Fair play financeiro no futebol: quem foi punido e quem é alvo

Uefa determina que Manchester City fique de fora da Champions League nas próximas duas temporadas. Regras já puniram clubes como Milan e Galatasaray e podem enquadrar outros gigantes europeus

O Manchester City foi banido pela Uefa (União das Associações de Futebol da Europa) das competições europeias nas temporadas de 2020/21 e 2021/22. A decisão, publicada pela principal entidade do futebol europeu no dia 14 de fevereiro de 2020, teve como motivação a violação das regras do fair play financeiro no futebol do continente.

O clube, que venceu o campeonato inglês nas temporadas 2017/18 e 2018/19, se estabeleceu no final da década de 2010 como uma das principais potências do futebol da Europa. Comandada pelo treinador espanhol Pep Guardiola, o time está na disputa pelo título da Champions League da temporada de 2019/20 – edição em curso da qual não foi banido.

Abaixo, o Nexo explica as regras do fair play financeiro que enquadraram o Manchester City e relembra outros casos de times que foram punidos pela Uefa.

As origens do fair play financeiro

O fair play financeiro foi criado pela Uefa em 2010, mas as regras só entraram em vigor em 2011. Ele define os termos que os clubes devem seguir em relação às suas finanças. Aqueles que descumprirem esses termos podem ser advertidos, multados, e correm o risco de serem impedidos de competir em torneios organizados pela Uefa, como a Liga dos Campeões e a Copa da Uefa – como que ocorreu com o Manchester City.

A ideia é fazer os clubes se comprometerem a ser responsáveis na hora de gastar dinheiro. Com os valores de transferências no futebol cada vez mais altos, os times se endividam em um mercado de transações inflacionado e a disputa para montar o melhor elenco faz com que os preços subam cada vez mais.

Nesse cenário, os clubes vinham ficando cada vez mais endividados, o que colocaria em risco o futuro dessas instituições e, consequentemente, o futuro dos campeonatos. A ideia do fair play financeiro é garantir que os clubes tenham receitas equilibradas e fontes de receita variadas para evitar riscos financeiros.

As regras do fair play financeiro

A Uefa permite que um clube tenha, no máximo, € 5 milhões de deficit a cada três anos. Isso significa que, ao longo de um triênio, há um limite do quanto os gastos podem exceder as receitas.

Nesse ponto, não são contabilizados os gastos com infraestrutura, formação de categorias de bases e futebol feminino. O deficit se refere, portanto, às despesas relacionadas especificamente às operações do futebol masculino profissional – em especial compras de jogadores e pagamento de salários –, e à diferença para as arrecadações do clube, obtidas via patrocínio, bilheteria, contratos de televisão, entre outras fontes.

Em 2015, a entidade aumentou o deficit permitido para € 30 milhões, mas apenas em casos em que donos dos clubes cubram essa diferença.

Mas além do deficit com as operações, o tamanho dos investimentos dos clubes nas janelas de transferência também é limitado pelo fair play financeiro. Isso porque a diferença entre o valor gasto para comprar jogadores e o valor arrecadado com venda de atletas não pode ser maior que € 100 milhões. Assim, se uma equipe quiser fazer investimentos de centenas de milhões de euros em uma janela, deverá compensar os gastos com vendas correspondentes.

A Uefa também exige que os clubes devem ter mais ativos do que dívidas (patrimônio líquido positivo), e precisa provar que não há risco de encerrar suas atividades.

Outra regra também diz que acionistas e empresas que pertençam ao mesmo conglomerado podem ser responsáveis por no máximo 30% de toda a receita bruta do clube. Assim, empresas ligadas a um mesmo dono ou grupo não podem ocupar uma parcela acima desse limite nas receitas de um clube.

O caso do Manchester City

Foi justamente nessa última regra que o Manchester City foi enquadrado. A investigação da Uefa concluiu que, entre 2012 e 2016, o dono do Manchester City, o Sheikh Mansour bin Zayed al-Nahyan, dos Emirados Árabes Unidos, maquiou as contas do clube para esconder investimentos próprios maiores que o permitido.

Nos balanços oficiais apresentados, o Manchester City havia reportado que a companhia aérea Etihad, ligada ao governo dos Emirados Árabes Unidos, era responsável por aportes de £ 67,5 milhões ao ano em patrocínio. No entanto, e-mails vazados revelaram que, na realidade, apenas £ 8 milhões vinham realmente da empresa. O restante tinha origem no bolso do próprio dono do clube, que inflava o valor do patrocínio nos balanços do clube. Assim, ele escondia que tinha participação maior nas receitas do clube do que o permitido pela Uefa.

Outras punições

O Manchester City não foi o primeiro clube a ser punido pelo desrespeito às regras do fair play financeiro. Em 2012, por exemplo, dois clubes turcos – Besiktas e Bursaspor – foram punidos por gestão financeira irresponsável. Ambos ficaram de fora de competições europeias por um ano.

Em 2016, outro clube turco foi punido, dessa vez com duas temporadas de suspensão das competições europeias. O Galatasaray ficou as temporadas de 2016/17 e 2017/18 fora desses campeonatos, e ainda teve seus gastos com compras de jogadores limitados pela Uefa.

Mas talvez o maior caso de punição antes do Manchester City em 2020 tenha sido o do Milan em 2018. O gigante italiano foi condenado pela Uefa por apresentar prejuízo maior que o permitido e por não ter se adequado às regras da entidade mesmo com advertência prévia.

A suspensão dos torneios continentais era originalmente de duas temporadas – 2018/19 e 2019/20 –, mas o clube conseguiu recorrer e anulou a punição. Em 2019, o clube foi condenado novamente por problemas em suas finanças e ficou proibido de disputar competições europeias na temporada de 2019/20.

Outros clubes na mira

Além do Manchester City, outros grandes clubes da Europa também podem ser correm risco de serem punidos por desrespeito à regra do fair play financeiro. A Juventus, por exemplo, que venceu as oito edições do campeonato italiano disputadas entre as temporadas 2011/12 e 2018/19, pode ser enquadrada por problemas em transferências e gastos além da conta. Os gigantes espanhóis Barcelona e Real Madrid também são investigados por motivos semelhantes.

Por fim, o caso mais famoso de possível violação do fair play financeiro é o do PSG (Paris Saint-Germain), equipe francesa que cresceu investimentos em anos recentes, liderado pelo emir do Qatar, Tamin Bem Hamad Al Thani. O clube já havia sido investigado por possíveis violações em 2017, por suspeitas sobre as contratações de Neymar e Mbappé. A investigação averiguou se o time desrespeitava os limites de participação de empresas na receita, assim como no caso do Manchester City.

Apesar do PSG não ter sido condenado, o clube segue na mira do fair play financeiro. A equipe pode ser obrigada a vender jogadores para conseguir cumprir as regras da Uefa.

No Brasil, não há regras de gestão financeira como na Europa. Mas um levantamento do jornalista Rodrigo Capelo, do Globoesporte.com, mostrou que, caso as regras da Uefa fossem aplicadas no país, a maioria dos clubes teria problemas. Só no critério que determina que os clubes tenham mais ativos do que dívidas, metade dos clubes da Série A de 2020 seriam reprovados.

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