O que a 1ª missão no lado oculto da Lua achou em seu solo

Imagens captadas por veículo não-tripulado mostram detalhes da superfície e do subsolo da parte do satélite que nunca aparece para quem está na Terra

Um estudo publicado nesta quarta-feira (26) por pesquisadores chineses e italianos revelou os dados coletados pelo rover chinês Yutu-2, que explora a superfície do lado oculto da Lua. O nome é dado à face do satélite que nunca fica virada para a Terra, já que sua rotação é sincronizada com a do planeta.

É a primeira vez que uma missão traz detalhes dos estratos subterrâneos do lado oposto. Em janeiro de 2019, a sonda chinesa Chang’e-4, que transportou o rover, foi também a primeira espaçonave da história a pousar nesta face da Lua.

Graças aos programas espaciais soviéticos e americanos do século 20, o lado visível da Lua já é bem catalogado. O que não é o caso do lado oculto que, fora alguns estudos geofísicos das missões Apollo, até então não tinha resultados com muita resolução.

Para compor o estudo, foi usada uma técnica chamada de radar de penetração. Nela, uma antena transmissora dispara ondas eletromagnéticas solo abaixo. De acordo com as propriedades geológicas da rocha que encontram, parte das ondas ricocheteiam e voltam ao radar receptor. As demais continuam descendo até também se refletirem.

Características do solo lunar

Ancorado na cratera Von Kármán, no hemisfério sul do lado oculto do satélite, o rover analisou um trecho de 106 metros que percorreu por dois meses (o que corresponde a dois dias lunares). Nesse trajeto, o radar foi capaz de captar a composição do solo em até 40 m de profundidade, revelando três camadas diferentes.

Em uma primeira, até 12 metros, a sonda detectou solo fino, conhecido como regolito, que é parecido com areia de praia. Entre 12 e 24 metros, um material mais grosso incorporado com pedras maiores de até 90 centímetros, como cerejas em um bolo de frutas. E numa última camada, até o limite do radar, uma alternância entre materiais finos e grossos, mas sem rochas.

Em conjunto, as imagens indicam que o que se vê são depósitos de dejetos, ou seja, camadas de rocha que foram se estabelecendo uma em cima da outra após impactos com asteroides e variações extremas de temperatura.

Foto: Divulgação/Agência Espacial Nacional da China
Perfil do solo dividido em três linhas. Cada uma mostra formações geológicas diferentes, como descrito no texto
Ilustração das camadas do solo lunar capturadas pelo Yutu-2

A formação do solo do lado oculto da lua, com relevo mais acidentado e cheio de crateras, se diferencia, portanto, do lado visível do satélite, onde há predominância de planícies lisas de rochas vulcânicas. Segundo os pesquisadores, apenas novos estudos podem ajudar a entender porque há essa diferença.

A cratera Von Kármán, onde o rover circulou no lado oculto, é uma camada fina de lava resfriada. E justamente por essa origem que os cientistas se surpreenderam ao não encontrar rocha vulcânica sólida no fundo da cratera. O que se especula é que, após milhões de anos, essa camada foi quebrada e soterrada por material arremessado de camadas mais internas da Lua, como o manto, conforme o satélite sofria impactos subsequentes com corpos celestes.

Com a previsão de lançamento em 2020, a próxima missão lunar chinesa, a Chang’e 5, fará novas análises e coletará amostras do solo lunar para trazê-las à Terra.

Por que pousar no lado oculto levou tanto tempo

Qualquer espaçonave na face oposta da Lua não consegue “ver” a Terra e, por isso, é também incapaz de enviar ou receber sinal de rádio de postos de controle terrestres.

Para causa isso, a agência espacial chinesa primeiro lançou um satélite de retransmissão, ou seja, que reenvia o sinal a receptores que não têm visão clara do planeta. Ele foi posicionado em um ponto estrategicamente pensado para que pudesse ver o lado oculto e a Terra acima do horizonte lunar.

Hoje, os satélites de retransmissão distribuem informação para operações como as do telescópio Hubble e a Estação Espacial Internacional — os primeiros satélites de retransmissão foram enviados pela Nasa (agência espacial americana) nos anos 1980.

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