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Como Bolsonaro reage à morte do miliciano ligado à sua família

Presidente diz ter tomado 'providências legais' para que 'perícia independente' seja realizada no corpo de ex-policial, interferindo em responsabilidade estadual e criando atrito com governadores

    Na tentativa de desvincular sua imagem e a de sua família da do ex-capitão do Bope Adriano Magalhães da Nóbrega, o presidente Jair Bolsonaro adotou como estratégia colocar em dúvida a ação da Polícia Militar da Bahia que resultou na morte do ex-policial em 9 de fevereiro. Bolsonaro também tem atacado adversários políticos e a imprensa, acusando-os de perseguição.

    Na terça-feira (18), o presidente sugeriu que irá interferir nas investigações sobre o caso. O presidente afirmou ter tomado “providências legais” para que uma “perícia independente��� seja realizada no corpo do ex-policial a fim de esclarecer as circunstâncias da morte. O trabalho de perícia é responsabilidade apenas da polícia da Bahia, estado governado pelo petista Rui Costa.

    Adriano Nóbrega é apontado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro como chefe de um grupo de matadores de aluguel no estado conhecido como Escritório do Crime. Ele é peça-chave nas investigações sobre a expansão das milícias na região e sobre o esquema de “rachadinha” que teria sido operado no gabinete de Flávio Bolsonaro quando o primogênito do presidente era deputado estadual. Flávio empregou a mãe e a ex-esposa de Nóbrega e, segundo as investigações, parte dos salários delas era desviado. O filho do presidente nega irregularidades.

    A ligação entre o ex-policial e a família Bolsonaro ficou evidenciada em 2003, quando Nóbrega foi homenageado na Assembleia Legislativa do Rio, por iniciativa de Flávio, com um moção de louvor por seu “brilhantismo”. Em 2005, o então deputado concedeu a ele a Medalha Tiradentes, maior honraria do Legislativo fluminense. Na época, o ex-capitão estava preso sob acusação de homicídio. Ele deixou a prisão em 2006, após ser inocentado.

    Sua morte ocorreu no município de Esplanada, na Bahia, durante uma operação da Polícia Militar. Foragido havia mais de um ano, ele estava escondido numa fazenda. A polícia cercou o local. Os policiais disseram que Nóbrega se recusou a se entregar e disparou contra eles. Quatro dias após a morte, a revista Veja divulgou fotos do corpo e ouviu peritos que levantam a suspeita de tortura e execução.

    Inicialmente, Bolsonaro e seus filhos se mantiveram em silêncio sobre o caso. Quando as hipóteses sobre possíveis erros da polícia baiana na ação e uma suposta “queima de arquivo” ganharam força, o presidente e sua família mudaram de estratégia e partiram para o ataque a adversários políticos como o PT, o PSOL e o governador do Rio, Wilson Witzel. Eles têm sugerido manipulação das investigações pelos rivais para envolvê-los com os crimes do ex-policial. A seguir, o Nexo lembra como a família Bolsonaro têm reagido ao caso:

    A ‘defesa’ dos direitos humanos

    Para evitar falar sobre o assunto, o presidente Bolsonaro chegou a interromper, entre os dias 10 e 13 de fevereiro, a rotina de dar entrevistas a jornalistas, pela manhã, na porta do Palácio do Alvorada.

    O primeiro a se pronunciar sobre o tema foi Flávio, que escreveu em 12 de fevereiro no Twitter que “pessoas” estavam tentando “acelerar” a cremação de Nóbrega “para sumir com as evidências de que ele foi brutalmente assassinado na Bahia”. “Rogo às autoridades competentes que impeçam isso e elucidem o que de fato houve”, disse.

    Já o presidente só se pronunciou em 15 de fevereiro, depois que a imprensa levantou suspeitas sobre a ação da polícia baiana. Peritos ouvidos pela Veja dizem que as marcas de bala no corpo do ex-policial sugerem que os tiros ocorreram à queima-roupa.

    O advogado que defendia Nóbrega, Paulo Emílio Catta Preta, disse à revista ter recebido um telefonema de seu cliente dias antes em que ele dizia que não adiantava se entregar à polícia porque o queriam morto. A mulher do ex-capitão também disse à Veja, antes da operação na Bahia, que seu marido seria morto como “queima de arquivo”. A reportagem foi publicada em 13 de fevereiro.

    O presidente, que durante toda sua trajetória política defendeu ações da polícia e criticou defensores dos direitos humanos, passou a questionar a operação dos policiais baianos, sugerindo ter havido uma “execução sumário” do ex-capitão. Em 2003, Bolsonaro chegou a defender em discurso na Câmara dos Deputados a atuação de grupos de extermínio.

    Ele também defendeu a presunção de inocência ao dizer que, até a data de sua morte, Nóbrega não possuía nenhuma sentença transitado em julgado (definitiva).

    Bolsonaro afirmou que o governador Rui Costa, responsável pela polícia da Bahia, mantém “fortíssimos laços de amizade com bandidos condenados em segunda instância” e que presta homenagem a eles, em referência ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O petista ficou preso até o final de 2019 após ser condenado em segunda instância no caso do tríplex do Guarujá.

    O presidente associou ainda a morte do ex-policial ao caso de Celso Daniel, prefeito de Santo André assassinado em 2002. Ele era coordenador da campanha de Lula nas eleições presidenciais daquele ano. “É um caso semelhante à queima de arquivo do ex-prefeito Celso Daniel, onde seu partido, o PT, nunca se preocupou em elucidá-lo, muito pelo contrário”, escreveu no Twitter.

    A conspiração contra o PT e a reação dos governadores

    Ao colocar a responsabilidade sobre a morte do ex-policial no governo do PT na Bahia, o presidente acabou desagradando a maioria dos governadores do país, grupo com o qual já estava em atrito. Mesmo antigos apoiadores demonstraram insatisfação com o posicionamento de Bolsonaro.

    O presidente havia desafiado os governadores a zerar a cobrança do ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) dos combustíveis para diminuir o custo do produto aos consumidores. A iniciativa, porém, é vista como inviável por prejudicar as contas do estados.

    Na segunda-feira (17), 20 dos 27 governadores divulgaram uma carta dizendo que as declarações de Bolsonaro no caso do ex-capitão se antecipavam às investigações policiais para “atribuir fatos graves às condutas das polícias e de seus governadores”, o que não contribui para a “evolução da democracia no Brasil”.

    “É preciso observar os limites institucionais com a responsabilidade que nossos mandatos exigem. Equilíbrio, sensatez e diálogo para entendimentos na pauta de interesse do povo é o que a sociedade espera de nós”, dizem os governadores no documento. Eles convidaram o presidente para um encontro.

    A iniciativa foi encabeçada pelos governadores Wilson Witzel, do Rio, e João Doria, de São Paulo, que se tornaram inimigos políticos do presidente por almejar a Presidência. Ambos reclamam de falta de diálogo com o Bolsonaro.

    O descrédito antecipado à perícia nos celulares

    Na terça-feira (18), Bolsonaro voltou a falar da morte de Adriano da Nóbrega ao pedir uma perícia independente no corpo do ex-policial.

    Ele voltou a se queixar de ter seu nome e de sua família associados a criminosos por perseguição política. “O que ele teria para falar? Contra mim é que não era nada. Se fosse contra mim, tenho certeza de que os cuidados seriam outros para preservá-lo vivo”, disse.

    Para Bolsonaro, uma perícia independente também evitaria que plantassem provas contra sua família. No local onde Adriano da Nóbrega foi morto, a polícia encontrou 13 aparelhos celulares e sete chips que podem revelar o modus operandi das milícias às quais o ex-policial era ligado e as relações que ele mantinha com outros criminosos. Os milicianos são os principais suspeitos de mandarem executar, em 2018, a vereadora do PSOL Marielle Franco.

    “Vai ser feita perícia no telefone ou nos telefones que foram apreendidos com ele. Será que essa perícia poderá ser insuspeita? Eu quero uma perícia insuspeita. Por quê? Nós não queremos que sejam inseridos áudios nos telefones dele ou inseridas conversações de WhatsApp. É só isso”, disse o presidente em entrevista a jornalistas na terça-feira (18).

    No mesmo dia, Flávio divulgou um suposto vídeo do corpo de Nóbrega em que diz: “Perícia da Bahia (governo PT), diz não ser possível afirmar se Adriano foi torturado. Foram 7 costelas quebradas, coronhada na cabeça, queimadura com ferro quente no peito, dois tiros a queima-roupa (um na garganta de baixo p/cima e outro no tórax, que perfurou coração e pulmões”. O governo da Bahia afirmou que as imagens não foram feitas nas instalações oficiais do Instituto Médico Legal e que a intenção do filho do presidente ao divulgá-las era apenas de questionar um trabalho ainda não concluído.

    Mais tarde, ele publicou um documento que aparenta ser uma “guia para exame pericial e laboratorial” de Nóbrega. Na imagem, consta a versão da polícia baiana de que o ex-policial reagiu à prisão e foi morto numa troca de tiros. Flávio questiona: “E agora o registro de ocorrência do governo petista da Bahia, genérico e relatando uma suposta troca de tiros. Quem está fraudando os registros? Para esconder o quê? Quem mandou matar Adriano?”.

    Outras conspirações de Bolsonaro

    Não é a primeira vez que Bolsonaro e os filhos dizem ser vítimas de perseguição na tentativa de associá-los a criminosos. Quando a TV Globo divulgou, em 2019, o conteúdo do depoimento de um porteiro do condomínio da família na Barra da Tijuca, no Rio, em que ele diz que o suspeito de participação na morte de Marielle Franco entrou no local dizendo que iria até a casa de Bolsonaro, o presidente acusou o governador Wilson Witzel de vazar a informação para incriminá-lo. O porteiro, posteriormente, declarou ter se enganado.

    Witzel foi aliado de campanha de Flávio e conseguiu se eleger graças à aproximação com a família Bolsonaro. O presidente, porém, desconfia do ex-aliado devido a suas pretensões eleitorais em 2022.

    Bolsonaro também questiona as investigações sobre o atentado à faca que sofreu durante a campanha de 2018. Adélio Bispo dos Santos, responsável pelo crime, foi considerado inimputável por ter transtorno mental. A Polícia Federal concluiu que ele agiu sozinho.

    O presidente ainda hoje questiona o resultado das investigações e o fato de o autor do atentado ter sido, no passado, filiado ao PSOL.

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