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Como a Antártida atingiu 20ºC. E por que seu clima importa

Ilha Seymour, região polar a pouco mais de 1.000 km da Argentina, registrou a maior temperatura da história do continente. Média na região aumentou 3ºC desde a era pré-industrial

Cientistas brasileiros registraram no domingo (9) a maior temperatura na história da Ilha Seymour, na Antártida, a 1.100 km da Argentina: 20,75ºC. O recorde do local até então era do ano de 1982, quando a temperatura havia chegado aos 19,8ºC. Três dias antes foi a vez da Antártida continental registrar sua mais alta temperatura da história: 18,3ºC.

Ambos os valores precisam ainda ser confirmados pela Organização Meteorológica Mundial, mas já despertam alerta quanto à instabilidade climática no maior repositório de gelo do mundo. Isso porque acompanham uma tendência de aquecimento que, desde a era pré-industrial, representou um aumento de 3ºC na temperatura do local — a taxa é uma das mais intensas do planeta, que, em média, aqueceu cerca de 1ºC no mesmo período.

De acordo com Carlos Schaefer, pesquisador do Terrantar, programa brasileiro que monitora o impacto da crise climática nos solos e na biologia da Antártida, a temperatura no continente gelado diminuiu no começo dos anos 2000, mas cresceu rapidamente na segunda década do século 21.

“É importante ter áreas em monitoramento como as Shetlands do Sul (região do arquipélago de ilhas) e a Península Antártica, porque elas antecipam o que acontecerá com o resto do continente no futuro próximo”

Carlos Schaefer

pesquisador do Terrantar, que monitora o impacto da crise climática nos solos e biologia da Antártida

Cientistas das Nações Unidas calculam que o nível do mar subirá de 30 cm a 110 cm até o fim deste século diante do cenário de aquecimento global e seu impacto sobre as camadas de gelo.

Embora a região central e leste da Antártida se mantenham relativamente estáveis, a maior preocupação é com a porção oeste do continente, onde as geleiras Thwaites e Pine Island perderam cerca de 30 cm de camada de gelo entre 1992 e 2017.

Em 7 de janeiro de 2020, o maior iceberg do mundo, do tamanho do Distrito Federal, entrou em rota para o mar aberto, segundo observações de satélite. Ele também estava localizado na região oeste do continente, na chamada Península Antártica.

Qual a explicação para o aquecimento

A alta inédita da temperatura e o derretimento de gelo nesta época na Antártida têm sido apontadas por cientistas como consequência do El Niño, evento climático natural que acontece anualmente no Oceano Pacífico e distribui umidade e calor em várias partes do globo por meio do aquecimento da água do mar.

O fenômeno climático tem dois efeitos na Antártida, segundo estudos. O primeiro é o aumento da deposição de neve sobre as plataformas de gelo, que acontece por conta do maior transporte de umidade pelos ventos que chegam ao continente gelado, disse o oceanógrafo Fernando Paolo em entrevista de 2018 à Revista Fapesp.

O segundo, como consequência da mudança no padrão de ventos, é o efeito de subida de águas profundas e mais quentes para a superfície, penetrando as plataformas de gelo por baixo e acelerando o derretimento delas. Quanto mais intenso o El Niño, mais forte são os dois efeitos.

“O derretimento pelo oceano remove mais gelo do que a deposição de neve adiciona”, disse Paolo à Revista Fapesp. No saldo final, a plataforma perde massa, e cada vez mais gelo é despejado ao oceano. Ao mesmo tempo, o El Niño favorece o aumento das temperaturas.

2,7 trilhões

de toneladas é a quantidade de gelo que a Antártida perdeu anualmente de 1992 a 2017, segundo estudo de 2018 publicado na revista Nature; ritmo de derretimento está mais acelerado hoje que durante o século 20

A alta das temperaturas acontece no contexto da mudança climática. Apesar de eventos isolados, como os de agora, não poderem ser imediatamente atribuídos ao aquecimento global, os acontecimentos recentes são compatíveis com projeções, feitas há anos por cientistas, de que o aumento das emissões de gases do efeito estufa poderiam aumentar as temperaturas e derreter geleiras nas regiões dos polos.

A ciência também afirma que a mudança climática deve intensificar fenômenos como o El Niño, que é sensível à alta das temperaturas no planeta. Para Fernando Paolo, esse é um motivo para acompanhar o comportamento das plataformas de gelo na Antártida no futuro.

A crise do clima

Causas

A mudança climática começa com atividades como a queima de combustíveis fósseis, a agropecuária, o descarte de lixo e o desmatamento, que emitem grande quantidade de gases que acarretam no efeito estufa, fenômeno que torna o planeta mais quente. Entre as emissões de gases, destacam-se as de metano, óxido nitroso e gás carbônico (CO₂), que representa mais de 70% dos lançamentos. São poluidores os setores de energia, transportes e alimentos, entre outros.

Efeitos

A emissão de gases poluentes formadores do efeito estufa pelas atividades humanas, intensificadas após a era industrial, tem causado o fenômeno que se chama de aquecimento global. Suas consequências mais visíveis têm sido o aumento das temperaturas do ar e da água, o derretimento de calotas polares e a elevação do nível de mares e oceanos. A expressão “mudança climática” é um sinônimo abrangente de aquecimento global, que engloba outras reações do clima à poluição.

1ºC

foi quanto a temperatura média do planeta aumentou em relação ao período pré-industrial, antes do século 19

Previsões

Em 2018, um estudo do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) da ONU disse que a temperatura mundial pode aumentar 0,5ºC em uma década se as emissões de CO₂ não tiverem cortes imediatos. Outras projeções do clima mostram que o aquecimento pode chegar até 6ºC até 2100 se o ritmo da economia continuar o mesmo. As consequências da crise do clima devem se sentir nas próximas décadas, e, se o aumento das temperaturas se concretizar, o quadro de grandes tempestades, incêndios florestais, escassez de alimentos, inundações e secas severas deve piorar.

Qual o impacto da Antártida sobre o clima global

A Antártida tem papel fundamental na regulação do clima global, interferindo em correntes marítimas e massas de ar que atuam nos trópicos. As dinâmicas do sistema climático terrestre dependem da transferência de energia (calor, gases, umidade) dos trópicos para as regiões polares. “Os processos que lá ocorrem nos afetam e vice-versa”, disse o glaciólogo Jefferson Simões à BBC Brasil.

Um dos principais cientistas brasileiros que pesquisam a Antártida, Simões diz que o continente é tão importante para o globo quanto a Amazônia, por exemplo. A atuação do Polo Sul sobre o ar e os oceanos interfere nas temperaturas e no regime de chuvas global, contribuindo para o desempenho agrícola de outros países, incluindo o Brasil.

Alterações no ambiente antártico, portanto, devem ter impacto sobre o clima em todo o planeta. A principal consequência do derretimento das geleiras nos polos, por exemplo, é o aumento do nível do mar. Além disso, o degelo altera as temperaturas e a salinidade (a quantidade de sal) dos oceanos, afetando as dinâmicas das correntes marítimas.

A Antártida também é um continente importante para estudos sobre o futuro climático do planeta. Isso porque a região foi quase intocada pela ação humana, e o solo local (feito de camadas de gelo acumuladas há eras) guardam informações sobre a história climática que não se encontram em outro lugar.

“Fazer pesquisa nesses lugares onde a influência humana é mínima nos ajuda a determinar mudanças climáticas possíveis de modo muito mais fácil. Sempre dizemos que os polos amplificam todos os fenômenos que vemos em todos os outros lugares do planeta”

Ana Beatriz Oaquim

oceanógrafa brasileira que faz pesquisa na Antártida, em entrevista de 2018 sobre a mudança climática no continente para o site EuroNews

A Antártida é também o maior repositório de água doce do mundo e o lar de diversas espécies de animais endêmicas (que só existem ali). Algumas dessas espécies já sentem o impacto das alterações climáticas locais. Os krills, por exemplo, são crustáceos que se alimentam de algas que crescem sob o gelo. Quando o gelo se reduz, diminui também a oferta de alimento. As colônias de pinguins, por sua vez, diminuíram quase 77% nos últimos 50 anos, segundo estudos sobre o continente.

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