Raio-X de um meme: a intrincada história do ratinho Dorime

Referências mesclam taxidermia, música de banda francesa em ‘latim macarrônico’ e universo dos games

O Nexo é um jornal independente sem publicidade financiado por assinaturas. A maior parte dos nossos conteúdos são exclusivos para assinantes. Aproveite para experimentar o jornal digital mais premiado do Brasil. Conheça nossos planos. Junte-se ao Nexo!

Desde o final de 2019, as palavras “dorime” e “ameno” se tornaram meme nas redes sociais – a imagem mais famosa é a do ratinho que você pode ver logo acima.

As duas palavras, em um pseudo-latim, foram tiradas da letra de “Ameno”, um dos hits da banda francesa Era, que, na reta final dos anos 90, surgiu com a proposta de misturar música sacra e cantos gregorianos com estilos contemporâneos como o rock e o pop.

O “ratinho Dorime” se espalhou e chegou até mesmo a virar fantasia em bloco de Carnaval, materializando o meme numa manifestação tipicamente brasileira.

Normalmente, o meme do “dorime” é usado por usuários que querem dar algum peso dramático ou de gravidade a uma situação pela qual passaram a música torna-se praticamente uma trilha sonora para o momento.

De sticker de WhatsApp a videogame

A trajetória do meme “ameno dorime” começou em meados de 2014 no universo dos games, em transmissões ao vivo realizadas pelo streamer americano conhecido como Noxious.

Noxious usava “Ameno” como trilha sonora das transmissões de suas jogatinas no YouTube e no Twitch. Logo a canção começou a ser citada pelo público, que postava trechos da letra nos comentários.

Pouco tempo depois, “Ameno” saiu do nicho dos games e começou a atingir outros públicos. O meme se consolidou depois que Patrick Estrela, personagem da animação “Bob Esponja”, protagonizou uma imagem que passou a circular na internet.

A imagem com Patrick se espalhou em fóruns e redes sociais, se transformando em sticker do WhatsApp e depois estampando produtos como adesivos, camisetas e ímãs de geladeira.

Foto: Reprodução
O personagem Patrick Estrela acompanhado do texto Dorime
Uma das versões do meme baseado em ‘Ameno’

No Brasil, o meme que se consolidou foi o do ratinho vestido de padre com a citação à música.

A imagem mais antiga do ratinho vestido de bispo, sem a referência à canção, é datada de agosto de 2010. Ela apareceu pela primeira vez em um blog de humor britânico, numa publicação sobre taxidermia, técnica de reprodução de animais mortos a partir de compostos sintéticos (atividade antigamente conhecida como empalhamento de animais).

Já a imagem completa, com legenda, começou a se espalhar pela web em dezembro de 2019. Foi reproduzida diversas vezes no imgur, site criado para o compartilhamento de imagens engraçadas e memes.

A popularidade do ratinho chegou ao ponto de ele se tornar protagonista de um videogame. Trata-se de “Tales of Dorime: Ameno’s rescue” (Contos de Dorime: O resgate de Ameno, em tradução livre), que pode ser jogado gratuitamente neste link.

O jogo foi desenvolvido pelos universitários Daniel Andrade, 27 anos, e João Vitor Sousa, 21 anos, estudantes do curso de sistemas de informação da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro.

Com cenário de fantasia medieval, o jogador assume o papel de Dorime, o ratinho, e precisa enfrentar diversos inimigos no meio do caminho. “Bem, é um rato clérigo, contra o que ele estaria lutando se não demônios?”, disse Andrade ao site Jovem Nerd.

A dupla criou “Tales of Dorime” como um projeto de férias de uma das disciplinas do curso. O game se encaixa no estilo “Metroidvania”, gênero de aventura dos anos 80 que mescla a estética e a jogabilidades de “Metroid” e “Castlevania”, dois sucessos da época.

“Ameno” também ganhou novos traços musicais na internet. O canal Vesgo no YouTube colocou a canção do Era num ritmo de forró. No canal BassBoosted, a música integrou um funk. Até mesmo o psytrance, subgênero da música eletrônica, contou com uma versão de “Ameno”.

A trajetória do Era

O Era surgiu em 1996, idealizado pelo músico francês Eric Lévi, que até então era conhecido pelo seu trabalho como líder da banda de rock Shakin’ Street, que chegou a abrir alguns shows do AC/DC nos anos 1980.

Seu primeiro disco, que levava o nome da banda, foi um sucesso na Europa. O carro-chefe era justamente a faixa “Ameno”.

“Ameno” ficou no top 50 das paradas de 1997 e 1998 na França, Bélgica, Alemanha, Suécia e Islândia. Também em 1998, a canção foi usada como trilha sonora de um comercial americano da operadora de cartão de créditos Mastercard, divulgada como parte da campanha publicitária para a Copa do Mundo de futebol daquele ano.

A música também foi usada como trilha sonora de entrada do lutador de MMA russo Aleksander Emelianenko, irmão mais novo de Fedor Emelianenko, um dos mais destacados atletas do esporte. Aleksandra tinha “Enae Volare Mezzo”, outra canção do Era, como sua assinatura musical.

“Divano” foi outra canção famosa do Era, sendo popularizada no Brasil por ser um dos temas da novela “Um anjo caiu do céu”, da Globo, transmitida no ano de 2001.

O Era continua em atividade, e já lançou seis discos. O mais recente é “The 7th Sword” (A 7ª Espada), de 2017.

O significado da letra de ‘Ameno’

As letras do Era misturavam latim, grego e por vezes árabe. Em algumas ocasiões, elas tinham um sentido real. Em outras, integravam a composição apenas para criar uma sonoridade e clima, sem nenhuma preocupação com um significado.

“Ameno” foi composta em “latim macarrônico”, uma versão cômica do latim que ignora as regras reais do idioma. O trecho “dorime”, portanto, não tem uma tradução exata. O mais próximo que se pode chegar de um significado para a canção é que se trata de um pedido para que o narrador da letra tenha sua dor amenizada.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.