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A sombra que a Rússia projeta sobre a democracia americana

Denúncia sobre influência de agentes russos volta a dominar o debate político nos EUA em ano de eleição presidencial

    Em 2020, assim como em 2016, a Rússia aparece no centro de uma eleição presidencial americana. Há quatro anos, foi a denúncia de que agentes russos espalharam notícias falsas nas redes sociais para turvar a eleição, além de terem roubado e vazado e-mails do Partido Democrata. Desta vez, de que estão disseminando notícias falsas novamente.

    Nos dois casos, o presidente Donald Trump é apontado como o maior beneficiário dessa interferência. Em 2016, a investigação sobre a hipóteses de que ele teria agido “em conluio” com os espiões russos foi inconclusiva. Agora, uma nova investigação pode estar a caminho.

    Foto: Kevin Lamarque/Reuters - 16.07.2018
    Putin diante da bandeira americana
    Donald Trumpn em Helsinki

    O jornal americano The New York Times revelou na sexta-feira (21) que membros do serviço secreto dos EUA estiveram na Comissão de Inteligência da Câmara dos Representantes (equivalente à Câmara dos Deputados no Brasil) no dia 13 de fevereiro para relatar que espiões russos estavam novamente interferindo no processo eleitoral.

    No dia seguinte a essa reunião, Trump demitiu o diretor de Inteligência Nacional dos EUA, Joseph Maguire, que desde agosto de 2019 chefiava as 17 agências do setor. O presidente americano teria ficado “furioso”, segundo relato dos jornais, com o fato de Maguire ter levado essas informações aos congressistas. Para o lugar dele, foi nomeado o até então embaixador dos EUA em Berlim, Richard Grennell.

    A troca foi motivada pelo receio de que parlamentares do Partido Democrata presentes nessa reunião do dia 13 de fevereiro pudessem usar essas informações fornecidas pelo setor de inteligência para atacar o presidente, que está em plena campanha pela própria reeleição.

    A tese reforça a sensação de que haveria nos EUA um “deep State” (literalmente um “Estado profundo”), que seria formado por membros da alta burocracia federal que estariam agindo à revelia do presidente para evitar que ele governe e que ele venha a ser eleito para um novo mandato de quatro anos, na eleição de 3 de novembro.

    Expurgo contra os traidores

    Um dos presentes no encontro de 13 de fevereiro na Comissão de Inteligência da Câmara foi o combativo deputado pelo estado da Califórnia Adam B. Schiff, do Partido Democrata. Schiff teve papel proeminente no processo de impeachment contra Trump na Câmara dos Representantes.

    O presidente americano foi derrotado na Câmara mas, no final, livrou-se do processo de impeachment graças à maioria republicana no Senado. Desde então, Trump “vem promovendo um expurgo entre seus aliados, orientando seus assessores a identificar e remover funcionários em todas as esferas do governo que não estejam alinhados, e substituindo-os por outros, mais leais”, de acordo com o jornal The Washington Post.

    A troca do comando da Inteligência seria parte desse processo. Mas a manobra acabou lançando suspeitas de que Trump não apenas queira se cercar de aliados fiéis, mas que ele esteja buscando também impedir que as investigações sobre a interferência russa na eleição de 2020 sigam adiante.

    Segundo o The New York Times, “alguns oficiais da Inteligência vieram o briefing como um erro tático, pois as informações poderiam ter sido entregues de maneira menos direta ou terem sido deixadas inteiramente de lado para evitar irritar os republicanos”.

    Qual a interferência em questão

    O relatório em si não é de conhecimento público, mas os relatos publicados pela imprensa americana com base em informações fornecidas por fontes que pedem para não ser identificadas dizem o seguinte: “A Rússia quer ver Trump reeleito porque sua administração é vista como mais favorável aos interesses do Kremlin [sede do Executivo russo]”.

    Para isso, estariam sendo feitas ações de desestabilização tanto da eleição futura, de 3 de novembro, quanto das primárias do Partido Democrata, iniciadas em fevereiro e programadas para terminar em julho.

    O Washington Post diz que “não está claro quais passos específicos foram dados, se é que algum passo específico foi dado, pela Rússia para ajudar Trump”. Relatórios anteriores sobre o mesmo assunto falam de vazamento de e-mails de campanha e promoção de conteúdo falso nas redes sociais, com uso de robôs, para inundar o ambiente político com desinformação.

    O que a Rússia ganharia com isso

    Parlamentares republicanos presentes no briefing de inteligência teriam, de acordo com esses mesmos jornais, argumentado que a teoria não faz sentido, pois Trump vem sendo “duro” com Vladimir Putin, e não age para favorecer nenhum interesse russo.

    Fora do mundo político-eleitoral, pesquisadores de relações internacionais e de ciência política têm se referido às estratégias de desinformação promovidas por agentes russos como parte de uma nova projeção de influência no Ocidente, cuja intenção seria menos a de favorecer um candidato específico e mais de sabotar o processo como um todo, minando as qualidades da democracia.

    Foto: Kevin Lamarque/Reuters - 16.07.2018
    Putin diante da bandeira americana
    Vladimir Putin em Helsinki

    Alguns especialistas usam o termo “sharp power” (poder afiado) para referir-se a essa estratégia de “guerra de informação conduzida por potências autoritárias de hoje, particularmente pela China e pela Rússia”, países que “gastaram dezenas de bilhões de dólares para moldar as percepções do público e o comportamento [das pessoas] ao redor do mundo” disseminando informação maliciosa em escala global com finalidade política.

    Um exemplo clássico desse tipo de ação é promover posts em massa para um grupo específico de usuários, tratando um determinado candidato de maneira favorável ou desfavorável, usando para esse fim informações que sejam verdadeiras ou falsas, não importa.

    Dessa maneira, eleitores negros, por exemplo, poderiam ser bombardeados com informações de que um determinado candidato é racista, da mesma forma que mulheres poderiam ser bombardeadas com informações de que um candidato é machista. A existência de um exército de robôs cuidaria, em seguida, de replicar esses conteúdos, fazendo o usuário sentir-se inundado por uma realidade que só existe dentro de sua própria bolha.

    A estratégia não é de todo estranha às equipes de campanhas dos próprios candidatos, que fazem uso de atitudes semelhantes nas disputas. O fenômeno mostra que existe uma fronteira tênue entre o que é legal ou não no mundo eleitoral atual.

    O cientista político americano Joseph Nye, pós-doutor pela Universidade de Harvard, disse em artigo sobre o tema, ainda em 2018, que os países alvejados terão de repensar as ferramentas para responder a esses riscos. Eles devem “assumir postura muito mais assertiva da defesa de seus princípios”, mas não podem responder na mesma moeda, fazendo uso de estratégias semelhantes.

    “A ideia é não competir com o modelo autoritário do sharp power”, diz Nye, mas seguir promovendo valores democráticos positivos.

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

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