Ir direto ao conteúdo

Qual o impacto do novo coronavírus nos mercados brasileiros

Seguindo tendência global, Ibovespa despencou diante de temores ligados à disseminação da doença. Economistas ouvidos pelo ‘Nexo’ explicaram a reação das bolsas no Brasil e no mundo

    A bolsa de valores de São Paulo teve seu pior dia em quase três anos na quarta-feira (26). Na volta do Carnaval, período em que ações não são negociadas no Brasil, as empresas listadas viram seus papéis somarem perdas bilionárias.

    O desempenho ruim foi registrado pelo índice Ibovespa, o principal da B3, a bolsa de valores de São Paulo. O índice reúne as principais ações listadas na bolsa em um pacote pensado para representar o mercado brasileiro.

    7%

    foi a queda do Ibovespa em 26 de fevereiro de 2020

    R$ 260 bilhões

    foram as perdas conjuntas das ações de empresas reunidas no Ibovespa no mesmo dia

    R$ 4,44

    foi o valor do dólar ao final de 26 de fevereiro de 2020, com alta de 1,1% em relação à abertura da sessão

    Na quinta-feira (27), a tendência se manteve, com a bolsa fechando o dia com queda de 2,59% e o dólar operando na faixa dos R$ 4,50 (fechou a R$ 4,47, novo recorde nominal).

    A sessão de quarta-feira (26) foi a pior do mercado brasileiro desde o episódio conhecido como “Joesley Day” – ocorrido em 18 de maio de 2017, quando a bolsa despencou 8,8% após a divulgação de um diálogo entre Joesley Batista, um dos donos do frigorífico JBS, e o então presidente da República, Michel Temer.

    Em 26 de fevereiro de 2020, a queda da bolsa coincidiu com dois fatores que tomaram as atenções no Brasil. Um deles foi a repercussão negativa da mensagem compartilhada pelo presidente Jair Bolsonaro, convocando uma manifestação contra o Congresso – o que elevou a tensão entre o Executivo e o Legislativo.

    O outro foi a confirmação, na quarta-feira (26), do primeiro caso de coronavírus (Covid-19) no Brasil. O movimento da bolsa em reação à doença acompanhou a tendência mundial de baixa nos mercados financeiros por temor relacionado à disseminação do vírus.

    Os mercados no exterior

    Em outros países, os mercados financeiros operaram normalmente na segunda (24) e na terça-feira (25) – ao contrário do Brasil, onde a bolsa não abriu por conta do Carnaval. Nesses dias, os principais índices no exterior registraram forte baixa em reação às notícias de aumento nos casos de coronavírus pelo mundo, em especial na Itália.

    Segundo levantamento do jornal americano New York Times, o número de países com casos confirmados de coronavírus no início da semana do Carnaval ficava em torno de 40. Na quinta-feira (27), já eram 47.

    PELO MUNDO

    Mapa com os países com pelo menos um caso confirmado de coronavírus. Até 27 de fevereiro, eram 47 países

    A tendência de baixa nos mercados atingiu desde países desenvolvidos até economias emergentes. Em três dias, as quedas acumuladas nos principais índices das bolsas em lugares como Japão e Reino Unido eram superiores a 4%; na Alemanha e na Argentina, passavam de 5%.

    Nos EUA, a baixa significativa foi captada pelos três principais índices do mercado financeiro: Dow Jones, S&P 500 e Nasdaq. Eles registraram perdas próximas a 7%.

    QUEDA ACUMULADA EM TRÊS DIAS

    Principais índices americanos de 24 a 26 de fevereiro de 2020. Quedas em torno de 7% para os três

    As quedas continuaram na quinta-feira, seguindo a tendência de queda dos dias anteriores. Por todo o mundo, o coronavírus tem atuado como agente de incerteza e temor nos mercados.

    “É uma gripe, nós vamos ter que atravessar. É mais uma gripe que a humanidade vai ter que atravessar. Das gripes históricas, esta tem letalidade menor e tem uma transmissibilidade similar à de determinadas gripes que a humanidade já superou”

    Luiz Henrique Mandetta

    ministro da Saúde, em coletiva no dia 26 de fevereiro de 2020

    O impacto na economia brasileira

    Além da queda na bolsa de valores de São Paulo, economistas já tratam de possíveis efeitos negativos do coronavírus sobre o PIB brasileiro em 2020. O governo brasileiro admitiu a possibilidade de uma redução da atividade econômica por conta do vírus.

    O crescimento previsto do PIB para 2020 varia de acordo com cada projeção, mas tende a ficar em torno de 2% no ano. O governo mantém a previsão de crescimento de 2,4%, enquanto o relatório Focus – que é publicado semanalmente pelo Banco Central e compila as expectativas de agentes do mercado sobre a economia – projeta alta de 2,2%.

    Um dos fatores apontados para uma possível diminuição do PIB brasileiro é a redução do comércio mundial, o que resultaria em uma menor demanda por produtos brasileiros e menor oferta de insumos para a cadeia produtiva no Brasil. Os movimentos globais também podem afetar os preços de commodities, atingindo exportadores brasileiros em setores como a siderurgia e a mineração.

    Especialistas ouvidos pelo Nexo no final de janeiro de 2020 também apontaram possíveis reduções no consumo pelo mundo, a depender da escala atingida pela doença – por medo de sair às ruas, as pessoas podem deixar de trabalhar, viajar ou fazer compras.

    Os efeitos da chegada do vírus sobre o mercado brasileiro

    O Nexo conversou com economistas para entender as reações das bolsas – no Brasil e pelo mundo – ao coronavírus e entender o clima nos mercados globais no final de fevereiro de 2020.

    • Silvio Campos Neto, economista e sócio da Tendências Consultoria
    • Claudia Yoshinaga, coordenadora do Centro de Estudos em Finanças da FGV EAESP

    Como a performance negativa da bolsa brasileira se relaciona com a chegada do coronavírus ao país?

    Silvio Campos Neto Eu diria que ontem [quarta-feira, 26 de fevereiro], o que vimos nos mercados foi muito mais um ajuste ao que aconteceu nos mercados no exterior na segunda e na terça, quando aqui estávamos com os mercados fechados. Foi um período muito ruim de estresse bastante forte no exterior. Então, ontem era necessário um ajuste dos ativos domésticos ao que aconteceu lá fora.

    O Ibovespa caiu 7%, e foi muito parelho com o que aconteceu no S&P 500 nos EUA nesse período de segunda a quarta. A alta do dólar foi na mesma direção. Foi muito mais um ajuste ao fator externo e a toda essa tensão global, mais do que o próprio evento do vírus pela primeira vez aqui no Brasil.

    Claro que é algo que preocupa, não há dúvida nenhuma; gera uma incerteza. Mas eu diria que, por ora, as repercussões tanto nos mercados como na economia se devem muito mais ao contágio que se observa no exterior, afetando países importantes – especialmente a China, com riscos para outras economias e para a própria economia mundial –, do que propriamente uma repercussão desse caso inicial aqui, que é ainda algo bastante isolado e não se sabe muito bem que tipo de disseminação pode acontecer.

    Claudia Yoshinaga Acho que quando vamos falar de impacto no mercado, ele não é necessariamente atrelado à confirmação do primeiro caso no Brasil. É claro que quando falamos de reações das pessoas a uma notícia como essa – de que temos uma primeira confirmação de um infectado no Brasil – isso assusta um pouco as pessoas.

    Ultimamente, por conta da redução de taxas de juros, temos tido cada vez mais investidores individuais na bolsa, e numa notícia dessas, acabamos vendo um impacto maior por conta de reação de investidores individuais. As pessoas são mais suscetíveis a isso do que os investidores institucionais.

    Começamos a ter vários efeitos não só por ter chegado ao Brasil, mas por ter a confirmação de que o vírus está se espalhando mais na Europa. Com isso, começamos a ter algum tipo de potencial reflexo no Brasil de pessoas agora preocupadas em viajar, inclusive para a Europa. Inicialmente, a preocupação era mais com viajar para a China, e depois, para a Ásia.

    Tivemos ainda a parada por conta do Carnaval, em que não tivemos mercado financeiro [aberto] aqui no Brasil. E isso criou um certo pânico porque se falava: "lá fora os mercados estão abertos, estão caindo muito". De alguma maneira, vem esse resquício e essa tensão desses dias em que a bolsa esteve fechada. Também temos notícias de que na China houve uma redução bastante brusca na produção, claramente por conta de quarentena, etc. Acho que é um reflexo disso tudo.

    Qual tem sido a reação dos mercados nos países onde o vírus chega? O caso brasileiro se diferencia de alguma forma desses outros?

    Silvio Campos Neto É uma questão global. A cada nova indicação de que há outros países importantes sendo afetados de uma forma mais intensa, isso amplia todo esse temor. O que existe hoje é uma incerteza muito grande sobre a duração, sobre a magnitude desses impactos. Acho que é mais isso que está causando a reação negativa do que propriamente o efeito direto desse evento.

    Ninguém sabe até onde vai isso, por quanto tempo isso vai continuar influenciando. Tem um peso econômico – isso é bastante claro na China, mas já com preocupações atingindo outros mercados, como Coreia do Sul e Itália. E como bate na China, acaba respingando economicamente em outros países. A China, além de ser um grande demandante de produtos, é também um grande produtor de insumos, e isso pesa nas cadeias globais de produção.

    Todo esse contexto obviamente gera um quadro de aversão ao risco, de preocupação. E essa incerteza faz com que os investidores prefiram sair de posições mais arriscadas – como, por exemplo, bolsas, commodities e moedas de [países] emergentes – e busquem posições mais seguras, em ativos como ouro, treasuries. São essas as repercussões que temos visto. E, enquanto não houver um sinal claro de reversão desse processo, dificilmente veremos uma mudança de cenário no curtíssimo prazo.

    Para o Brasil, é claro que gera uma preocupação adicional caso realmente isso mostre um potencial de contágio. Gera um alerta. Eu diria que é um fato a mais que amplia a incerteza, mas que, por si só, ainda teve uma repercussão muito pequena perante o que tem acontecido no mundo.

    Claudia Yoshinaga Não é [diferente]. A gente pode só imaginar que talvez no Brasil essas reações sejam mais fortes nos últimos dias por conta dessa confirmação [do primeiro caso]. Nos outros países vimos esse reflexo negativo em termos de produtividade e impacto nas bolsas também.

    Acho que hoje o clima geral é de muita incerteza. Claro que a primeira reação que as pessoas têm é bastante negativa. Em um momento desses, o que vemos em termos de vieses comportamentais das pessoas é o que chamamos de sobrerreação – uma reação exagerada. Se sai uma notícia que é claramente ruim, as pessoas tendem a reagir de uma maneira bastante exagerada, muitas vezes até magnificando esse sentimento ruim com relação à notícia.

    O que se tem de evidência em diversos casos e diversos eventos que já aconteceram, é que, no geral, passa-se algum tempo e tende a haver um certo grau de correção porque as pessoas começam a perceber que [o evento] não é tão péssimo quanto a primeira reação imaginava.

    Nesse sentido, acho que existe essa incerteza e a incerteza cria mais medo nas pessoas. Esse primeiro caso foi confirmado, mas temos diversas pesquisas indicando que, para virar uma epidemia no Brasil, ainda existe um passo bastante grande. Vendo todos os monitoramentos corretos sendo feitos, é difícil imaginar que isso vai virar uma pandemia. De certa maneira, a primeira reação tende a ser muito ruim, mas no geral isso deve suavizar com o tempo.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

    Você ainda tem 3 conteúdos grátis neste mês.