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A origem do carnaval de SP contada por seus fundadores

Coleção de registros de história oral de figuras como Nenê de Vila Matilde e Madrinha Eunice é mantida pelo Museu da Imagem e do Som. Também há fotos antigas da festa

    O Museu da Imagem e do Som de São Paulo detém, em seu acervo, uma coleção dedicada ao carnaval paulistano cujos materiais estão disponíveis online.

    A Coleção Carnaval Paulistano é composta por uma série de entrevistas com personalidades importantes para a tradição carnavalesca da cidade, como Dionísio Barbosa, Nenê de Vila Matilde, Madrinha Eunice e Geraldo Filme, realizadas a partir da década de 1970. Há também fotografias das celebrações ocorridas na capital paulista entre os anos 1920 e 1970.

    O registro de história oral dos sambistas e carnavalescos de São Paulo foi um trabalho pioneiro, iniciado em 1976. A primeira entrevista gravada, da qual participou o pesquisador José Ramos Tinhorão, foi com Dionísio Barbosa, fundador do Grupo Carnavalesco da Barra Funda em 1914. O grupo viria a dar origem à escola de samba paulista Camisa Verde e Branco na década de 1950.

    A partir de 1981, quando foi fundado o Laboratório de História Oral, o projeto ganhou espaço e foi assumido pela pesquisadora Olga Von Simson, atualmente professora da Unicamp e referência nos temas relacionados à memória do carnaval paulistano e história oral.

    Como foi o surgimento do carnaval paulistano

    Simson é autora do livro “Carnaval em branco e negro”, no qual apresenta um panorama da festa na cidade de São Paulo entre 1914 e 1988. Resultado de um estudo denso, rico em fotos e depoimentos, o livro resgata as origens do carnaval nos bairros paulistanos.

    No início, a festa girava em torno das famílias e dos grupos de vizinhança. A segregação racial, no entanto, dividia a festa em duas, segundo a pesquisa. Havia o carnaval dos brancos, de tipo veneziano, que era considerado legítimo, e o carnaval dos negros, com blocos de rua, que era perseguido.

    O carnaval da população negra paulistana só deixou de ser reprimido na década de 1930, após uma política de Estado que buscou valorizar a cultura popular. Ele foi se modificando progressivamente até dar origem às escolas de samba que conhecemos hoje.

    Na coleção do MIS, é possível ouvir uma entrevista concedida por Deolinda Madre (1909-1995), conhecida como Madrinha Eunice. Ela fundou, em 1937, a primeira escola de samba de São Paulo: a Escola de Samba do Lavapés, na região do Cambuci. Sua inspiração foi o carnaval carioca, com o qual havia tido contato na Praça Onze, antigo berço do samba no Rio de Janeiro.

    No trecho acima, Madrinha Eunice canta o samba-enredo “São Paulo Antigo e São Paulo Moderno”, da década de 1960. A letra faz referência à construção do metrô de São Paulo, que transformou a paisagem da cidade.

    A criação de samba-enredos foi consequência da oficialização dos desfiles das escolas por parte da prefeitura, ocorrida em 1968. Antes disso, Eunice conta que a trilha dos festejos eram as canções que faziam sucesso no rádio.

    Para a sambista, a participação do poder público trouxe uma estrutura maior, mas teve impactos sobre o caráter participativo e popular do carnaval de rua, tradicional em vários pontos da cidade.

    Foi então que os desfiles passaram a se concentrar na Avenida São João e no Vale do Anhangabaú, e não mais nos bairros. Eles passaram a ocorrer na Avenida Tiradentes a partir de 1977, onde permaneceram até a inauguração do Sambódromo do Anhembi, em 1991.

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