Como se dá a transmissão de vírus de animais para pessoas

Estudos apontam que o pangolim seria o intermediário na infecção do coronavírus e o morcego, o hospedeiro original. Mais da metade das doenças que afetam a humanidade foi transmitida por bichos

Novos estudos sugerem que os pangolins, espécie de tamanduás escamados, podem ser os transmissores intermediários do novo coronavírus aos humanos. A doença, batizada de covid-19, teve as primeiras contaminações detectadas em pessoas do mercado de Wuhan, na China, epicentro do surto.

Pesquisadores da Universidade Agrícola do Sul da China encontraram um vírus em pangolins cujo sequenciamento genético é 99% idêntico ao do coronavírus atual, que até o dia 11 de março havia matado 4.539 pessoas e contaminado mais de 122 mil.

A suspeita principal é de que o vírus, originalmente, estava hospedado em morcegos e depois chegou aos pangolins. Ao longo desse processo teria havido uma série de mutações que permitiram que ele pudesse infectar humanos.

A comunidade científica ainda é cuidadosa ao fazer a relação, mas relatórios publicados por cientistas chineses já em outubro de 2019 revelavam que pangolins poderiam hospedar variedades de coronavírus dentro de si. Na ocasião, também foi constatado que esses mamíferos podiam ser vítimas fatais da doença.

“É preciso encontrar pessoas saudáveis que lidaram com pangolins ou qualquer outro animal. E ver se depois de manipulá-los elas adoeceram pelo mesmo vírus presente no animal que manuseavam

Jonathan Epstein

veterinário e epidemiologista da EcoHealth Alliance, envolvido no rastreamento da fonte animal do surto de Sars (Síndrome Respiratória Aguda Grave), em 2003, da mesma família do coronavírus

Os pangolins são protegidos por lei devido ao alto índice de tráfico ilegal para consumo de carne e escamas, além de uso na medicina.

Na China, pessoas pegas vendendo o animal podem ser sentenciadas a mais de dez anos de prisão. No mercado de Wuhan, há suspeita de que haja o comércio ilegal da espécie.

Como é a transmissão das zoonoses

As doenças transmitidas de animais para humanos, ou vice-versa, são chamadas de zoonoses. Um dos casos mais famosos é a peste bubônica, no século 14, transmitida pelos ratos.

De acordo com o epidemiologista Jonathan Epstein, o que se conhece é apenas uma pequena parcela dos vírus que existem na natureza. Muitos deles são descobertos quando uma nova zoonose é detectada. Ao todo, cerca de três quartos das novas doenças (ou doenças conhecidas que ressurgem em novas formas), sejam elas virais ou bacterianas, foram transmitidas por animais.

61%

dos agentes infecciosos dos humanos hoje conhecidos estavam hospedados antes em animais

Uma zoonose pode ser transmitida, entre outras maneiras, por mordidas e arranhões, contaminação de comida e água, além de contato com fezes e carcaças. Outra forma comum de transmissão acontece durante o abate de animais.

A transmissão pode ocorrer diretamente do hospedeiro. E há casos com animais intermediários, como suspeitam os cientistas chineses que estudam a covid-19.

A contaminação do novo coronavírus, seja de animal para humanos, seja entre humanos, ocorre por gotículas respiratórias ou saliva, espalhadas pelo contato próximo.

Por que morcegos carregam tantas zoonoses

Depois dos roedores, os morcegos são o segundo mamífero mais comum do planeta, correspondendo a 20% da classe animal. São cerca de 1.300 espécies que podem viver até 40 anos. O que os torna um dos principais hospedeiros do mundo é seu sistema imunológico resistente, capaz de cultivar inúmeros vírus.

Segundo um estudo da Universidade da Califórnia em Berkeley, o morcego, como único mamífero voador, precisa manter sua temperatura corporal e sua taxa metabólica sempre alta, o que o coloca em um estado constante de “febre”, com um sistema imunológico sempre ativo.

Incapazes de penetrar as células, os vírus respondem se replicando mais rápido e, por consequência, quando são transmitidos a outros mamíferos com sistemas imunológicos comuns, se tornam bem mais destrutivos.

Dos últimos grandes surtos infecciosos, estudos apontam que os morcegos foram hospedeiros do ebola, em 2019, e de dois outros coronavírus, o Sars (Síndrome respiratória aguda grave), em 2002, e o Mers (Síndrome Respiratória do Oriente Médio), em 2012.

Por que é importante descobrir o hospedeiro

Ainda que seja o hospedeiro da doença, os morcegos não devem ser demonizados, explica o epidemiologista Jonathan Epstein. Tal como os macacos durante o surto de febre amarela no Brasil, eles são importantes para biodiversidade, polinização, controle de vetores, entre outros fatores. Segundo ele, é preciso entender por que e como esses vírus chegam até as pessoas, e mudar comportamentos ou hábitos.

Para isso, é preciso saber em que parte do animal o vírus foi encontrado — por meio de amostras de sangue ou análises intestinais, por exemplo. Isso para evitar atividades que possam entrar em contato com a área infectada dos animais.

Uma vez estabelecidas as práticas profiláticas, conhecer o processo de mutação do v��rus é essencial para o desenvolvimento de uma vacina: ou seja, a forma original enquanto esteve no hospedeiro primário, como ele se alterou no intermediário e como enfim se estabeleceu no corpo humano. Com isso, os cientistas podem rastrear possíveis caminhos para o qual o vírus pode vir a se modificar dentro do homem, e desenvolver vacinas mais eficazes que considerem essas variações.

No caminho contrário, o que é chamado de “zoonose reversa”, as pessoas também podem transmitir doenças aos animais. No caso dos morcegos, a síndrome do nariz branco é uma infecção fúngica. Ainda que inofensiva aos humanos, os esporos do fungo podem ser carregados de uma caverna a outra pelos calçados e calças dos visitantes.

Essa troca de agentes infecciosos é constante na natureza. No entanto, de acordo com Stuart Neil, chefe de virologia do King’s College de Londres, provavelmente o homem é exposto a diversos vírus que nunca se transformarão em epidemias. Como cada espécie tem os próprios mecanismos de defesa, algo fatal para uma espécie pode viver em perfeita harmonia com outra.

Exemplos de zoonoses

EBOLA

A última epidemia do vírus ocorreu de 2013 a 2016, e matou 11,3 mil pessoas na África, especialmente na Libéria, Serra Leoa e Guiné. Com uma taxa de fatalidade de 50%, acredita-se que o hospedeiro primário do ebola tenha sido o morcego de fruta. A partir dele, chimpanzés, gorilas, macacos, antílopes e porcos-espinhos foram contaminados, e através do contato com sangue, secreção, órgãos e outros fluidos corporais desses animais, o homem também contraiu a doença.

HIV

O vírus presente em quase 38 milhões de pessoas no mundo tem sua mais provável origem no vírus da imunodeficiência símia (SIV) presente em chimpanzés. Acredita-se que o homem tenha sido contaminado pela carne dos animais, que eram caçados para servir de alimento na África. No corpo humano, o vírus sofreu mutações e, de pouco em pouco, se espalhou pelo mundo, sendo descoberto apenas em 1983, quando ganhou o nome de vírus da imunodeficiência humana (HIV). Já a relação com o primata só seria feita 15 anos depois, em 1999.

SARAMPO

Presente em todos os continentes do mundo, o sarampo infecta de 20 milhões a 30 milhões de pessoas e mata cerca de 1 milhão anualmente. Ainda que estabelecida nas populações humanas há dezenas de milhares de anos, acredita-se que o vírus tenha se originado na peste bovina e chegado ao homem pela criação de gado. Para as populações de chimpanzés e gorilas, o sarampo é fatal e impõe riscos à preservação dos primatas. Para visitar esses animais em alguns passeios ecoturísticos, é preciso comprovar que a carteira de vacinação está em dia.

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