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Como a morte de turcos na Síria afeta os rumos da guerra

Bombardeio que matou 33 pessoas faz crescer ameaça de escalada de militar no Oriente Médio

    Pelo menos 33 militares turcos foram mortos e dezenas ficaram feridos após um ataque ocorrido na quinta-feira (27) na província de Idlib, noroeste da Síria, perto da fronteira com a Turquia.

    O ataque pode ter sido realizado tanto por forças da Síria quanto da Rússia, países que formam a coalizão militar que mantém no poder o presidente sírio, Bashar al-Assad. Os russos operam a convite de Assad e dominam o espaço aéreo da Síria. Eles já haviam advertido as forças turcas sobre o risco de incidentes como esse na região.

    A Turquia, por sua vez, apoia grupos armados sírios que desde 2011 tentam depor Assad, sem sucesso. Esses grupos acabaram acuados recentemente por uma grande ofensiva dos sírios e dos russos, ficando confinados em seus dois últimos bastiões: Aleppo e Idlib, na zona de fronteira com a Turquia.

    Os turcos vêm avançando tropas sobre o território noroeste da Síria para tentar estabelecer uma zona-tampão na região de fronteira, com duas intenções: a primeira é concentrar ali os 3 milhões de refugiados sírios que hoje vivem na Turquia e que, agora, podem ser levados para a fronteira com a Grécia, como forma de pressionar politicamente a Europa. A segunda é militarizar essa zona, sob argumento de proteção humanitária, para dificultar que a minoria curda que vive na região crie ali um território independente.

    70%

    é o percentual do território sírio sob controle do governo Assad

    Num contexto onde há tantos interesses cruzados, os russos aparecem tentando restabelecer sua influência no Oriente Médio, depois que seus rivais americanos e europeus impuseram seus interesses ao derrubar Saddam Hussein no Iraque em 2003 e Muammar Gadaffi na Líbia em 2011. Há uma disputa permanente não apenas pelo petróleo, pelo gás natural e pelas rotas comerciais que passam pela região, mas pela projeção de força e por hegemonia, numa competição que ecoa a lógica da Guerra Fria (1945-1990).

    O risco de escalada da guerra

    A Turquia é membro da Otan (Aliança do Tratado do Atlântico Norte), principal clube de cooperação militar formado após a Segunda Guerra Mundial, em 1945, por potências europeias e pelos EUA.

    Embora a Otan seja hoje um órgão de cooperação ampla, que inclui o combate ao tráfico de pessoas e à pirataria internacional, seu grande tema é a autodefesa coletiva e solidária entre seus membros. Segundo esse princípio, um ataque a um membro da Otan pode ser revidado pelos demais.

    A morte dos 33 militares turcos na Síria não se encaixa perfeitamente nesse caso, mas pode vir a se aproximar, caso a situação se agrave. Imediatamente após o incidente, o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, pediu uma reunião de emergência entre os países-membros, que foi marcada para sexta-feira (28). Erdogan busca respaldo no momento em que suas forças são acuadas pela Rússia, uma potência muito maior.

    O norueguês Jens Stoltenberg, secretário-geral da Otan, confirmou em comunicado que o órgão recebeu de parte da Turquia uma solicitação baseada no artigo 4º do tratado, que estabelece que “todo aliado pode requerer consulta sempre que sua integridade territorial, independência política ou sua segurança estiver ameaçada”.

    As potências que fazem parte da Otan já participam do conflito na Síria, mas apenas de maneira tangencial – isso significa: sem realizar operações militares de grande envergadura contra as forças de Assad. Essa participação tem como justificativa combater o grupo terrorista Estado Islâmico, que se estabeleceu em território sírio depois de sua criação, no vizinho Iraque, de onde doutrinava e treinava agentes que se envolveriam em ataques nas cidades europeias.

    O apoio às forças rebeldes na Síria sempre foi por meio de informação, logística e armamento. Nenhum membro da Otan havia se engajado em operações terrestres para derrubar ou apoiar Assad ou os rebeldes. Agora, o entrevero direto entre as forças turcas e russas tem o poder de mudar esse cenário.

    Antes de ter acionado a Otan, Erdogan tentou promover um encontro entre ele, a chanceler alemã, Angela Merkel, o presidente francês, Emmanuel Macron, e o presidente russo, Vladimir Putin – este último comunicou que na data proposta, 5 de março, já tem outros compromissos agendados.

    A relação complicada entre turcos e russos

    Os governos da Rússia e da Turquia estão em lados opostos também em outro conflito, na Líbia, onde desde a morte de Gaddafi, em 2011, o país vive imerso numa guerra civil.

    Além disso, na própria Síria, forças turcas já haviam derrubado um caça russo, ainda em novembro de 2015. À época, Putin disse que o incidente foi uma “facada nas costas”.

    Os choques entre os dois países não impedem, entretanto, que seus líderes tenham agendas comuns. A principal delas ocorre na área de cooperação energética.

    Rússia e Turquia ainda mantêm relações próximas e ambos os países defendem uma agenda externa agressiva, por meio da qual seus líderes – dois populistas autocratas que perseguem a oposição e minam a democracia internamente – tentam mostrar-se fortes, atuantes e com prestígio internacional.

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

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