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5 filmes para conhecer a obra de José Mojica Marins

Cineasta que incorporou o personagem Zé do Caixão morreu aos 83 anos. Com pouco dinheiro e sem instrução formal, concebeu alguns dos principais títulos de terror do cinema brasileiro

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    Filho de família circense, José Mojica Marins, mais conhecido como Zé do Caixão, nasceu em São Paulo, numa sexta-feira 13 de 1936. O contato com o cinema vem desde criança, já que o pai geria o Cine Santo Estevão, na zona oeste paulistana. Ali, cresceu assistindo as aventuras de “Flash Gordon”, “Tarzan” e dos heróis das chanchadas nacionais, como descreve André Barcinski e Ivan Finotti no livro “Maldito” (1998), biografia sobre o cineasta.

    Sem nunca ter estudado cinema formalmente, produziu mais de 40 títulos. Foi também no Cine São Estevão onde projetou alguns de seus primeiros experimentos com a câmera 8mm. Sem dinheiro, suas produções eram geralmente caseiras e marcadas pelo improviso. Durante as gravações, era comum encontrar um figurante dormindo dentro de um dos caixões do cenário a fim de poupar a volta para casa.

    Esse “improviso” também lhe causaria problemas, como quando estampou jornais da época, acusado de recolher dinheiro de terceiros para financiar os próprios filmes sem depois devolvê-lo. Antes de estrear formalmente nas telas, formou uma academia de atores para quem jurava papéis em grandes estreias que nunca aconteciam.

    Desde as primeiras obras, o cineasta já lidava com nudez e violência realista para a época, o que desagradou em muito os órgãos censores e de classificação etária. Também era boicotado pela Igreja, principalmente quando passou a usar símbolos cristãos de forma blasfêmica, o que, ao fim, lhe conferia diversos fracassos de bilheteria. Até a criação de seu personagem mais icônico: o Zé do Caixão.

    Mojica conta que teve a ideia de um pesadelo, no qual a figura de cartola, monocelha e unhas longas, pelo qual mais tarde ficaria conhecido, o arrastava para dentro de uma tumba. Para o cineasta, isso era sinal claro de que se não fizesse nada, ele estaria caminhando para a própria morte.

    Foi então que decidiu fazer um filme de terror, gênero incipiente na filmografia brasileira: “À meia-noite levarei sua alma” (1964), que apesar de ter sido um sucesso, nada rendeu a Mojica. Sempre endividado, ele havia vendido a outras pessoas partes do filme quando finalizado para que a ideia saísse do papel. Quando foi contabilizá-las, percebeu que havia vendido 300% do filme.

    Mesmo depois do fim da censura da ditadura militar, penou na mão dos órgãos de financiamento, acusando a então Embrafilme (Empresa Brasileira de Filmes S.A) de privilegiar Glauber Rocha e outros cineastas do Cinema Novo. À época, abandonou a narrativa e passou a produzir filmes essencialmente apelativos e eróticos. Mas de modo geral, era admirado por eles e nomes como Tim Burton e Roger Corman pela rebeldia e independência que conferia a seus projetos.

    Com o sucesso do personagem, Mojica passou a dar entrevistas “encarnando” apenas Zé do Caixão. Fez uma migração à TV, apresentando ou fazendo aparições nos programas do Silvio Santos na SBT, Cine Trash na Band e o talk show O Estranho Mundo de Zé do Caixão no Canal Brasil.

    Mojica morreu nesta quarta-feira (19) aos 83 anos, em decorrência de uma broncopneumonia. Abaixo, o Nexo seleciona cinco filmes que ajudam a entender sua obra.

    ‘A sina de um aventureiro’ (1958)

    O primeiro filme de Mojica lançado comercialmente é um faroeste brasileiro, em que a figura do caubói dá lugar ao jagunço. Ainda que longe do terror, o longa já trazia sequências de nudez e violência que marcariam sua carreira posteriormente.

    No entanto, esse não era para ter sido seu primeiro filme: “Sentença de Deus”, produzido entre 1954 e 1956, passou por uma série de atrasos depois que, em circunstâncias diferentes, três atrizes faleceram tragicamente, e uma quarta foi atropelada. Hoje, sobram apenas 20 dos 88 minutos do filme, mas a história ajudou a alimentar a mística em torno do cineasta.

    É também o primeiro filme brasileiro filmado em Cinemascope, tecnologia que permitia que a projeção fosse ainda mais larga, em telas bem maiores — “Nasce uma estrela” (1954) e “Rebelde sem causa” (1955), por exemplo, foram filmados assim.

    ‘À meia-noite levarei sua alma’ (1964)

    Um dos principais marcos do cinema de terror brasileiro. Muito do que foi considerado ousado na época, partia na verdade de um desconhecimento de Mojica dos procedimentos clássicos do cinema.

    Ângulos inusitados, coreografias complicadas com uma câmera móvel, quebra da quarta parede, cenários escuros, fotogramas pintados à mão e sequência em negativo eram apenas algumas das experimentações. Com tudo isso, o filme destoava bastante das produções da companhia Vera Cruz, que mantinham sempre um padrão estilístico limpo e sóbrio.

    Desgostoso de fazer filmes apenas para agradar, ele acreditava que as pessoas queriam assistir de fato sexo e violência. Para isso, o sádico e cruel coveiro Zé do Caixão violenta a mulher do melhor amigo, uma vez que a sua era incapaz de engravidar. A moça agredida deseja então se suicidar com o intuito de regressar do mundo dos mortos para levar a alma de Zé do Caixão.

    ‘Esta noite encarnarei no teu cadáver’ (1967)

    Sequência direta de “À meia-noite levarei sua alma”, Zé do Caixão tenta se livrar dos crimes antes cometidos enquanto continua na busca da mulher que poderá gerar seu filho. Dessa vez, ele une a ousadia estilística a diálogos mais elaborados.

    Filmado em preto e branco, uma das sequências mais famosas é a descida ao Inferno, quando o filme passa ao colorido, em uma cacofonia de sons, luzes, fumaças e cenários improvisados. Nesse momento, o diretor já gozava de certo prestígio, atraindo jovens diretores que iam acompanhar os métodos de produção.

    ‘O ritual dos sádicos’ (1970)

    Dessa vez, um psiquiatra faz com que quatro voluntários experimentem LSD para investigar a influência do Zé do Caixão sobre eles. Obviamente, as reações vão de sexo, passando por perversão e sadismo.

    A diferença é que, além dos elementos fantásticos, Mojica trata dos terrores do dia-a-dia, como a miséria e a violência urbana. Já no período mais duro da ditadura militar brasileira, depois da instituição em 1968 do AI-5 (Ato Institucional 5), o filme foi duramente censurado, a ponto dos parceiros se afastarem dele receosos de que nunca teriam seus filmes exibidos no cinema. Só seria liberado 16 anos depois de produzido.

    Os quatro filmes mais famosos dele até então totalizavam 359 minutos, dos quais 200 haviam sido censurados. “À meia-noite levarei sua alma”, por exemplo, teria seu pedido de recirculação proibido. Com isso, passou a aceitar qualquer trabalho que o pagasse, e a qualidade estética dos filmes caiu bastante.

    ‘A encarnação do demônio’ (2008)

    Depois de mais de quarenta anos, era lançado o último filme da trilogia do Zé do Caixão. Sem financiamento formal da Embrafilme e informal dos colegas, o terror era relegado mesmo no cinema marginal.

    Mais uma vez, Zé do Caixão retorna à procura da mulher perfeita para o herdeiro ideal. Além de sequências em preto e branco de alguns de seus filmes anteriores, Mojica contou com um orçamento gordo: R$ 2 milhões de reais — valor que não conseguiu levantar em meio século de carreira. Os efeitos especiais, portanto, são mais megalomaníacos, ainda que sem a mesma aura de ousadia pelo improviso dos filmes anteriores.

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