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De marginal ao mainstream: a história da cultura ballroom

Criada por LGBTIs pobres e discriminados de Nova York, cena se tornou uma referência importante da cultura pop

Em uma performance já icônica na cerimônia do MTV Video Music Awards de 1990, Madonna cantou sua música “Vogue” acompanhada de um grupo de dançarinos vestidos como membros da realeza francesa do século 18. A inspiração para a opulência ostentada no palco, bem como para a canção-hit da diva pop, entretanto, não poderia ser mais distante do palácio de Versalhes: as comunidades LGBTIs negras e latinas da cidade americana de Nova York.

“Vogue” é uma homenagem à cena ballroom nova-iorquina, um circuito de bailes onde homens gays, mulheres transgênero e drag queens se reúnem para participar de competições de dança e desfile. O nome da música faz referência ao estilo que se popularizou nesses eventos: coreografias ágeis e angulares, inspiradas nas poses de modelos da tradicional revista de moda Vogue.

O ballroom ganhou a atenção da mídia nos anos 1990, principalmente devido à Madonna e ao documentário de Jennie Livingston “Paris is burning” (1990), do qual participaram algumas das principais figuras da cena à época.

Hoje, sua influência sobre a cultura pop é inegável: está presente nas gírias usadas pelas drag queens do reality show “RuPaul’s Drag Race”, no enredo e ambientação da série “Pose”, na dança do filme de Gaspar Noé “Clímax” (2018), e no futuro programa da HBO “Legendary”, competição de voguing com lançamento previsto para 2020.

A evolução dos bailes

Embora o ballroom tenha ganhado notoriedade mundial em décadas recentes, suas origens remontam a 1867, com o “Annual Odd Fellows Ball” — que posteriormente ficou conhecido como o “Fairies Ball” ou o “Faggots Ball” (algo como “baile das bichas”, em tradução livre). Em seus primeiros anos, o evento era realizado em diferentes localidades de Nova York, mas logo plantou raízes no Harlem, bairro de população majoritariamente negra.

A cena aumentou progressivamente em popularidade e se solidificou na década de 1920, durante um período de intensa produção cultural e artística que ganhou o nome de “Renascimento do Harlem”. Registros desse período descrevem um “estranho espetáculo”, do qual participavam homens vestidos como mulheres, mulheres vestidas como homens, prostitutos, “membros do terceiro sexo”, entre outras expressões.

Desde o princípio, havia também um elemento de competição nesses eventos, que se assemelhava a um concurso de beleza tradicional. A estética dos participantes era alinhada à cultura drag — de maquiagens fortes e roupas extravagantes, cheias de penas e paetês, feitas para exagerar características da aparência feminina. Jurados distribuíam prêmios e troféus em poucas categorias, elegendo os vestidos mais bonitos e as transformações mais completas.

Ao longo das décadas, conforme o público dos bailes aumentou e se diversificou, foram inauguradas novas categorias de premiação, para além das drag queens. Ao fim dos anos 1980, época documentada em “Paris is burning”, as festas já eram muito diferentes: além da introdução da dança vogue, um sem-fim de modalidades trazia os participantes vestidos como executivos, estudantes de colégio, militares, personagens de novela etc.

As subversões das convenções estéticas de gênero permaneceram, mas, diferentemente da fantasia exagerada de gerações anteriores, venciam as performances mais convincentes e verossímeis — qualidade sintetizada pela expressão “realness” (algo como “realismo”).

Nesse sentido, as competições também representavam uma forma de escapismo e autoafirmação: vestidos de executivos do mercado financeiro, homens heterossexuais ou mulheres ricas, os participantes “performavam” um mundo em que suas vidas não eram limitadas pela injustiça social e a discriminação.

Você não é um executivo de verdade, mas você se parece com um. Portanto, você está mostrando ao mundo hétero que você poderia ser um executivo. Se eu tivesse a oportunidade, eu poderia ser um [executivo], porque eu consigo me passar por um.

Dorian Corey

mãe da House of Corey, em 'Paris is burning'

Em Nova York, a tradição do ballroom continua viva, com novas gerações introduzindo transformações à cena. Uma subcultura do ballroom chamada de “kiki” — outro nome dado às festas — vem do início da década de 2000 e segue carregando uma responsabilidade social. Os kikis são mais voltados ao público jovem e contam com a participação de ONGs como a Gay Men’s Health Crisis, que realizam testes gratuitos de doenças sexualmente transmissíveis, promovendo o sexo seguro.

Uma comunidade de famílias

Em “Paris is burning”, Jennie Livingston registrou a importância e o significado que os bailes ganharam para comunidades de LGBTIs negros, latinos e pobres do Harlem. Além de as festas representarem um espaço de divertimento livre do julgamento da sociedade, lá se formavam redes de apoio para homens gays e mulheres trans — muitos dos quais eram jovens e, devido ao preconceito, haviam cortado laços com suas famílias biológicas ou sido expulsos de casa.

O ballroom lhes conferia um novo senso de comunidade, estruturado em torno de “houses” (ou “casas”, termo emprestado das grifes de estilistas, como a casa Gucci). Esses são grupos que existem até hoje, criados e organizados por veteranas da cena, que agem no papel de “mães”, recebendo novatos em seus círculos.

O acolhimento proporcionado pelas casas é emocional, mas também físico: mães podem dar apoio financeiro ou mesmo oferecer um teto aos seus “filhos” em momentos de necessidade. Unidos sob um mesmo sobrenome, os integrantes desses grupos disputam com as outras casas pelos prêmios nos bailes.

Expressões do ballroom na cultura pop

Um dos principais vetores de disseminação da cultura ballroom no mainstream em anos recentes é o reality show norte-americano “RuPaul’s Drag Race”, que se tornou fenômeno de público. Apresentado pelo ícone drag RuPaul, o programa já tem 11 temporadas e dele derivam várias outras séries. Trata-se de uma competição entre drag queens que não está tão distante da realizada nos bailes antigos, com provas que avaliam os figurinos elaborados pelos participantes e outras habilidades artísticas.

A cada temporada, há um desafio que faz referência explícita ao ballroom, introduzido com uma menção a “Paris is burning”: é a prova de “reading” (ou “leitura”). “Reading”, segundo define a mãe Dorian Corey no documentário, é “a real expressão artística do insulto” — uma troca de farpas feita em contexto jocoso, com xingamentos hiperbólicos sobre o interlocutor.

Da “leitura”, nasceu o “shade” (ou “sombra”), outra gíria que teve seu uso difundido pelas queens do “Drag Race”. O “shade” é uma forma mais sutil e não-declarada de ofensa. Tanto o “reading” quando o “shade” hoje fazem parte do vocabulário cotidiano de LGBTIs mundo afora, mas nem todos que usam essas palavras sabem que elas têm origem no clima de rivalidade entre casas do ballroom.

[No shade] eu não te digo que você é feia, mas eu não preciso te dizer, porque você sabe que é feia.

Dorian Corey

mãe da House of Corey, em 'Paris is burning'

Assim como outras culturas de grupos minoritários que fizeram o salto para o mainstream, o ballroom não escapou de controvérsias sobre apropriação. Madonna e Jennie Livingston, que apresentaram a cena a um público maior, já foram acusadas de terem tomado proveito de comunidades desprivilegiadas.

Mais recentemente, o anúncio da HBO de seu futuro reality show “Legendary” reavivou essa polêmica, por ter colocado Jameela Jamil, atriz cisgênero sem conexões com a cena ballroom, como uma das juradas na competição. Trace Lysette, atriz trans e mãe de uma house, criticou a escolha, alegando que tinha se candidatado para a mesma vaga de jurada. Jamil se defendeu, dizendo que está usando sua plataforma de celebridade para trazer audiência ao programa, e se assumiu publicamente como queer.

Os bailes brasileiros

No Brasil, o ballroom teve um desenvolvimento mais recente, importado por meio do voguing. Já na década de 2000, profissionais envolvidos com a dança de rua que tinham contato com a cultura nova-iorquina e faziam viagens para o exterior começaram a trazer de volta esses movimentos — que ficaram, em um primeiro momento, mais restritos ao espaço das academias de dança.

“Na sequência, quando tem uma expansão do acesso à internet, e principalmente do YouTube, de canais de divulgação de vídeo, outras pessoas começam a acessar e aprender a partir desse repertório”, disse ao Nexo João Simões, artista, pesquisador e co-criador da plataforma Explode!, que em 2016 promoveu uma residência com eventos relacionados à cultura queer e ballroom na Zona Leste de São Paulo.

A dança foi a porta de entrada para que outros elementos do ballroom, como os bailes e as “houses”, começassem a ganhar espaço nacionalmente.

Hoje, os eventos se espalham por todo o país e levam consigo as discussões sobre raça, gênero e sexualidade, atualizadas às realidades regionais. Bailes como o “Kiki ball na laje”, da House of Mutatis, em São Paulo, retomam a questão da desigualdade e da discriminação presente na cena do Harlem, partindo da perspectiva das periferias brasileiras.

Até a dança tem se alterado, recebendo elementos de ritmos nacionais. “Em Recife tem o Edson Vogue, que mistura o frevo com o vogue, trazendo uma outra carga de linguagem do corpo”, comenta Simões.

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