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As investidas da polícia contra shows e festivais no Brasil

Após cantarem trechos de um clássico de Chico Science, bandas foram interrompidas por PM no Carnaval de Recife. Episódios se acumulam pelo país e incluem até inquérito da Polícia Federal contra festival que critica Bolsonaro

    Duas bandas tiveram seus shows interrompidos pela Polícia Militar durante o Carnaval de Recife depois de tocar a música “Banditismo por uma questão de classe”, de Chico Science e Nação Zumbi. Em palcos diferentes, os grupos Janete Saiu Para Beber e Devotos foram impedidos de continuar sua apresentação após executar a música que traz os versos "Em cada morro uma história diferente, que a polícia mata gente inocente".

    O Janete Saiu Para Beber, que se apresentou na rua do Apolo, bairro de Recife, na segunda-feira (24), publicou um relato sobre o episódio nas redes sociais. Em nota posteriormente enviada à imprensa, o grupo disse que músicas do repertório do show teriam “irritado” policiais presentes.

    “Segundo um dos produtores do evento [Du Lopes, que dialogou com os PMs], eles exigiram o fim do evento, argumentando que ‘não pode tocar Chico Science. Chico é som de briga! Não pode tocar!’”, declarou a nota. A Polícia Militar estabeleceu então uma barreira entre o público e a banda. “Tivemos que parar o show com ameaça de levar nosso vocalista preso!”, afirmou a banda no post.

    Já a banda Devotos, nome pioneiro do punk rock em Recife, foi ameaçada de retaliação depois de tocar na terça-feira (25), no polo da Várzea, o mesmo trecho do clássico de Chico Science no show. “Quando fui começar a música seguinte, o roadie chegou no meu ouvido e disse que a polícia falou que se a gente cantasse outra falando mal da polícia eles iam acabar o show”, declarou o vocalista Canibal ao jornal O Globo.

    Um terceiro episódio envolveu a apresentação do cantor e compositor China, na Lagoa do Araçá, na segunda-feira (24). Segundo o músico disse ao Nexo, “a polícia subiu no palco de forma abrupta para acabar o show”. Ainda de acordo com China, o palco estava com atraso nos horários e o diretor pediu que a banda encurtasse o show, com a justificativa de que a PM estava pressionando pelo fim da apresentação devido ao horário.

    Apesar da banda ter diminuído o tempo de sua apresentação, os agentes resolveram intervir. “Foram contidos pela minha empresária e produtora que não deixaram que invadissem a boca de cena. Caso contrário as coisas poderiam ser bem diferentes”, disse China. “Em 20 anos de carreira, com muitos anos tocando no Carnaval de Recife, isso nunca aconteceu num show meu”.

    Em nota, a PM declarou que “não há qualquer tipo de proibição à exibição de nenhuma música durante o Carnaval ou em qualquer época do ano”. A corporação explicou que só realizou a suspensão de apresentações quando elas “estouraram o tempo”. Ainda segundo a polícia, os horários são combinados previamente com a prefeitura e a produção do evento.

    A perseguição ao Facada Fest

    Na segunda-feira (24), os organizadores do Facada Fest, de Belém, afirmaram ter recebido uma intimação da Polícia Federal para “prestar esclarecimentos” a respeito de um cartaz da sua terceira edição, que traz um palhaço Bozo empalado por um lápis.

    O festival estava marcado para julho de 2019. A imagem do cartaz foi compartilhada por Carlos Bolsonaro, que escreveu que “está na hora de agir antes que seja tarde, porque eles já mostraram ao que vieram e não têm mais vergonha alguma de esconder isso!” O presidente Jair Bolsonaro, pai de Carlos, foi alvo de uma facada na campanha eleitoral de 2018.

    Segundo a organização do festival, o despacho foi assinado pelo ministro da Justiça, Sergio Moro, e pelo procurador-geral da República, Augusto Aras. Na intimação, o evento estaria sendo acusado de "apologia de crime" e "crimes contra a honra" de Jair Bolsonaro.

    No Twitter, Moro disse que a iniciativa do inquérito não foi sua, "mas poderia ter sido". "Publicar cartazes ou anúncios com o PR {presidente da República] ou qualquer cidadão empalado ou esfaqueado não pode ser considerado liberdade de expressão.É apologia a crime, além de ofensivo", continuou o ministro. Para Moro, "crítica é uma coisa, isso é algo diferente. Não são (...) simples 'cartazes anti-bolsonaro'".

    A PM impediu a realização do Facada Fest na época, citando problemas de alvará. Os organizadores conseguiram então remarcar o evento, que aconteceu em agosto de 2019. Em setembro, uma edição do festival em Marabá, no Pará, foi também alvo de políticos locais e apoiadores de Bolsonaro por causa de seu cartaz. Na imagem, uma figura que lembra o presidente da República aparece com um bigode que remete a Adolf Hitler e expele um rio marrom pela boca.

    Com a divulgação das investidas contra o evento, o Facada Fest foi ganhando “franquias” pelo país. Eventos com o mesmo nome foram realizados no ano passado em Belo Horizonte, Campinas, São Luiz e Curitiba. A primeira edição do festival ocorreu em junho de 2019, em Fortaleza. Segundo os organizadores, o nome veio da banda Facada, de grindcore, atuante desde 2003.

    O caso de BNegão

    Em 27 de julho de 2019, uma ação da Polícia Militar pôs fim ao show do cantor BNegão em Bonito, Mato Grosso do Sul. De acordo com o músico, a situação teria acontecido depois que ele relatou no palco que produtores do evento haviam sido agredidos por policiais, dois dias antes.

    “Eu falei [sobre] isso no meio do show. Deu duas músicas e a apresentação foi interrompida. Foi uma censura, não tem como. Os caras estão nesta onda”, declarou BNegão ao UOL em julho. “Não só acabaram com o show, como expulsaram a galera empurrando, com cassetete, mostrando arma e jogando gás de pimenta”.

    Em resposta, a prefeitura de Bonito divulgou à época uma nota em que afirmava que “todos têm direito a expressão, mas não concorda com manifestações explícitas de lados políticos, ou mesmo desrespeito aos atuais governantes durante o evento, seja por artistas contratados e pagos com recursos públicos federais, estaduais e municipais, ou por parte do público presente".

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