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Coronavírus: o primeiro caso no Brasil e o risco de pandemia

Ministério da Saúde confirma contaminação de morador de São Paulo que contraiu o vírus na Itália. Epidemia se espalha por mais de 40 países

    O Brasil registrou nesta terça-feira (25) o primeiro caso do novo tipo de coronavírus (Covid-19) no Brasil. O infectado é um morador de São Paulo, de 61 anos. Ele esteve na Itália entre 9 e 21 de fevereiro, país no qual morreram 11 de 320 pessoas contaminadas até quarta-feira (26).

    O caso brasileiro, confirmado pelo Ministério da Saúde nesta quarta, é também o primeiro registro da doença na América Latina, no momento em que o vírus, que teve início na China, em dezembro de 2019, se espalha pelo mundo, deixando mais de 80 mil infectados (em 43 países) e 2.600 mortos (em 10 deles).

    A OMS (Organização Mundial da Saúde) disse que é preciso que o mundo “se prepare para uma possível pandemia” – nome dado à expansão de uma doença em escala global. No passado, gripe espanhola, gripe asiática, gripe suína e HIV/Aids também foram declaradas pandemias.

    Pelo mundo

    Mapa mostra incidência do coronavírus no mundo

    Desde o início da semana, ainda na segunda-feira (24), as principais bolsas do mundo registraram forte queda. O ouro, considerado ativo de segurança, teve seu maior patamar desde 2013.

    Em várias partes do mundo, aulas e eventos públicos estão sendo cancelados. Um membro do Comitê Olímpico Internacional colocou em dúvida a organização dos Jogos Olímpicos no Japão, evento programado para ocorrer entre 24 de julho e 9 de agosto, com a presença de 11 mil atletas de várias partes do mundo.

    A extensão do problema no Brasil

    O paciente brasileiro tem sintomas brandos da doença e é mantido em isolamento domiciliar, que deve durar 14 dias. Autoridades sanitárias começaram a rastrear os contatos que o paciente teve antes de receber o diagnóstico, especialmente a lista de passageiros que vieram no mesmo voo.

    A internação do primeiro paciente brasileiro coincide com dois outros fatos: a liberação, no domingo (23) dos 34 brasileiros que foram mantidos em quarentena por 18 dias na Base Aérea de Anápolis, em Goiás, após serem trazidos da China, e o aparecimento de mais um caso suspeito, que ainda é investigado pela Secretaria Estadual da Saúde de Pernambuco, envolvendo uma paciente que chegou a Recife vindo do Aeroporto de Guarulhos, em São Paulo.

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    É o número de casos suspeitos que já foram investigados e descartados no Brasil até quarta-feira (26), segundo o Ministério da Saúde

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    É o número de casos suspeitos sob investigação no Brasil até quarta-feira (26), segundo o Ministério da Saúde

    Erro fez doença se espalhar na Itália

    Na Itália, o epicentro da doença é Milão, na região da Lombardia, no norte do país. O primeiro-ministro Giuseppe Conte disse que o hospital que recebeu o “caso número um” cometeu erros de protocolo, que fizeram com que o vírus se espalhasse pelo país.

    Entre os 320 infectados até quarta-feira (20), os mais afetados são os pacientes vulneráveis, especialmente os idosos e portadores de doenças prévias. A maioria dos casos estão concentrados no norte do país, perto das fronteiras com a França e a Suíça, mas o vírus se espalha com rapidez também pelo sul, afetando zonas turísticas como Veneza, que teve o seu tradicional Carnaval cancelado e onde a primeira morte foi registrada na sexta-feira (21).

    Na capital, Roma, que também recebe turistas do mundo inteiro, três pessoas foram hospitalizadas – todas elas pacientes que vieram trazendo sintomas do exterior. Ao mesmo tempo, turistas italianos têm sido proibidos de desembarcar em outros aeroportos pelo mundo, como já ocorreu, por exemplo, nas Ilhas Maurício e nas Ilhas Canárias.

    Apesar da magnitude do problema e da velocidade com que o vírus se espalha, autoridades sanitárias italianas disseram ter recebido garantias dos países próximos de que as fronteiras permanecerão abertas.

    Outros casos pela Europa

    Na Europa, além da Itália, também Alemanha, Reino Unido, França, Espanha, Áustria, Finlândia, Suécia, Bélgica, Croácia e Suíça registraram casos da doença – com ocorrência de mortes apenas no casos italiano (11) e francês (2), de acordo com dados disponíveis até quarta-feira (26).

    A China segue sendo o país mais afetado do mundo, embora os registros de novos casos estejam diminuindo com o passar do tempo. Depois, com 16 mortes, vem o Irã – onde até o vice-ministro da Saúde foi contaminado. Ao contrário da Europa, onde as fronteiras internas estão abertas, no Oriente Médio, já vigoram restrições de viagem para cidadãos iranianos ou provenientes do Irã.

    Elogios da OMS à China

    “O mundo simplesmente não está preparado” para lidar com a epidemia atual, disse Bruce Aylward, chefe da missão conjunta da OMS (Organização Mundial da Saúde) enviada à China. Ao retornar de uma viagem ao epicentro da epidemia, na província de Hubei, Aylward elogiou a coordenação chinesa para enfrentar o problema e disse que “o mundo precisa das lições” que a China tem a dar na matéria.

    “A China empregou métodos clássicos e tradicionais de saúde pública, que passa pela identificação dos casos, busca de contatos, distanciamento social e restrições de deslocamento, tudo isso feito numa escala sem precedentes na história”

    Bruce Aylward

    Chefe da missão conjunta da OMS (Organização Mundial da Saúde) enviada à China

    O elogio contrasta com as desconfianças e críticas que foram dirigidas à forma como o Partido Comunista Chinês lidou com a doença, punindo cidadãos que compartilhavam informações sobre o tema nas redes e exonerando funcionários públicos da região onde tudo começou.

    As características do vírus

    A família do coronavírus é conhecida desde os anos 1960 e causa infecções respiratórias em seres humanos e animais. A maioria dos casos resulta em doenças leves e moderadas, como resfriados.

    O novo tipo observado na China, batizado de Covid-19, veio provavelmente de animais vendidos no mercado em Wuhan. O vírus causa sintomas comuns aos outros tipos, como febre, tosse, dor muscular e cansaço, mas também pode dar início a uma pneumonia severa e levar à morte.

    As infecções têm sido observadas especialmente em países do hemisfério norte, que estão no inverno. Em entrevista ao Nexo, o virologista Edison Durigon, professor do Instituto de Ciências Biomédicas da USP, disse que a disseminação em regiões de clima quente é mais difícil. Por isso, segundo o professor, as chances de uma epidemia no Brasil, no momento, são pequenas.

    As formas de transmissão são semelhantes às de uma gripe comum. Entre os meios de prevenção da transmissão da doença estão medidas simples como cobrir a boca e nariz ao tossir ou espirrar, utilizar lenço descartável para higiene nasal, evitar tocar mucosas de olhos, nariz e boca, não compartilhar objetos de uso pessoal, limpar regularmente o ambiente e mantê-lo ventilado e lavar as mãos por pelo menos 20 segundos com água e sabão ou usar antisséptico de mãos à base de álcool.

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

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