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Qual a capacidade de reação do Brasil à chegada do coronavírus

Para o professor Eliseu Waldman, da Faculdade de Saúde Pública da USP, sistema de vigilância sanitária do país é bem preparado para conter doença, mas precisará de recursos adicionais

Quase dois meses após o aparecimento de um novo tipo de coronavírus na China, o Brasil confirmou o primeiro caso de um paciente infectado no país. O anúncio foi feito na quarta-feira (26) pelo Ministério da Saúde. É o primeiro caso da doença confirmado na América Latina.

A informação fez a Bolsa de Valores de São Paulo cair 7%, e o dólar fechar o dia a R$ 4,44, recorde em sua cotação nominal (desconsiderada a inflação). O Ministério da Economia, que projetava uma alta de 2,4% do PIB (Produto Interno Bruto) em 2020, admitiu também na quarta (26) que o vírus pode afetar o crescimento do país.

O coronavírus foi identificado em um brasileiro de 61 anos que mora em São Paulo. Ele esteve na Itália entre 9 e 21 de fevereiro, quando voltou ao Brasil sem apresentar sintomas. A Itália é o país mais afetado pelo vírus na Europa, com pelo menos 374 casos e 12 mortes.

Segundo relatório da OMS (Organização Mundial de Saúde) divulgado na quarta-feira (26), mais de 81 mil casos de infecção haviam sido confirmados em todo o mundo, em 37 países diferentes. Já são mais de 2.700 mortes causadas pela doença do coronavírus, chamada de Covid-19.

Ela foi registrada pela primeira vez em 31 de dezembro de 2019, na cidade chinesa de Wuhan, que possui 11 milhões de habitantes. Diferentemente dos outros tipos da mesma família de vírus, que são conhecidos desde os anos 1960, o novo coronavírus pode causar, além dos sintomas de uma gripe comum, pneumonia severa e levar à morte. Sua transmissão se dá pelo contato com gotículas de saliva de um infectado.

As medidas do governo brasileiro

O brasileiro infectado visitou a região da Lombardia, no norte da Itália. Ele foi ao país sozinho, a trabalho, e voltou num voo que saiu de Milão com escala em Paris, na França. Já no Brasil, apresentou sintomas como febre, tosse seca, dor de garganta e coriza, compatíveis com a suspeita da doença. Na segunda-feira (24), procurou atendimento no Hospital Israelita Albert Einstein, na capital paulista.

A Vigilância Epidemiológica do estado foi notificada sobre o caso no dia seguinte. Um exame preliminar indicou a infecção, confirmada por uma contraprova realizada pelo Instituto Adolfo Lutz.

Como se encontrava em bom estado clínico que não exigia internação, o paciente foi liberado para ir para casa. Ele precisará ficar, porém, em “isolamento respiratório” durante os próximos 14 dias, segundo o hospital. É o tempo de incubação do vírus.

Em entrevista a jornalistas na quarta-feira (26), o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, afirmou que o homem passou cerca de 96 horas no país antes de buscar atendimento. Nesse período, não usou transporte público, mas manteve contato com familiares.

Ao todo, 30 parentes estão sendo observados. Dois adultos e uma criança que moram em Vinhedo, no interior de São Paulo, também foram colocados em isolamento domiciliar. Eles tiveram contato direto com o paciente infectado.

A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) afirmou ter solicitado à companhia aérea a lista de passageiros que estiveram no mesmo voo. Quatro passageiros de São Paulo que tiveram contato com o homem dentro do avião estão em observação.

Questionado se aconselharia a população a evitar voos para países da Europa onde há registros da doença, Mandetta pediu “bom senso”.

“Se não for necessário [viajar], espere”, disse. Entretanto, o ministro afirmou que as pessoas não podem “parar a vida porque existe uma gripe, uma síndrome respiratória”.

Desde 31 de janeiro de 2020, o governo mantém um Grupo de Trabalho Interministerial de Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional e Internacional. O Ministério da Saúde também instalou o Centro de Operações de Emergência em Saúde Pública para o coronavírus com o objetivo de preparar a rede pública de saúde para o atendimento de possíveis casos.

Já o governo de São Paulo anunciou na quarta-feira (26) a criação de um centro de contingência para monitorar suspeitas de infecção. Dos 20 casos suspeitos, 11 estão no estado.

A quarentena de repatriados

No domingo (23), um grupo de 58 pessoas, entre brasileiros repatriados da cidade de Wuhan, na China, e membros da equipe técnica que os transportou, foi liberado de uma quarentena de 14 dias. Eles estavam na Base Aérea de Anápolis, a 55 km de Goiânia.

O grupo passou por diversos exames, que não apontaram infecção pelo novo coronavírus. Por isso, o isolamento, que estava previsto para durar 18 dias, foi encurtado, e as famílias puderam voltar para seus estados.

Segundo o ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, a operação foi um “sucesso”. “Quero passar o nosso sentimento. É de orgulho e alívio. Orgulho pelo fim da operação com sucesso. E alívio por todos os resultados foram negativos”, afirmou.

Os modos de prevenção

Os coronavírus são transmitidos pelo contato com secreções de pessoas contaminadas: gotículas de saliva, espirro, tosse, toque ou aperto de mão seguido de contato com boca, nariz e olhos.

A pessoa pode ficar alguns dias com o vírus no corpo antes de apresentar os sintomas de febre, tosse e dificuldade para respirar. Em alguns casos, pode ser infectada e nunca apresentar os sintomas.

Para reduzir os riscos de contágio e de transmissão, o Ministério da Saúde recomenda medidas simples como evitar contato próximo com os doentes, lavar frequentemente as mãos, cobrir nariz e boca quando espirrar ou tossir, evitar tocar mucosas de olhos, nariz e boca e manter os ambientes bem ventilados.

Uma análise sobre os riscos ao Brasil

O Nexo conversou com Eliseu Waldman, doutor em saúde pública e professor do departamento de epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública da USP, sobre a confirmação do primeiro caso no Brasil e a capacidade do país de reagir ao vírus.

O que muda para o Brasil com a confirmação do primeiro caso?

ELISEU WALDMAN A situação, em si, não muda, mas a reação por parte das autoridades sanitárias precisa mudar, e já está mudando. A partir do momento em que se tem, reconhecidamente, um caso confirmado no país, é preciso ter protocolos para atendimento. Os protocolos já estavam prontos. Se olharmos no site do Ministério da Saúde, eles já estão prontos há várias semanas. Como o conhecimento produzido em relação à doença praticamente se renova diariamente, provavelmente será necessária uma atualização. Já existe uma adesão central por parte de todos os estados e do ministério. Em São Paulo, já houve uma manifestação da secretaria estadual organizando um grupo executivo-operacional para providenciar leitos, condições de isolamento e orientação para os gestores de saúde e para os profissionais que atuam na área de assistência reagirem adequadamente a cada caso.

Como avalia a iniciativa de manter o paciente em casa?

ELISEU WALDMAN O paciente, segundo o ministério, está bem, não está com quadro clínico grave, o sugestivo da infecção do coronavírus foi confirmado, e provavelmente ele mora em condições domiciliares adequadas ao isolamento respiratório. Mandaram ele para casa para ficar até o final do período de segurança, pelo fato de ele poder transmitir para outras pessoas, para os contatos diretos, geralmente os familiares. Numa situação de potencial epidemia, se todos os casos leves forem internados, não haverá leitos para os casos potencialmente graves que venham surgir.

O tipo de isolamento vai depender da gravidade do quadro?

ELISEU WALDMAN Da gravidade e das condições habitacionais da pessoa também, ou seja, se ele consegue fazer um isolamento domiciliar que seja ideal.

Uma transmissão entre pessoas no Brasil agravaria a situação?

ELISEU WALDMAN Se tiver vários casos, isso sugere que tem uma transmissão sustentada. É claro que existe um agravamento potencial da situação, porque vai ter, numa proporção relativamente pequena, casos graves, e isso implica internação, e se o número for elevado, evidentemente, teremos que ter um esforço muito grande para dispor de leitos suficientes.

Qual a dimensão da situação ao se identificar esse caso?

ELISEU WALDMAN A partir do momento que a doença começou a se disseminar em vários países, não obrigatoriamente só no Brasil, claro que as autoridades sanitárias e a população devem passar a olhar a questão com um cuidado. É importante manter condutas adequadas por parte das autoridades sanitárias, mas o impacto delas em boa parte está condicionada à adesão por parte da população em relação às medidas recomendadas. Pânico é claro que não resolve. Tem que manter a calma. O que é importante por parte das autoridades é transparência na informação. Pelo menos até aqui, o que deveria ter sido feito tem sido feito, tanto pelas autoridades brasileiras quanto pelas internacionais.

A rede de serviços de São Paulo pode ser mais exigida pelo fato de o estado ser porta de entrada de quem vem de fora? Ela está preparada?

ELISEU WALDMAN Não são as únicas, mas São Paulo e Rio de Janeiro são as principais portas de entrada de quem vem da Europa e da Ásia. O estado de São Paulo tem uma rede de serviços bem organizada, tanto a pública como a privada, com um sistema de vigilância antigo, profissionais competentes e bem treinados. Nós temos condições. Agora, recursos adicionais certamente serão necessários. Vai ter que comprar, por exemplo, kits de diagnósticos, equipamentos de proteção para médicos e auxiliares para se proteger, porque são grupos de alto risco para se infectar a partir de pacientes. É claro que isso vai implicar em recursos adicionais, e creio eu que já estejam sendo destinados.

A situação de países como a Itália preocupa? Há países que estão falhando ao tentar conter a doença?

ELISEU WALDMAN Aparentemente, a China está conseguindo, pelos dados disponíveis, conter a expansão da doença. Já faz uma semana que está havendo uma queda consistente no número de casos [no país], mostrando que essa estratégia de isolar cidades, apesar de ser draconiana e cara, porque isso tem um impacto muito sério na economia, talvez seja a mais adequada. E os italianos estão fazendo evidentemente o isolamento de uma forma menor, até porque o número de casos é bem menor, e porque, num país democrático, essas medidas draconianas são mais complexas.

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