Quais os desafios da crise do clima para as cidades brasileiras

Metrópoles como São Paulo e Belo Horizonte pararam no início de 2020 pois não estavam adaptadas para chuvas mais fortes. Cientistas dizem que eventos do tipo devem aumentar, e municípios precisam estar preparados

A cidade de São Paulo viu cair quase tanta chuva entre os dias 9 e 10 de fevereiro do que a metade do esperado para todo o mês. A tempestade, que durou da madrugada até a tarde seguinte, foi a maior para fevereiro em 37 anos, segundo o Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia).

A cidade parou, como aconteceu outras vezes nos últimos anos durante grandes chuvas. Duas das principais vias paulistanas, as marginais Tietê e Pinheiros, ficaram interditadas, por causa do transbordamento dos rios ao redor. A circulação de ônibus e trens foi interrompida em alguns trechos, na capital e região metropolitana.

157 mm

foi quanto choveu em São Paulo entre 9h do dia 9 e 9h do dia 10; a média esperada para o mês inteiro de fevereiro de 2020 era 247,7 mm

Sem estrutura para suportar a tempestade, a cidade registrou 1.043 pontos de alagamento e 193 desmoronamentos no dia 10, segundo o Corpo de Bombeiros. Ao todo, foram 142 desabrigados e 516 desalojados em todo o estado. A cidade de Osasco, que faz divisa com São Paulo, decretou estado de calamidade após deslizamentos em áreas de risco. Até o dia 12, o estado havia registrado seis mortes.

As chuvas de agora, em São Paulo e em cidades como Belo Horizonte, atingida por fortes tempestades em janeiro de 2020, somam-se a uma série de episódios dos últimos anos que mostram que precipitações mais intensas são parte do que se considera o “novo normal” do clima, marcado pelo aumento dos chamados eventos climáticos extremos.

A partir de diversas evidências, a ciência afirma que, no contexto da mudança do clima em curso, os extremos climáticos (ou seja, os eventos mais intensos e atípicos, como grandes chuvas, secas e ondas de calor) tendem a aumentar em frequência, intensidade e duração, colocando em risco lugares e pessoas que antes podiam suportá-los.

Apenas uma tempestade não é prova de que São Paulo sofre os efeitos do aquecimento global. Mas a análise de dados históricos da capital mostra que chuvas mais intensas estão mais recorrentes — um padrão que segue as projeções da ciência do clima. Por volta dos anos 1960, precipitações com mais de 100 mm em 24 horas ocorriam uma vez por década, por exemplo. Agora, são quatro vezes no mesmo período.

Como a crise do clima afeta as cidades

A expressão mudança climática define o conjunto de alterações (como o aumento global das temperaturas, a variação de regimes de chuvas, as mudanças nas massas de ar, entre outras) que têm sido observadas no clima desde meados do século 20 e são atribuídas a atividades humanas que lançam na atmosfera os chamados gases do efeito estufa.

Atividades como a agropecuária, o desmatamento e a queima de combustíveis fósseis, impulsionadas na era industrial, emitem grande quantidade de gás carbônico e outros poluentes. A retenção desses gases afeta a atmosfera e fenômenos naturais como o efeito estufa, que torna o planeta mais quente. Isso resultou no aquecimento global.

Ao causar perturbações nas temperaturas, no regime de chuvas e nos eventos extremos, a mudança do clima tem impacto para cidades no mundo todo, que costumam ser vulneráveis por concentrar grandes grupos populacionais e depender de infraestruturas (energia, transporte, saneamento, drenagem, etc.) sensíveis a alterações climáticas.

Ao mesmo tempo, as cidades estão entre os principais agentes da mudança do clima, pois emitem grande parte dos gases que causam o efeito estufa (por meio de setores como a indústria, a construção civil e os transportes). Nesse contexto, as zonas urbanas enfrentam condições climáticas específicas, como as ilhas de calor e a poluição do ar.

54%

da população global vivia em áreas urbanas em 2014, segundo a ONU (Organização das Nações Unidas)

40%

é a quantidade de gases do efeito estufa emitida pelas cidades no mundo, segundo relatório do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas; emissões vêm de setores como indústria, construção e transporte

Por que as cidades brasileiras são vulneráveis

A relação entre clima e zonas urbanas é tema de estudos recorrentes. No Brasil, ela foi descrita em relatório do PBMC (Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas), grupo de pesquisa vinculado à UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) que equivale à versão nacional ao IPCC, painel global de cientistas que faz parte da ONU.

Além de concentrarem a maior parte da população e emitirem grande quantidade de poluentes, as cidades médias, grandes e as metrópoles brasileiras são vulneráveis às alterações do clima devido a seu processo de urbanização, que é relativamente recente se comparado com o dos chamados países centrais, segundo o estudo do PBMC.

As cidades brasileiras cresceram de forma acelerada e desordenada, com ocupações de áreas de risco, avanço sobre fundos de vales e rios e uma série de modificações no ambiente natural. A expansão urbana produziu bairros com altíssima densidade e uma quantidade pequena de áreas verdes. Além disso, as edificações não obedecem a critérios técnicos e muitas vezes podem correr perigo.

85,7%

da população brasileira vivia em cidades em 2015, segundo a ONU

11.244.369

era o tamanho da população de São Paulo em 2014, segundo o Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas; é a cidade mais populosa do país

A partir desse contexto, o estudo do PBMC analisou as áreas que, no presente e futuro, merecem mais atenção de gestores municipais quando se trata dos impactos da mudança do clima nas zonas urbanas brasileiras. São os ecossistemas, a infraestrutura (que envolve setores integrados, como energia, transporte e água), a saúde e as cidades do litoral. Abaixo, o Nexo resume as principais observações do texto.

As áreas mais afetadas

Infraestrutura

A mudança do clima tem impactos sobre os serviços e infraestruturas urbanas (como o sistema de energia, viário, de transporte, de drenagem, etc). A vulnerabilidade dessa infraestrutura às alterações climáticas varia de acordo com seu grau de desenvolvimento. No Brasil, o cenário deve agravar pressões que já existem sobre as cidades, onde grande parte da população não tem acesso a saneamento, o trânsito é caótico e a segurança energética não é uma certeza. Um evento extremo, como uma grande tempestade, por exemplo, pode ter impacto sobre a distribuição de energia (que afeta casas e estabelecimentos), o transporte (trens e metrôs entram em pane, e os semáforos não funcionam), o sistema de drenagem (que pode não conter grandes alagamentos) e edificações, que podem acabar em deslizamentos.

Ecossistemas

A mudança do clima tem impacto sobre os ecossistemas urbanos e os serviços (benefícios) fornecidos por eles. Esses ecossistemas são as zonas nas cidades onde há cobertura vegetal, ou onde não há áreas construídas — entre eles há áreas florestais e canais de água. Um exemplo de ecossistema que pode ser afetado pela crise do clima são as encostas das serras no Rio de Janeiro, onde há remanescentes de vegetação. Alterações climáticas que desfavorecem o desenvolvimento da flora nessas áreas podem levar a deslizamentos de terra, potencializando a perda de habitats locais. Outro exemplo envolve ecossistemas nas zonas costeiras, que podem ficar mais vulneráveis por causa da erosão e de inundações. Após eventos como esses, a perda de áreas verdes pode reduzir a resiliência das cidades brasileiras.

Saúde

A OMS (Organização Mundial da Saúde) diz que a mudança do clima está entre os maiores riscos à saúde no século 21. Impactos do fenômeno, como ondas de calor, ciclones e tempestades, têm efeito direto sobre a fisiologia do corpo humano, causam traumas físicos ou, pior, provocam mortes (por afogamentos e soterramentos, por exemplo). A mudança climática também traz efeitos indiretos, ao afetar elementos fundamentais para a saúde (água, ar, alimentos) e o ciclo de vida de insetos, favorecendo a dispersão de agentes infecciosos. As cidades são vulneráveis nesse ponto. Por causa das superfícies de concreto, por exemplo, elas retêm mais calor que as áreas não urbanas. A poluição do ar também é maior, por causa da concentração de emissões de poluentes na atmosfera, vindas das indústrias e dos transportes.

Zonas costeiras

A costa brasileira tem mais de 8.500 km. Abrange 17 estados, cerca de 400 municípios e 22,96% da população do país. Por atraírem pessoas e indústrias e, ao mesmo tempo, serem alvo de intensos eventos naturais, essas áreas devem ser as mais afetadas pela mudança do clima, segundo o PBMC. Entre as ameaças previstas, estão a elevação do nível do mar, os extremos climáticos e a variação no clima de ondas e ventos. Eles podem levar a consequências como a erosão, alagamentos, problemas de drenagem, intrusão salina (por causa da invasão do mar) e prejuízos para serviços voltados à população, como saneamento, transporte e saúde. No limite, o aumento do nível do mar pode ainda inviabilizar a habitação em alguns locais.

O que pode ser feito para evitar mais desastres

A ciência do clima costuma apontar que as sociedades podem investir em dois tipos de estratégia para combater os efeitos negativos da mudança climática. A primeira é a chamada mitigação (ou seja, a redução de emissões de poluentes). A segunda se chama adaptação.

Ambas podem ser empregadas nas cidades, inclusive nas brasileiras. A publicação do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas sugere, para a redução de poluentes nas zonas urbanas, o uso de tecnologias eficientes na área de energia, a instalação de um sistema de transporte mais sustentável e o incentivo a novos padrões de consumo (que reduzam o consumo de energia, por exemplo).

A adaptação, por outro lado, inclui adotar medidas para ajustar a infraestrutura das cidades ao “novo clima” projetado por cientistas. As zonas urbanas, especialmente as mais vulneráveis, como no Brasil, devem ser mais resilientes a desastres como ondas de calor e chuvas extremas, de forma a proteger a população, segundo o PBMC.

Entre as medidas de adaptação possíveis, estão o reforço da infraestrutura de energia, a adequação de estruturas das cidades (como pontes e estradas), o realinhamento de vias (para que elas saiam de áreas vulneráveis, por exemplo), a criação de espaços verdes e de planos de emergência para eventos extremos. A maioria das sugestões tem custos, diz o relatório, mas não agir deve custar mais caro.

de todo o mundo deve viver em cidades em 2050, segundo a ONU

Ao mesmo tempo em que contribuem para a mudança do clima, as cidades têm uma capacidade única de enfrentá-la, segundo a publicação do PBMC. Isso porque as zonas urbanas são centros de riqueza e inovação, com ferramentas e recursos com os quais é possível investir em soluções. Além disso, elas têm forte influência sobre políticas como as de planejamento e transporte urbano.

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