A incontinência verbal de Paulo Guedes em 5 momentos

Ao justificar câmbio alto, ministro da Economia diz que época de dólar barato era marcada por ‘empregada indo para a Disneylândia’ . Ele já deu declarações que causaram reação em outras ocasiões

    O ministro da Economia, Paulo Guedes, afirmou na quarta-feira (12) que o dólar alto é bom “para todo mundo”, referindo-se à nova realidade do câmbio no país. A moeda americana atingiu naquele dia seu novo recorde nominal, R$ 4,35.

    Não tem negócio de câmbio a R$ 1,80. Todo mundo indo para a Disneylândia, empregada doméstica indo para a Disneylândia, uma festa danada. Pera aí. Vai passear ali em Foz do Iguaçu, vai passear ali no Nordeste, está cheio de praia bonita. Vai para Cachoeiro de Itapemirim, vai conhecer onde o Roberto Carlos nasceu, vai passear no Brasil, vai conhecer o Brasil. Está cheio de coisa bonita para ver

    Paulo Guedes

    ministro da Economia, em evento no Rio de Janeiro em 12 de fevereiro de 2020

    Ao se dar conta que a declaração teria repercussão negativa, Guedes imediatamente tentou minimizar o impacto da própria fala. “Antes que digam: ‘ministro diz que empregada doméstica estava indo para a Disneylândia’. Não, o ministro está dizendo que o câmbio estava tão barato que todo mundo está indo para a Disneylândia, até as classes sociais mais baixas”, afirmou.

    “Todo mundo tem que ir para a Disneylândia conhecer um dia, mas não três, quatro vezes por ano. Porque com dólar a R$ 1,80 tinha gente indo quatro vezes por ano. Vai três vezes para Foz do Iguaçu, Chapada Diamantina, conhece um pouquinho do Brasil, vai ver a selva amazônica. E, na quarta vez, você vai para a Disneylândia, em vez de ir quatro vezes ao ano”, concluiu.

    A declaração de Guedes reverberou negativamente porque remete a um debate instalado no Brasil desde os anos 2000. Aquele foi um período de crescimento econômico e da ascensão do que se convencionou chamar de “nova classe média”, que passou a consumir mais, viajar mais, frequentar aeroportos.

    Menções a esse discurso são recorrentemente capitalizadas por Luiz Inácio Lula da Silva, presidente do país pelo PT entre 2003 e 2010 e principal nome da oposição. Desde que deixou a prisão, em novembro de 2019, Lula tem sustentado que a pauta econômica, personalizada em Guedes no governo atual, deve ser o principal eixo de embate com o presidente Jair Bolsonaro.

    Apesar de defender o turismo dentro do Brasil, Guedes passou parte de suas últimas férias em Miami, na Flórida, estado americano que abriga o Walt Disney World Resort.

    Outras declarações de Paulo Guedes

    Esta não foi a primeira vez que Paulo Guedes deu declarações irresponsáveis. O Nexo recupera outras situações em que o ministro da Economia esteve sob os holofotes por conta da sua personalidade verborrágica.

    ‘O cara virou um parasita’

    No dia 7 de fevereiro, Guedes comparou servidores públicos a parasitas durante uma palestra na Fundação Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro.

    O governo está quebrado. Gasta 90% da receita toda com salário e é obrigado a dar aumento de salário. O funcionalismo teve aumento de 50% acima da inflação, tem estabilidade de emprego, tem aposentadoria generosa, tem tudo, o hospedeiro está morrendo, o cara virou um parasita, o dinheiro não chega no povo e ele quer aumento automático, não dá mais

    Paulo Guedes

    ministro da Economia, em palestra no Rio de Janeiro no dia 7 de fevereiro de 2020

    Após a divulgação da fala, Guedes afirmou que a imprensa tirou a frase de contexto e disse que “reconhece a qualidade dos servidores públicos”.

    Na terça-feira (11), o Fórum Nacional Permanente de Carreiras Típicas de Estado denunciou Guedes na Comissão de Ética da Presidência da República, pedindo investigação sobre uma possível violação do Código de Conduta da Alta Administração Federal e do Código de Ética Profissional do Servidor Público Civil do Poder Executivo Federal.

    ‘As pessoas destroem o meio ambiente porque precisam comer’

    Durante o Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, realizado em janeiro de 2020, Guedes afirmou que “o pior inimigo do meio ambiente é a pobreza” – a questão ambiental foi um dos principais temas do evento.

    O pior inimigo do meio ambiente é a pobreza. As pessoas destroem o meio ambiente porque precisam comer. Eles [pessoas pobres] têm todas as preocupações que não são as preocupações das pessoas que já destruíram suas florestas, que já lutaram suas minorias étnicas, essas coisas... É um problema muito complexo, não há uma solução simples

    Paulo Guedes

    ministro da Economia, no Fórum Econômico Mundial de 2020 em Davos, Suíça

    O povo quer ter as indústrias e os empregos. E ao mesmo tempo há uma pressão enorme para manter ‘verde’. É um equilíbrio delicado, mas estou certo de que vamos conseguir, acrescentou.

    Após a fala de Guedes, o Greenpeace, ONG de preservação ambiental, se posicionou contra a fala do ministro.

    “Pobres não são responsáveis, são vítimas. Eles sofrem mais os impactos da destruição dos rios, das florestas e dos ecossistemas. São eles os mais vulneráveis a furacões, tornados, enchentes e secas, que aumentam [com a destruição do meio ambiente]”, disse ao UOL Luiza Lima, da campanha de políticas públicas da ONG.

    A WWF, outra ONG relacionada à preservação ambiental, disse que a fala de Guedes é equivocada.

    “No caso do Brasil, não é verdade que se está desmatando para comer. Aqui, o que acontece há séculos, e aumentou consideravelmente nesse último, decorre da apropriação de grandes fazendas. Grande parte [do desmatamento] é para especulação imobiliária. Quando se tem produção de alimentos, é em larga escala, e não é para a mesa do brasileiro”, afirmou ao UOL Raul Valle, diretor de justiça socioambiental da organização.

    ‘Não se assustem se alguém pedir o AI-5’

    Em 25 de novembro de 2019, na reta final do seu primeiro ano como ministro, Guedes fez uma referência ao AI-5 durante uma entrevista nos EUA.

    Naquele período, diversos países da América Latina estavam em um período marcado por protestos civis. Durante a coletiva, Guedes disse para as pessoas não se assustarem caso algo similar a um AI-5 ocorresse no Brasil.

    É irresponsável chamar alguém pra rua agora pra fazer quebradeira. Pra dizer que tem que tomar o poder. Se você acredita numa democracia, quem acredita numa democracia espera vencer e ser eleito. Não chama ninguém pra quebrar nada na rua. Ou democracia é só quando o seu lado ganha? Quando o outro lado ganha, com 10 meses você já chama todo mundo pra quebrar a rua? Que responsabilidade é essa? Não se assustem então se alguém pedir o AI-5. Já não aconteceu uma vez? Ou foi diferente?

    Paulo Guedes

    ministro da Economia durante coletiva de imprensa nos EUA em 25 de novembro de 2019

    O Ato Institucional nº 5 foi editado em 13 de dezembro de 1968 e marcou o início do período de maior repressão na ditadura militar. O decreto autorizava o presidente, à época o general Artur da Costa e Silva, a determinar o recesso do Congresso Nacional por tempo indeterminado, intervir nos estados e municípios, cassar mandatos parlamentares, suspender a garantia de habeas corpus e suspender os direitos políticos de qualquer cidadão.

    Os pobres consomem tudo

    Numa entrevista à Folha de S.Paulo publicada em novembro de 2019, Guedes disse que “os pobres consomem tudo” – segundo o IBGE, metade dos brasileiros vive com R$ 413 mensais.

    Um menino, desde cedo, sabe que ele é um ser de responsabilidade quando tem de poupar. Os ricos capitalizam seus recursos. Os pobres consomem tudo

    Paulo Guedes

    ministro da Economia, em entrevista à Folha de S.Paulo em 3 de novembro de 2019

    Ela é feia mesmo’

    Em setembro de 2019, Guedes fez um comentário machista direcionado à primeira-dama da França, Brigitte Macron.

    O Macron falou que estão colocando fogo na Amazônia. O presidente [Bolsonaro] devolveu, falou que a mulher do Macron é feia. O presidente falou a verdade, ela é feia mesmo. Mas não existe mulher feia, existe mulher observada do ângulo errado. E fica essa xingação

    Paulo Guedes

    ministro da Economia, em evento realizado em Fortaleza em setembro de 2019

    À época, o presidente francês era protagonista de uma crise internacional enfrentada pelo governo Bolsonaro por causa da série de queimadas na Amazônia entre agosto e setembro.

    “Foi uma grosseria indesculpável”, disse Guedes, ao se desculpar pela frase. Apesar disso, a fala repercutiu internacionalmente.

    Estamos em 2019 e dirigentes políticos têm como alvo o físico de uma mulher também ativa politicamente. Vocês acreditam que isso existe ainda? Ah, sim”, disse Tiphaine Auzière, filha de Brigitte Macron, respondendo a Guedes.

    A declaração de Bolsonaro mencionada por Guedes foi postada no Facebook. Um seguidor do presidente fez um comentário depreciando a aparência de Brigitte Macron, comparando-a com Michelle Bolsonaro. O presidente então respondeu, dizendo: “não humilha”.

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