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A condenação de Weinstein: um marco para o #MeToo

Executivo poderoso do cinema americano foi julgado culpado pelos crimes de estupro e abuso sexual. Pena pode chegar a 29 anos de cadeia

    O produtor americano Harvey Weinstein, de 67 anos, foi considerado culpado pelos crimes de estupro e abuso sexual em julgamento concluído na segunda-feira (24) em Nova York. Ele está sujeito a uma pena que pode chegar a 29 anos de cadeia.

    A decisão do tribunal sela o destino do poderoso executivo de Hollywood. Representa também uma importante vitória para o #MeToo, o movimento global de denúncias de abuso e assédio contra mulheres.

    Weinstein foi condenado pelo estupro da atriz Jessica Mann, em 2013, e por forçar a assistente de produção Miriam Haley a realizar sexo oral nele, em 2006. O executivo foi absolvido de três outras acusações, incluindo duas de agressão sexual que poderiam levá-lo à prisão perpétua.

    O influente magnata do cinema americano ainda tem outras acusações na Califórnia para enfrentar, que foram anunciadas depois do início do julgamento em Nova York. Existem dezenas de ações civis de outras mulheres contra Weinstein. Pelo menos 100 alegaram terem sido vítimas de comportamentos impróprios ou criminosos por parte do executivo.

    A trajetória entre as primeiras acusações contra Weinstein e a condenação foi marcada pela atuação de diversas mulheres além das denunciantes. As procuradoras Joan Illuzzi-Orbon e Meghan Hasts se encarregaram da acusação. Enfrentaram Donna Rotunno, advogada de defesa de Weinstein, chefe de uma equipe de seis advogados com ampla experiência em crimes sexuais, e classificada pelo jornal britânico The Guardian de “Rottweiler legal”.

    “O desequilíbrio de poder que ele explorou de maneira desonesta não era apenas físico [Weinstein tem 1m83 de altura e 93 quilos], mas também profissional e profundamente psicológico”, afirmou a procuradora Hast. A defesa alegou que o movimento #MeToo havia declarado Weinstein um estuprador antes dele ser julgado, arruinando sua carreira.

    As denúncias contra Weinstein chegaram ao público inicialmente por meio de uma reportagem de duas jornalistas do New York Times, Jodi Kantor e Megan Twohey. Em 2019, elas lançaram o livro “She Said” (ela disse, em tradução livre) em que contam sobre sua investigação. O livro sai no Brasil no primeiro semestre de 2020.

    Uma vitória para o #MeToo

    A decisão é considerada uma conquista importante para o movimento #MeToo, que estimulou a visibilidade de casos de abuso e assédio sexual. As denúncias contra Weinstein deram força à iniciativa que se espalhou pelas redes sociais e teve impactos muito além da indústria do entretenimento nos EUA.

    Produtor-executivo de filmes como “Pulp Fiction” e “Shakespeare Apaixonado”, Weinstein se tornou um símbolo da antiga prática do “teste do sofá” na indústria do cinema, em que profissionais aspirantes se submetem ou são forçados a ter relações sexuais com figuras em posição de poder.

    O magnata de Hollywood se junta a uma lista de indivíduos famosos condenados na esteira do #MeToo. Ela inclui o comediante Bill Cosby, sentenciado a uma pena de até 10 anos em 2018 por agressão sexual agravada, e o técnico da equipe nacional de ginástica dos EUA, David Nassar, condenado a até 125 anos por três episódios de agressão sexual.

    Entre os casos que ainda estão em julgamento estão o do cantor R. Kelly, com mais de 20 casos de acusação de agressão sexual, e o chef celebridade Mario Batali, por atentado ao pudor e lesão corporal.

    O crescimento do #MeToo

    Em outubro de 2017, poucos meses após as denúncias contra Weinstein, a atriz Alyssa Milano incentivou seguidoras de sua conta no Twitter a usarem a hashtag “#MeToo” para chamar atenção para abuso de poder e violência sexual. A frase foi usada pela primeira vez em 2006, pela ativista Tarana Burke, em seu MySpace.

    A iniciativa viralizou, levando milhares de mulheres a divulgarem suas histórias. Atrizes como Angelina Jolie, Gwyneth Paltrow, Uma Thurman e Jennifer Lawrence se juntaram ao coro das vítimas de Weinstein. O caso da atriz Mira Sorvino, promessa na década de 1990, evidenciou o possível destino de quem resistisse ao assédio de um homem poderoso. “Talvez houvesse outros fatores, mas definitivamente senti que me isolavam e que o fato de eu ter rejeitado Harvey tinha algo a ver com isso”, afirmou à imprensa em 2017.

    O “efeito Weinstein” virou verbete da Wikipédia. Segundo a definição da enciclopédia online, se trata de um “fenômeno em que alegações de abuso e assédio sexual contra celebridade são tornadas públicas e geram respostas de empresas e instituições”.

    O #MeToo seguiu se desdobrando em outras esferas, para além do cinema. No universo dos games, ele começou com a denúncia da desenvolvedora de jogos Nathalie Lawhead de que tinha sido estuprada por Jeremy Soule, compositor das trilhas sonoras de jogos das franquias “Harry Potter” e “The Elder Scrolls”.

    Entre suas reverberações na política um dos casos mais expressivos foi a renúncia do ministro da Defesa britânico, Michael Fallon, depois de ser acusado por uma jornalista de comportamento indevido durante um encontro ocorrido há 15 anos. Segundo Julia Hartley-Brewer, ele colocou a mão em seus joelhos diversas vezes.

    Nos EUA, a repercussão do movimento vem impactando diversas áreas profissionais e legislações locais. O estado de Califórnia expandiu o escopo de leis de proteção a assédio no local de trabalho, incluindo também relações com produtores. Em Nova York, trabalhadores domésticos ou independentes, como motoristas de Uber, agora também contam com maior proteção.

    “Para 2020 e além, temos uma nova medida com o qual podemos responsabilizar governos e empregadores em todo o mundo por assédio sexual e violência contra trabalhadores”, afirmou Rothna Begum, pesquisadora sênior da ONG Human Rights Watch.

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