O estudo que irá examinar a alimentação dos brasileiros

Pesquisa irá acompanhar 200 mil pessoas de diferentes regiões do país ao longo de uma década a fim de identificar padrões de alimentação e suas relações com doenças crônicas

    Uma pesquisa iniciada em 2020 irá acompanhar ao longo de 10 anos a alimentação e o estado de saúde de 200 mil brasileiros. Coordenado pelo Nupens, o Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde da USP, o Estudo NutriNet Brasil já conta com mais de 40 mil participantes cadastrados de diferentes regiões do país.

    O objetivo é identificar os principais padrões de alimentação praticados no país e como se relacionam com o risco de doenças crônicas como obesidade, diabetes, hipertensão, colesterol elevado, doenças cardiovasculares e vários tipos de câncer.

    O padrão alimentar diz respeito ao conjunto dos alimentos consumidos pelas pessoas no dia a dia e ao longo da vida. Ele é influenciado por fatores culturais, pelos alimentos historicamente cultivados em uma região, pelo acesso a informações sobre saúde, pelo marketing de alimentos e pela regulação (ou não regulação) sobre o setor alimentício.

    Voluntários podem se inscrever na plataforma criada para o estudo, e a participação é inteiramente feita por meio de breves questionários eletrônicos. Pelo número de participantes e a longa duração, o estudo é inédito no país na área de alimentação e saúde.

    A interação entre os alimentos

    A alimentação tem uma influência determinante sobre a saúde. Mais do que do consumo isolado de determinados alimentos, essa influência resulta da combinação, proporção, do tipo e da variedade do conjunto de alimentos consumidos pelos indivíduos e pela população.

    Daí a necessidade de realizar um estudo como o NutriNet no Brasil, segundo explicou ao Nexo o professor da Faculdade da Saúde Pública da USP e coordenador da pesquisa, Carlos Augusto Monteiro. Ele orientou a elaboração do Guia alimentar para a população brasileira, lançado em 2014, documento do Ministério da Saúde que orienta as políticas de alimentação e nutrição no Brasil.

    Grande parte das evidências científicas sobre a relação entre alimentação e doenças crônicas está ancorada em estudos de acompanhamento realizados nos EUA, no Reino Unido e em outros países desenvolvidos, que têm padrões alimentares muito distintos do brasileiro.

    Monteiro exemplifica que estudos americanos associam o arroz branco à ocorrência de doenças cardiovasculares. No caso do Brasil, esse risco é mitigado pelo fato de que o arroz é largamente consumido acompanhado do feijão, que é rico em fibras, o que não é característico do padrão alimentar dos EUA.

    Além disso, são comuns os estudos que estabelecem relação entre determinados nutrientes e doenças crônicas (como sódio e hipertensão ou gordura saturada e doença cardiovascular), que muitas vezes se mostram inconsistentes. Isso se deve ao fato de que, ainda que uma pessoa tenha um consumo alto desses nutrientes, o efeito deles sobre sua saúde pode ser diferente a depender do conjunto da sua dieta.

    “O que interessa é o padrão completo da alimentação. A dieta mediterrânea, por exemplo. Por que ela protege de doenças do coração? É por causa do azeite? É por causa da azeitona, do alho, do vinho? É por causa do conjunto. Aquele conjunto de alimentos que as pessoas consomem é o que protege a saúde. No Brasil, temos padrões que a gente não encontra nos países de alta renda, como a mistura de arroz e feijão. Para saber quais são os padrões de alimentação que protegem as pessoas daqui dessas doenças crônicas, é preciso fazer um estudo”, disse o professor da Faculdade de Saúde Pública da USP.

    Os resultados devem levar à elaboração de políticas públicas de saúde e alimentação baseadas em evidências científicas, não só no Brasil como em países da América Latina que têm padrões alimentares semelhantes.

    Não existe um único padrão alimentar saudável – não se trata de importar outra dieta. “Do ponto de vista do Brasil, é um absurdo pensar em adotar a dieta mediterrânea. O que a gente precisa descobrir é o princípio por trás dela e de outras dietas saudáveis que protegem contra doenças crônicas. A aposta é que é um padrão baseado em alimentos in natura ou minimamente processados e em grande variedade”, diz Monteiro.

    Qual combinação é benéfica

    Um dos dados mais importantes para a saúde sobre esse padrão é o tipo de alimento consumido: para reduzir o risco de doenças crônicas, os in natura e minimamente processados devem compor a base da alimentação.

    Monteiro observa que, nos padrões tradicionais de alimentação, como a dieta dos países do Mediterrâneo ou a dieta de países asiáticos como Coreia e Japão, alimentos naturais vão sendo combinados de acordo com as possibilidades, o clima, o solo e a experiência cultural da sociedade.

    Ao longo do tempo, são formadas “combinações inteligentes” de alimentos que funcionam bem juntos e que por isso acabam ficando. É o caso da união entre cereal e leguminosa – representada no Brasil pelo arroz com feijão, mas que aparece em outros lugares do mundo, com diferentes variações.

    Já o consumo de ultraprocessados, que são formulações industriais que não têm como base alimentos “de verdade”, não resulta nessa “sinergia”, por ser uma combinação totalmente desconhecida pelo organismo.

    As mudanças no padrão de alimentação

    A edição mais recente da Pesquisa de Orçamentos Familiares do IBGE, referente aos anos de 2008 e 2009, já mostrava que a dieta tradicional brasileira, à base de arroz e feijão, vinha dividindo (e por vezes perdendo) espaço para alimentos prontos para consumo. É uma tendência não só brasileira, mas mundial.

    “Essa foi mais uma razão para fazermos esse estudo. Estamos em uma transição – temos pessoas praticando vários padrões de alimentação. Isso dá condições muito boas para realizar o estudo e encontrar resultados interessantes”, disse o coordenador do NutriNet ao Nexo.

    No Brasil, as doenças crônicas não transmissíveis correspondem a 72% das causas de morte. Dados da Pesquisa Nacional de Saúde de 2013 mostram que mais de 45% da população adulta – cerca de 54 milhões de pessoas – relata ter pelo menos uma dessas doenças.

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