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Por que o Carnaval da Bélgica foi chamado de antissemita

Festa de origem medieval na cidade de Aalst já havia perdido o título de Patrimônio da Humanidade em 2019 por satirizar judeus. Em 2020, desfile contou com uniformes nazistas

Foliões da cidade belga de Aalst – também chamada de Alost pelos belgas francófonos – saíram às ruas no desfile de Carnaval de 2020 exibindo fantasias e carros alegóricos que satirizavam a comunidade judaica. No mesmo desfile, outros ostentaram uniformes nazistas.

As alegorias atraíram imediatamente críticas em vários países da Europa, a tal ponto que membros da Comissão Europeia – o órgão mais executivo da União Europeia – disseram que o Carnaval de Aalst converteu-se “numa vergonha, para a qual não há espaço na Europa”, nas palavras de Margaritis Schinas, vice-presidente do órgão.

Os bonecos gigantes com trajes de judeus ortodoxos e narizes aduncos foram exibidos nas ruas juntos com representações de outras religiões. Os bonecos judeus atraíram mais atenção que os demais, no entanto, por remeterem a um caso já polêmico e conhecido de sátira religiosa na cidade, identificada por seus críticos como abertamente antissemita.

Na festa do ano anterior, de 2019, o Carnaval de Aalst já tinha apresentado bonecos judeus. Além dos trajes ortodoxos e do nariz adunco, os bonecos, naquele ano, estavam acompanhados também de ratos e de sacos de dinheiro.

As alegorias ofensivas fizeram com que a Unesco, órgão das Nações Unidas para assuntos de educação e cultura, retirasse do Carnaval de Aalst o título de Patrimônio Cultural Imaterial, também em 2019.

À época, o próprio prefeito da cidade, Christoph D’Haese, do partido nacionalista N-VA, defendeu que a Unesco tomasse essa medida. Para ele, o fato era uma prova de que o Carnaval de sua cidade é uma autêntica festa popular, não submetida ao escrutínio de nenhuma instituição.

Sátira sem limites

Os organizadores da festa – cujas raízes vêm do período medieval, onde o Carnaval era uma das poucas celebrações profanas, realizadas longe do controle da Igreja e do Estado – dizem que Aalst é “a capital da zombaria e da sátira”.

Eles argumentam que a graça da festa está em justamente não impôr limites a ela. Em 2013, por exemplo, os organizadores fizeram uma réplica de um vagão de deportação, lotado de belgas francófonos, com os quais existe uma longa rivalidade local. Os vagões de deportação, na Europa, remetem imediatamente às transferências de judeus para campos de concentração durante a Segunda Guerra (1939-1945).

Pelo menos três grandes associações belgas ligadas à defesa do judaísmo protestaram contra os foliões de Aalst. Elas dizem que pretendem apresentar uma queixa contra a Prefeitura no escritório do governo belga encarregado de combater a discriminação.

O discurso antissemita na Europa

A extrema direita tem preferência de cerca de 25% do eleitorado em Aalst. Pouco a pouco, o discurso contra judeus e imigrantes têm ganhado espaço em vários países da Europa, de forma inédita desde o fim da Segunda Guerra.

Na França (que faz fronteira com a Bélgica ao sul e sudoeste) e na Alemanha (que faz fronteira ao sudeste e nordeste), os ataques antissemitas vêm crescendo. Só em 2018, a Alemanha registrou um aumento de 20% no número de ataques em relação ao ano anterior. Na França, o crescimento foi de 74% no mesmo período.

24 mil

é o número de judeus belgas assassinados na Segunda Guerra Mundial (1939-1945)

“Esses fatos prejudicam nossos valores e a reputação como país”, disse a primeira-ministra belga Sophie Wilmès que pertence a um conglomerado de legendas da direita tradicional, conhecido como Movimento Reformador, sobre a repercussão do Carnaval.

Depois do escândalo de 2019, até o governo de Israel havia pedido que as autoridades belgas simplesmente suspendessem o Carnaval de Aalst. À época, Wilmès disse que esse era um assunto interno de seu país.

João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

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