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Tensão e distensão: o jogo diplomático entre Brasil e Argentina

Depois de críticas ao país vizinho, Bolsonaro acerta agenda comum e inicia diálogo. Especialistas veem populismo na política externa

O presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, anunciou que pretende se reunir pela primeira vez com o presidente da Argentina, Alberto Fernández. O encontro deve ocorrer no dia 1º de março em Montevidéu, durante a posse do presidente do Uruguai, Lacalle Pou, ainda que Fernández tenha deixado incerta a escolha da data.

O anúncio marca uma mudança. Até então, o presidente brasileiro mantinha distância de Fernández. Em outubro de 2019, quando o argentino foi eleito presidente, Bolsonaro disse que o novo governo poderia “colocar em risco todo o Mercosul”.

Antes, ainda durante a campanha eleitoral no país vizinho, Bolsonaro afirmou que, se Fernández vencesse, transformaria a Argentina numa “outra Venezuela”, em referência à crise política, econômica e humanitária que trava o país caribenho.

O motivo do distanciamento é ideológico: o governo de Fernández é de esquerda. O de Bolsonaro, de extrema direita. Na fala do presidente brasileiro, essa diferença recebe mais atenção do que os fatores que unem Brasil e Argentina – países limítrofes, cujo comércio bilateral chegou em 2018 a US$ 26 bilhões.

“A Argentina é um dos principais parceiros políticos e econômicos do Brasil. As relações bilaterais são estratégicas para a inserção do Brasil na região e no mundo. A construção de uma relação política de confiança e cooperação com a Argentina contribui para a constituição de um espaço regional de paz e de cooperação”

Ministério das Relações Exteriores do Brasil

Em capítulo do site do Itamaraty dedicado à relação entre os dois países

Fernández tem como vice a ex-presidente Cristina Kirchner, que presidiu a Argentina de 2007 a 2015. Antes, o marido dela, Néstor Kirchner, havia governado de 2003 a 2007. Esses 12 anos correspondem a um período de governo de esquerda apelidado de “kirchnerismo” na Argentina, que coincidiu com o mandato do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2011) no Brasil.

No dia da eleição argentina, em 2019, Fernández publicou uma foto em sua conta no Twitter na qual fazia o gesto de um “L”, com a mão, em alusão ao lema “Lula Livre” – durante a corrida eleitoral, ele já havia visitado o petista, que estava preso em Curitiba. Fernández também é um principais nomes do Grupo de Puebla, coletivo informal de personalidades da esquerda latino-americana que tem no petista uma das principais referências. Um dia depois de sair da prisão, em novembro de 2019, o ex-presidente gravou uma mensagem para um encontro do grupo em Buenos Aires.

No exemplo mais recente da proximidade entre os dois líderes, nesta quinta-feira (13), o presidente argentino intermediou o encontro de Lula com o papa Francisco no Vaticano. Como Lula é o maior antagonista de Bolsonaro no Brasil, as conexões argentinas do ex-presidente brasileiro são, por tabela, condenadas.

A tensão ideológica envolvida nesse jogo mantém mobilizadas as bases políticas dos dois lados da fronteira. Na Argentina, o governo Fernández deu refúgio ao ex-presidente boliviano Evo Morales depois que ele renunciou em novembro de 2019, ameaçado de um golpe militar. O gesto de Fernández reeditou parte das conexões bolivarianas que haviam sido desfeitas pelo governo do antecessor, Mauricio Macri, e nutriu uma retórica de esquerda que vivia em refluxo até então.

Do lado brasileiro, o discurso voltado genericamente contra a “ameaça “comunista” e o “esquerdismo” tornou-se padrão desde a campanha eleitoral de 2018, quando Bolsonaro recuperou elementos da Guerra Fria e da ditadura brasileira (1964-1985), construindo uma conexão direta e sem escalas entre as diversas vertentes da esquerda democrática atual e o comunismo do passado.

A diplomacia como ponte do diálogo

A distensão entre os atuais governos do Brasil e da Argentina começou a ocorrer não por meio dos presidentes, mas de seus ministros das Relações Exteriores e demais funcionários da chancelaria.

Os governos de ambos países sabem que não podem prescindir um do outro. A interdependência – não apenas econômica, mas também política, além de histórica e cultura – é uma realidade, e embora os discursos eleitorais tenham exacerbado o afastamento, diplomatas dos dois lados trabalharam para reaproximá-los.

O ministro das Relações Exteriores da Argentina, Felipe Solá, foi recebido em Brasília na quarta-feira (12) pelo chanceler brasileiro, Ernesto Araújo.

Solá levou a Brasília a informação de que o governo argentino vai se empenhar pela aprovação do acordo de comércio entre a União Europeia e o Mercosul, o que teria agradado Bolsonaro – mesmo com a dificuldade crescente de que esse acordo venha a ser aprovado por parlamentos de países como a França, país contra a qual o presidente brasileiro move uma campanha retórica insistente.

À Argentina interessam os contatos internacionais que possam ajudar o país a sair da crise. Antes de mandar seu chanceler ao Brasil, Fernández fez um giro por países da Europa. Na França, não escondeu que viajava para prospectar investimentos e confiança. “Preciso de tempo para reconstruir a economia argentina”, disse ao francês Le Monde, jornal que explicou a seus leitores que o país sul-americano tem uma “dívida colossal” de US$ 311 bilhões, o que equivale a 91% do PIB do país.

O ‘populismo diplomático’ do Brasil

O Nexo consultou dois especialistas em relações internacionais para avaliar as tensões e distensões que marcam Brasil e Argentina neste momento, e, principalmente, o uso exacerbado de discursos ideológicos para pautar a diplomacia.

Guilherme Casarões, doutor em ciência política e professor de relações internacionais na Fundação Getulio Vargas de São Paulo, vem trabalhando sobre a ideia de que existe no Brasil um “populismo diplomático”, definido por ele como “o recurso à política externa para mobilizar uma parcela da população para fins políticos e, sobretudo, eleitorais”.

Ele acredita que o que esteja ocorrendo agora, passado um ano do início do governo Bolsonaro, é um “choque entre o necessário pragmatismo da diplomacia profissional e de setores econômicos, de um lado, e os impulsos ideológicos, por vezes conspiratórios, dos tomadores de decisão do governo, por outro lado”.

Outro pesquisador consultado pelo Nexo, Dawison Belém Lopes, doutor em ciência política e diretor-adjunto de relações internacionais da Universidade Federal de Minas Gerais, diz que “é possível que, a despeito da exótica liderança de Ernesto Araújo, em algum momento futuro, o Ministério das Relações Exteriores retorne ao seu leito tradicional. Especialmente quando os temas não forem captados pelo radar de Jair Bolsonaro. Nesses casos, uma condução em conformidade com os protocolos e convenções poderá acontecer”.

Ambos apontam o mandato de Michel Temer (2016-2018) como o início do que chamam de “populismo diplomático”, que se manteve com José Serra e Aloysio Nunes à frente da chancelaria, com ligeiras mudanças.

“A Venezuela, em particular, foi alvo de uma série de diatribes dos chanceleres tucanos. Nota-se, porém, que Aloysio terminou a sua gestão, em 2018, mais comedido e alinhado à burocracia diplomática. A curva normalizou-se”, disse Lopes.

“No início do governo Temer [2016], o chanceler José Serra, de olho nas eleições presidenciais [de 2018], subiu o tom das críticas à Venezuela e às linhas de inserção do PT. Num país marcado por forte tradição diplomática, sempre resguardada pela pesada burocracia do Itamaraty, a gestão Serra representou uma ruptura – mais tarde corrigida pelas mãos do centrado Aloysio Nunes”, diz Casarões.

De acordo com Casarões, “Bolsonaro percebeu esse momento antes de qualquer outro candidato e começou a se movimentar no tabuleiro internacional em 2016, quando viajou para Israel e foi batizado nas águas do Jordão. Até sua eleição, ele visitou os EUA, tentando colar sua imagem à de Trump e aproveitando para bajular o escritor Olavo de Carvalho. Visitou também a Ásia, causando desconforto com o governo chinês após polêmica visita a Taiwan”.

“De início, a retórica inflamada parecia meramente um artifício eleitoral. Afinal, nenhum presidente poderia bancar promessas como mudar a embaixada do Brasil para Jerusalém, hostilizar abertamente a Venezuela, alinhar-se incondicionalmente a Trump ou ameaçar retirar o Brasil da ONU. Mas o populismo diplomático tornou-se peça fundamental para a governabilidade do presidente. Peça central da guerra cultural travada pelo séquito olavista do governo, a política externa mobiliza a base mais radical e ajuda a construir a narrativa de uma nova identidade brasileira – cristã e conservadora”, disse Casarões.

João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

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