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Quem é Bloomberg, o bilionário que quer levar a prévia democrata

Pré-candidato injeta milhões do próprio bolso na campanha, desequilibra disputa e fortalece a corrente mais conservadora do partido

    O pré-candidato democrata à Presidência dos EUA, Michael Bloomberg, nem bem entrou nas primárias internas para a eleição presidencial de 2020 e já provoca uma reviravolta nas pesquisas.

    O bilionário americano participou na quarta-feira (19), em Las Vegas, de seu primeiro debate televisivo desde o início das primárias democratas. Já nos primeiros minutos, ficou claro que ele seria o alvo preferencial dos demais concorrentes, que criticaram sua fortuna e tentaram colar nele a imagem de um pré-candidato que coleciona declarações preconceituosas contra mulheres, negros e latinos.

    Bloomberg adotou uma estratégia incomum em sua campanha. Ele pulou as duas primeiras primárias da temporada, realizadas em Iowa (3 de fevereiro) e em New Hampshire (11 de fevereiro), e vai pular também as de Nevada (22 de fevereiro) e da Carolina do Sul (29 de fevereiro), para entrar na disputa só no dia 3 de março, quando 14 estados americanos votam no mesmo dia, na chamada “Super Tuesday”, a “super terça-feira”.

    Essa estratégia de entrada tardia na disputa fez Bloomberg abrir mão de 155 delegados que estavam em disputa nos primeiros quatro estados. O número é pequeno se comparado aos 1.357 delegados que estarão em jogo só na “Super Tuesday”, quando Bloomberg espera fazer uma entrada triunfal em cena.

    No sistema de primárias democratas, os pré-candidatos disputam mais de 50 primárias e caucuses em cada um dos estados americanos, ao longo de seis meses. Cada estado tem um número específico de delegados. No fim, será escolhido o candidato que somar os votos de 1.990 delegados. Essa aclamação ocorrerá entre os dias 13 e 16 de julho, na cidade de Milwaukee, estado de Wisconsin, e o vencedor disputará a eleição contra o atual presidente, Donald Trump, do Partido Republicano, no dia 3 de novembro.

    A força de Bloomberg nas pesquisas

    Mesmo largando atrás e estando ausente das quatro primeiras votações internas do Partido Democrata, Bloomberg aparece em segundo lugar numa das pesquisas nacionais de intenção de voto. A NPR/PBS/Marist, feita entre 13 e 16 de fevereiro, mostra Bloomberg com 19%, atrás apenas de Bernie Sanders, que tem 31%.

    Projeção nacional

    Gráfico mostra projeção nacional de votos nas primárias democratas de 2020

    O desempenho surpreendente de um candidato como Bloomberg, que nem bem entrou para valer na disputa, tem duas consequências principais a esta altura:

    • primeiro, ele assume a liderança entre os pré-candidatos que são vistos como expoentes da ala mais conservadora do Partido Democrata, formada por Joe Biden, Amy Klobuchar e Pete Buttigieg, respectivamente com 15%, 9% e 8% na mesma pesquisa nacional;
    • depois, ele acentua um dilema agudo do campo democrata, que é o de apostar numa candidatura mais à esquerda, como a de Sanders, ou escolher uma figura que possa ganhar votos de centro e até da parte da direita que não tolera Trump.

    Um conservador entre conservadores

    A classificação entre direita, centro e esquerda é peculiar nos EUA, onde todo o espectro ideológico dos candidatos, tanto democratas quanto republicanos, é deslocado à direita, com a maioria dos políticos defendendo sempre um pacote formado por apego ao liberalismo econômico, baixa proteção aos direitos trabalhistas e baixíssima cobertura por serviços públicos nas áreas de saúde, educação e transporte.

    Num cenário assim, Sanders é tratado como “socialista”, quando, num contexto europeu ou mesmo latino-americano, não passaria de um social-democrata moderado. Bloomberg, por sua vez, é o típico candidato de direita: um bilionário que fez fortuna no mercado financeiro, que defende a linha-dura na segurança pública e não fala em políticas redistributivas.

    O currículo de Bloomberg mostra um empresário e político conservador, mesmo que ele tenha se agarrado à pauta ecológica e ao controle das armas de fogo, duas bandeiras caras à esquerda americana.

    Um democrata que já foi republicano

    Bloomberg, que sempre foi membro do Partido Democrata, concorreu à Prefeitura de Nova York pelo hoje rival Partido Republicano. Venceu sua primeira eleição em 2001.

    Quatro anos depois, em 2005, ele foi reeleito para o que seria seu segundo e último mandato seguido como prefeito. Bloomberg, no entanto, mudou a legislação local e aprovou para si mesmo o direito de concorrer uma terceira vez, o que ele fez com novo êxito em 2009. Essa última postulação ocorreu como candidato independente, não mais republicano.

    Ao todo, foram 11 anos à frente da Prefeitura de Nova York, transcorridos entre 2002 e 2013. No cargo, ele manteve a redução dos índices de criminalidade, que havia sido iniciada por seu antecessor, Rudolph Giuliani (1994-2002), aprovou leis que aumentaram o controle sobre porte e posse de armas de fogo e defendeu o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

    Como prefeito, ele incentivou que policiais de Nova York endurecessem a fiscalização nas ruas sob pretexto de combater o crime. A prática teve efeito discriminatório – 90% das pessoas paradas e revistadas eram negras e latinas, com idades entre 14 e 24 anos, das quais 70% não tinham nenhuma acusação criminal. A prática, chamada em inglês de “stop and frisk” (“parar e revistar”), foi muito criticada, gerou um mea culpa de Bloomberg e é explorada hoje por seus rivais democratas e republicanos, que esperam minar a popularidade do candidato nessa fatia do eleitorado.

    Bloomberg só voltaria ao Partido Democrata em 2018, quando então passou a injetar milhões de dólares em doações para campanhas de candidatos do partido ao Congresso, construindo a base de apoio com a qual ele espera contar nas primárias de 2020.

    Um dos empresários mais ricos do mundo

    Em paralelo à política, Bloomberg tornou-se a nona pessoa mais rica do mundo, com um patrimônio avaliado atualmente em US$ 61 bilhões. Parte desse dinheiro abastece suas próprias campanhas políticas. Só em peças de propaganda de rádio e TV ele gastou US$ 310 milhões desde que se lançou como pré-candidato democrata à Presidência.

    Sua fortuna começou a ser construída na década de 1980, quando ele fundou a Bloomberg L.P., que viria a se tornar um dos maiores conglomerados de tecnologia e de mídia do mundo. O capital inicial partiu de um depósito de US$ 10 milhões, recebido de seu antigo empregador, o Salomon Brothers, quando ele deixou esse banco de investimentos.

    US$ 61 bilhões

    é a fortuna que Bloomberg possui

    US$ 310 milhões

    é quanto ele gastou com anúncios de rádio e TV nesta campanha de 2020

    A condição de bilionário favorece sua campanha porque ele não depende de doadores externos. Porém, essa é também sua maior vidraça no momento em que eleitores democratas, sobretudo os mais jovens, mostram-se intolerantes com o esquema tradicional de financiamento de campanha política nos EUA, no qual os candidatos com mais dinheiro e com grandes doadores individuais sempre se dão melhor.

    Sanders explora justamente esse ponto. O ex-senador por Vermont tornou-se o maior defensor da taxação das grandes fortunas e de uma política de distribuição de renda, o que o coloca como grande antagonista de Bloomberg na disputa em curso.

    “Bloomberg tem todo o direito do mundo de concorrer à Presidência dos EUA, como um cidadão americano, mas eu não acho que ele tenha o direito de comprar essa eleição”, disse Sanders em entrevista à emissora CNN na quarta-feira (19).

    Bloomberg reage acusando Sanders de mobilizar uma militância raivosa, chamada de “Bernie Bros.”, algo que poderia ser traduzido pelo equivalente brasileiro “os trutas ou os parças do Bernie” – numa referência aos militantes digitais que movem campanhas de difamação nas redes.

    Joe Biden, ex-vice-presidente de Barack Obama e antagonista de Bloomberg na disputa pelo centro ideológico do partido, também atacou o pré-candidato. “Com o dinheiro que ele tem, Bloomberg pode comprar quantas inserções de propaganda ele quiser, mas não poderá nunca apagar seu passado, de ter apoiado políticas discriminatórias.

    “Quando fui prefeito, reduzi a taxa de encarceramento em 39% em Nova York”, diz Bloomberg numa de suas muitas peças de campanha, na qual ele aparece ao lado de lideranças da comunidade negra.

    Se chegar a passar por seus adversários de partido até o fim das primárias de julho, Bloomberg terá contra si o também bilionário Trump na eleição de novembro. O presidente americano adota um tom agressivo contra seu possível adversário, chamando-o de “mini Mike” no Twitter. O empresário democrata responde, dizendo que Trump reza para que Sanders vença as primárias, e não ele, que seria o único capaz de derrotar o atual presidente, um homem no qual “ninguém acredita”.

    No debate de Las Vegas, na quarta-feira (19) os demais pré-candidatos democratas tentaram colar em Bloomberg a imagem de um bilionário preconceituoso que em pouco se diferenciaria de Trump numa disputa final. O jornal americano The New York Times notou que, em sua estreia, Bloomberg demonstrou óbvia dificuldade em rebater as críticas que poderiam ameaçá-lo em um Partido Democrata que considera mulheres e afro-americanos seus eleitores mais importantes.

    Vantagens no mundo jornalístico

    Bloomberg é dono de um grande conglomerado de comunicações. A agência de informação que leva seu nome teve início nos anos 1980, oferecendo dados em tempo real para investidores do mercado financeiro.

    O nicho escolhido por ele mostrou-se rentável e fez crescer não só sua fortuna, mas sua influência. Essa condição é agora posta à prova nas primárias, pois muitos se questionam sobre o desequilíbrio que uma máquina de informação como a Bloomberg poderia causar.

    Por isso, os diretores da agência lançaram no dia 3 de fevereiro uma espécie de manifesto, assumindo o compromisso ético de fazer uma cobertura equilibrada. A agência mantém no ar uma página na qual contabiliza em tempo real a quantidade de tempo e o número de textos publicados sobre cada pré-candidato envolvido na campanha.

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

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