Ir direto ao conteúdo

A cidade do interior paulista que proibiu o funk no Carnaval

Em Serra Negra, estilo não pode integrar blocos de rua por decisão da Secretaria do Turismo. Parte da identidade jovem do Brasil, gênero é alvo constante de ataques

    Temas

    A cidade turística de Serra Negra, no interior de São Paulo, fica a cerca de 140 km da capital, e integra o chamado Circuito das Águas Paulista, um conjunto de nove municípios na região da Serra da Mantiqueira conhecidos pela qualidade de suas águas.

    Por decisão da Secretaria de Turismo da cidade, o funk foi vetado nos blocos de rua do Carnaval 2020. A proibição do gênero consta em uma cláusula inserida no contrato dos músicos que participam das folias da cidade - o repertório precisa ser acordado com a prefeitura.

    Por que o gênero foi proibido

    De acordo com a Secretaria de Turismo de Serra Negra, a proibição tem como objetivo “retomar o Carnaval família”.

    Segundo Cesar Augusto Bordoni, Secretário do Turismo, o funk musical está associado ao início de confusões, que colocam em risco a segurança da população local e também dos turistas que visitam a cidade.

    “Com base em Carnavais passados, percebemos, junto com o monitoramento da polícia, que, a partir do momento em que começa a tocar esse tipo de música, as brigas também se iniciam”, disse ao jornal Folha de S. Paulo.

    “O turista que vem para cá busca conforto e bem-estar, assim como as famílias que vivem aqui. Pensando nisso, estamos remodelando o Carnaval”, afirmou.

    A Secretaria de Turismo é uma das mais importantes para a cidade: essa é a principal atividade econômica de Serra Negra, que conta com diversos hotéis-fazenda e opções turísticas.

    Dado o clima serrano da cidade, o inverno registra grande número de visitantes: um levantamento de 2017 indicou que, naquele ano, Serra Negra recebeu cerca de 22 mil visitantes por fim de semana durante a estação.

    A secretaria está ligada à prefeitura de Serra Negra, atualmente comandada pelo prefeito Sidney Antônio Ferraresso, filiado ao DEM, partido considerado de centro-direita.

    Os eleitores da cidade optaram por um projeto de governo conservador nas eleições presidenciais de 2018: em Serra Negra, o presidente Jair Bolsonaro teve 67,2% dos votos válidos no primeiro turno; e 81,6% dos votos válidos no segundo turno.

    Bolsonaro nunca criticou o funk abertamente. Um de seus filhos, o deputado Eduardo Bolsonaro, reiterou uma mensagem no Twitter atacando o gênero, em dezembro de 2019.

    “Se você permitir que seu filho trabalhe, vai ser enquadrado pelo ECA (Estatuto da Criança e do Adolescentes) Mas se deixar ele ir no baile funk, vai poder xingar a polícia e culpá-la pelas mazelas da sua vida enquanto é defendida por lacradores de plantão!”, dizia a mensagem, publicada pelo perfil Professor Igor Guedes e retuitada por Eduardo Bolsonaro.

    ‘Uma Anitta até pode ser tolerada’

    Mesmo com o veto, Bordoni diz que há uma certa margem de tolerância para a presença do funk nos blocos de Serra Negra. “Uma Anitta até pode ser tolerada, mas nada de músicas que incitam a violência, o sexo ou que vociferam palavrões”, disse.

    A cantora Anitta começou sua carreira em 2010, na produtora de funk carioca Furacão 2000. A presença na cena musical nacional se intensificou a partir de 2013, com o lançamento de “Show das Poderosas”, que foi a música mais vendida daquele ano no iTunes, plataforma de venda de músicas digitais da Apple.

    Mas há um debate que questiona se Anitta ainda pode ser considerada uma cantora de funk, tendo em vista que sua carreira — nacional e internacional — ultrapassou a estética do gênero e passou a incorporar elementos do pop estrangeiro, do reggaeton e da música negra americana.

    Já as músicas que, segundo Bordoni, incitam a violência, o sexo ou vociferam palavrões se encaixam no chamado funk “proibidão”, uma variação do gênero surgida nas periferias do Rio de Janeiro da década de 1990.

    Nesse estilo, as letras retratam a vida nas comunidades, e muitas vezes trazem letras que retratam a realidade violenta desses locais, que contam com a presença do tráfico de drogas e dos confrontos com a polícia.

    Por que o funk é atacado

    O funk é alvo de rejeição e de ataques por parte da sociedade brasileira. A exemplo do que aconteceu com o samba no início do século 20, ou com o rock’n’roll na década de 50, o gênero e seus apreciadores são categorizados como culturalmente inferiores ou até criminosos.

    Em 2017, um abaixo-assinado com mais de 20 mil apoiadores pediu ao Senado que criminalizasse o funk, chamado no documento de “falsa cultura”. A solicitação nem chegou a entrar em pauta, sendo rejeitada pela casa. Um ano antes, o então prefeito eleito de São Paulo, João Doria, classificou os eventos de funk de rua da periferia de São Paulo como “um cancro que destrói a sociedade”.

    Segundo uma pesquisa da consultoria J Leiva com 1.595 pessoas, de 2018, o funk fica em 9º lugar entre os gêneros preferidos dos habitantes da cidade de São Paulo. No levantamento, 11% apontaram o funk como seu estilo favorito, em comparação com 40% que disseram o mesmo sobre o sertanejo e 29%, MPB.

    Entre os mais jovens a relação muda bastante. Na faixa entre 12 e 15 anos, o funk aparece com 41% das preferências, o gênero mais citado entre os pesquisados nesse grupo etário. O sertanejo cai para 21% entre jovens dessas idades.

    Dada a popularidade, o funk se tornou parte da formação da juventude em diversos estados do país, em especial na região Sudeste. “O funk é hoje o cerne da identidade de uma grande parte dos moradores jovens das grandes cidades, principalmente das periferias”, disse ao Nexo o documentarista Luiz Bolognesi em dezembro de 2019.

    Segundo o produtor e fotógrafo Jefferson Delgado, há nas críticas ao funk um olhar elitista direcionado aos jovens da periferia.

    “[O funk] é também a música de beijar na boca, de ir para a festa. É o lifestyle do jovem de favela. Assim como todo adulto, todo jovem da balada rica, ele ou ela quer curtir a noite, sair, beijar, ir para um motel. A diferença principal em tudo isso é de onde esse jovem vem”, afirmou ao Nexo na mesma reportagem de dezembro de 2019.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

    Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

    Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
    Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!