido de contato com boca, nariz e olhos.

    A pessoa pode ficar alguns dias com o vírus no corpo antes de apresentar os sintomas de febre, tosse e dificuldade para respirar. Em alguns casos, pode ser infectada e nunca apresentar os sintomas.

    Para reduzir os riscos de contágio e de transmissão, o Ministério da Saúde recomenda medidas simples como evitar contato próximo com os doentes, lavar frequentemente as mãos com água e sabão ou álcool gel, cobrir nariz e boca quando espirrar ou tossir, evitar tocar mucosas de olhos, nariz e boca e manter os ambientes bem ventilados.

    Dúvidas sobre o vírus

    Para esclarecer dúvidas sobre comportamento e medidas individuais, o Nexo conversou com o médico infectologista e imunologista Esper Kallás. Ele é professor da disciplina de Imunologia Clínica e Alergia da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) e professor titular do Departamento de Moléstias Infecciosas e Parasitárias da Faculdade de Medicina da USP.

    Diante da ameaça do coronavírus, o que vale mudar na rotina?

    Só manter os hábitos de higiene pessoal e mais nada.

    É necessário começar a usar máscara?

    Não, a máscara não funciona. Nunca nInguém demonstrou que o uso de máscara em ambiente público previne doença respiratória. A máscara deve ser restrita a pessoas que têm sintomas, para que não passem para outra pessoa, ou a quem vai entrar em contato com pessoas que têm sintomas para que não peguem o suposto vírus.

    Transporte público e aglomerações devem ser evitados?

    Não e não.

    Quais são os sintomas do coronavírus?

    Os mesmos de uma doença respiratória aguda, que são muito difíceis de distinguir de outras infecções respiratórias. Quando o caso é muito leve, parece um resfriado. Quando o caso é mais pesado, parece uma gripe.

    Se eu ficar gripado, o que devo fazer? Devo ir a um pronto-socorro verificar se estou com o coronavírus?

    Se a pessoa está com um sintoma respiratório leve ou moderado, a melhor opção é ficar em casa. Mesmo porque a gente não tem casos de coronavírus aqui no Brasil além daquele primeiro senhor que veio da Itália. Dada essa informação, as pessoas devem se comportar como vinham se comportando normalmente. Se apresentar algum sintoma respiratório, muito provavelmente isso é algum outro vírus ou alguma outra infecção e deve ser tratada como tal.

    Qual a diferença entre o coronavírus e outros vírus de gripe?

    É muito difícil distinguir. A única coisa que a gente percebeu de marcante é que as pessoas que adoecem de covid-19 têm mais idade, enquanto que a gripe costuma ser um pouco mais democrática, ela pega qualquer faixa etária. Claro que na gripe as formas mais graves estão nos extremos, ou seja, pessoas mais idosas ou mais novinhas, mas ela pega qualquer um, adulto, criança, velho. A covid-19 tem uma preferência por causar doença em pessoas acima de 40 anos, e isso vai aumentando até os 80. Isso é uma característica de todos os coronavírus, não é só o Sars-Cov-2, que é o que está causando essa epidemia. Aconteceu também com o Sars de 2002 e com o Mers, de 2012, no Oriente Médio.

    As crianças têm menos chance de pegar o coronavírus?

    Menos chance de desenvolver a doença. É claro que crianças, adolescentes e adultos jovens podem entrar em contato com o vírus, mas a chance de desenvolverem a doença é muito, muito menor.

    Qual o período de incubação do coronavírus?

    A média está batendo em 5 dias, mas isso pode variar em até 14 dias, segundo as informações que a gente têm recebido até agora.

    Quais outras doenças são comparáveis em termos de potencial de transmissão?

    Toda doença tem um potencial de transmissão. Cada uma vai ter um número que a gente dá. Parece, e esse número ainda está em fase de consolidação, que esse coronavírus tem uma taxa de transmissibilidade que é um pouco maior que o da gripe.

    Quais doenças hoje no Brasil são mais letais do que o coronavírus?

    A mortalidade do vírus da raiva é 99%. Não é uma ideia muito boa pegar raiva. Da febre amarela é 37%, então também não é uma ideia muito boa pegar. A mortalidade da gripe sazonal, em geral, é 0,2%. Do coronavírus está ainda em cálculo. Dados da China apontam para algo em torno de 3,4%. No resto do mundo estão dando um índice de aproximadamente 1,4%.

    O Brasil tem poucos casos confirmados. Como funciona o ciclo da doença agora? Dá para saber o quanto ela irá crescer no país para depois haver uma diminuição no número de casos, como já está acontecendo na China?

    Não dá para saber. O que não temos aqui é transmissão local documentada. Até agora não tivemos no Brasil nenhuma pessoa que pegou o vírus e passou para outra. E mesmo que isso acontecesse, essa segunda pessoa que pega pode ou não passar para uma terceira pessoa. Tem algumas maneiras de olhar para isso. O caso-índice, ou seja, aquele que é o caso inicial, depois tem uma transmissão conectada. Se você pega uma pessoa e sabe de onde veio, aí você consegue traçar. Ela pode passar por uma segunda geração de transmissão, por exemplo, mas você pode ir atrás e ir abrindo um leque de número de pessoas que poderiam ter entrado em contato, e aí você ainda tem alguma chance de conter.

    Mas se começar a ter várias gerações de transmissão, aí você não consegue mais conter. Fica uma transmissão livre dentro da sociedade. O que você tem de fazer é tentar focar as medidas, em vez de querer bloquear aquele surto você vai na direção de querer identificar onde estão as pessoas que têm as formas mais graves da doença para oferecer a melhor assistência possível para elas e, com isso, reduzir o potencial de mortalidade.

    Qual deve ser o papel do poder público?

    O que o Brasil tem que pode ser nossa salvaguarda? O SUS (Sistema Único de Saúde). Todo mundo critica muito o SUS, que é ruim, que a iniciativa privada é melhor, mas o que o brasileiro tem para enfrentar problemas como esse é o SUS, e a gente precisa olhar para ele com mais carinho. Essa é uma oportunidade de criar infraestrutura para valorizar o que é um tesouro brasileiro. Em outros países, as pessoas que caem doentes não têm para onde ir. Já o Brasil é a nação com o maior serviço público de saúde do mundo. A gente têm de fazer com que ele seja cada vez mais eficaz, cada vez mais funcional, para ele poder absorver os brasileiros que têm e, principalmente, os que não têm condições, e oferecer saúde de qualidade.

    Então, quando acontece uma ameaça como essa, a gente têm de correr atrás de buscar formas de fazer vigilância, fazer contenção antes da introdução do vírus, tentar retardar a disseminação dele caso ele tenha uma introdução pontual. E, caso ele comece a ser transmitido, ter métodos de monitoramento, identificação dos casos graves, investimento em pesquisa, investimento em inovação, busca de novos tratamentos para uma infecção numa pessoa mais frágil. Além de contribuir e participar do desenvolvimento de uma nova vacina, equipar os hospitais e oferecer tratamento intensivo para formas mais graves da doença.

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