Como o machismo engaja a audiência do Big Brother Brasil

Em sua 20ª edição, reality show estreou novo formato e teve primeiras semanas marcadas por casos que repercutiram nas redes sociais. Número de espectadores aumentou depois de anos de estagnação

    A 20ª edição do “Big Brother Brasil”, produzido e transmitido pela Rede Globo, está renovando o interesse do reality show lançado em 2002 no país.

    A competição que reúne um grupo de estranhos para conviver em uma casa observada por câmeras 24 por dia por muito tempo foi um sucesso de audiência do canal. A primeira edição teve uma média de 40 pontos do Ibope (Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística) por episódio na região da Grande São Paulo. À época, cada ponto era equivalente a cerca de 43 mil domicílios com TV.

    Com o passar dos anos, no entanto, o formato se desgastou na medida em que novas formas de entretenimento se tornaram acessíveis ao público. Na última década, a audiência do reality caiu e ficou estagnada.

    A média de audiência da 10ª edição do programa foi de 31 pontos na Grande São Paulo, segundo o Ibope, que em 2010 considerava que cada ponto equivalia a cerca de 60 mil domicílios com TV. Nove anos depois, em 2019, o “BBB” acabou com sua pior audiência, registrando uma média de 20,3 pontos por episódio na mesma região. A partir de 2019, o ponto no Ibope passou a equivaler a cerca de 73 mil domicílios com TV.

    Em 2020, porém, o cenário mudou e a audiência tem subido. No dia 4 de fevereiro, o programa registrou uma média de 26,5 pontos na Grande São Paulo. A curva crescente se deu por mudanças no formato do programa e pela dinâmica entre os participantes, que pautou diversas discussões nas redes sociais, em especial no Twitter.

    Além da audiência em si e dos comentários nas plataformas digitais, o “BBB” também trouxe de volta espectadores que tinham deixado de acompanhar o formato em anos anteriores. Uma busca no Twitter traz dezenas de relatos semelhantes.

    “Depois de muitos e muitos anos, voltei a ver até os minutinhos extras do ‘BBB’ no Multishow [canal de TV por assinatura do grupo Globosat]”, disse um usuário da rede social. “Não acredito que voltei a ver o ‘BBB’”, disse outra.

    O que mudou no programa

    O formato do “Big Brother” foi criado na Holanda em 1999, pelo executivo John de Mol Jr., da Endemol. Presente em mais de 50 países, o programa teve seu nome inspirado no principal antagonista de “1984”, romance distópico escrito pelo britânico George Orwell em 1948 – na trama, o “Big Brother” ou “Grande Irmão” é a personificação do partido totalitarista e autoritário que governa parte do mundo, vigiando os cidadãos por meio de câmeras 24 horas por dia.

    A premissa do programa é simples: um grupo de pessoas de perfis e origens diferentes fica confinado em uma casa por três meses, onde é monitorado incessantemente por câmeras. A cada semana, há uma eliminação, chamada “paredão”, quando o público escolhe, por meio de votação, quem vai sair da disputa. O último a sobreviver ganha um prêmio em dinheiro que hoje é de R$ 1,5 milhão.

    Na 20ª edição, a premissa básica do programa permanece a mesma. Porém, para o “BBB 20”, a Globo apostou em novidades na hora de selecionar os confinados – ou “brothers”, como a emissora opta por chamá-los.

    Além de nove participantes anônimos, entraram na casa influenciadores digitais e subcelebridades. No início do programa, eram eles o ator Babu Santana (do filme “Tim Maia”), a blogueira Bianca “Boca Rosa” Andrade, a cantora sertaneja Gabi Martins, o youtuber e hipnólogo Pyong Lee, o surfista Lucas Chumbo, a cantora pop Manu Gavassi, a influenciadora digital Mari Gonzalez, o ginasta Petrix Barbosa e a blogueira Rafa Kalimann.

    “É um programa que depende 100% do elenco escolhido, não só individualmente, mas também coletivamente, com a mistura de universos. A edição de 2020 deu liga”, disse ao Nexo Chico Barney, colunista do UOL que comenta todas as edições do reality.

    Mesmo com os bons índices de audiência nas semanas iniciais do confinamento, Barney acredita que é cedo para declarar o “BBB 20” como um sucesso. “Tem muito chão pela frente. Pode ser um sucesso maior ou então um fracasso monumental. Mas o começo foi animador”, afirmou.

    O sexismo da 20ª edição

    Desde a primeira semana, o “BBB 20” foi marcado por conflitos envolvendo o machismo de alguns participantes na relação com as mulheres da casa.

    O principal protagonista desses conflitos foi Petrix Barbosa. Em 24 de janeiro, três dias depois do início do programa, o ginasta mexeu nos seios da blogueira Bianca Andrade durante uma festa. No momento do contato, Andrade estava alcoolizada.

    O caso dominou a conversa sobre o programa nas redes sociais, onde espectadores pediram uma resposta do canal. A hashtag “#PetrixExpulso” chegou aos assuntos mais comentados do Twitter no dia seguinte.

    Seis dias depois, Petrix protagonizou mais um episódio similar. Durante outra festa, o ginasta se aproximou da cantora Flayslane, que estava sentada e, enquanto dançava, esfregou suas genitálias na cabeça dela.

    No dia seguinte, Petrix pediu desculpas às duas participantes, mas a repercussão dos casos fez com que ele fosse eliminado do programa no segundo paredão da edição.

    Um dia antes da eliminação, o ginasta foi indiciado pela Polícia Civil do Rio de Janeiro por importunação sexual. Em 7 de fevereiro, Petrix prestou depoimento. A delegada Catarina Noble, da Delegacia de Amparo à Mulher de Jacarepaguá (RJ), afirmou na terça-feira (11) que o caso continuará a ser investigado e que Bianca e Flayslane serão ouvidas quando deixarem o programa. A assessoria de Petrix afirmou que ele não "quis importunar ninguém".

    O hipnólogo e youtuber Pyong Lee também esteve no centro do debate sobre o sexismo no “BBB 20”. No domingo (9), durante uma festa, Pyong foi visto apalpando as nádegas da cantora Flayslane e posteriormente tentando por duas vezes beijar a médica Marcela McGowan, que pediu para que ele se afastasse.

    Pyong foi chamado ao confessionário da casa – um espaço reservado para a comunicação entre os participantes e a produção – e foi advertido sobre seu comportamento pela direção do programa. Além do aviso verbal, o youtuber perdeu todas as suas “estalecas”, uma moeda criada pelo “BBB” para a compra de itens durante o confinamento.

    Nas redes sociais, houve uma mobilização pedindo a expulsão do participante. A delegada Catarina Noble afirmou que a Polícia Civil já instaurou um inquérito para investigar os episódios envolvendo Pyong, Flayslane e Marcela.

    O ex-jogador de futebol Hadson Nery também protagonizou um episódio que alimentou a discussão sobre o sexismo no programa. Em 3 de fevereiro, o “brother” foi pego falando que havia uma estratégia para eliminar as mulheres do reality, montada por ele e pelo arquiteto Felipe Prior.

    No episódio, Hadson afirmou que o caminho era seduzir as participantes do programa que são casadas, para que elas se envolvessem com eles e ficassem manchadas na opinião do público.

    Ao ser confrontado por Marcela e pela advogada Gizelly Bicalho, o jogador negou que houvesse uma estratégia do tipo por parte dele e de outros homens da casa. No paredão da terça-feira (11), Hadson Nery foi eliminado do jogo.

    Episódios em outras edições do BBB

    A 20ª edição do “BBB” não foi a primeira a ser marcada por casos de assédio que ganharam forte repercussão fora do programa.

    Em 2012, o modelo Daniel Echaniz foi acusado de ter estuprado a estudante Monique Amin. Durante um dos episódios do programa, os dois foram vistos indo para debaixo do edredom de uma das camas da casa. Naquele dia, Amin estava alcoolizada após uma das festas do programa. Por insuficiência de provas, Echaniz foi absolvido na Justiça.

    Quatro anos depois, em 2016, o tatuador Laércio de Moura foi preso assim que saiu da casa, sob acusação de ter oferecido bebida alcoólica e abusado de uma menina de 13 anos, no ano de 2012. Durante o confinamento, Laércio disse, em mais de uma ocasião, que “gostava de novinhas”.

    No ano seguinte, o médico Marcos Harter foi expulso do programa após intimidar psicologicamente e agredir fisicamente a estudante Emilly Araújo – que, meses depois, se consagrou a campeã do “BBB 17”.

    Um inquérito policial foi aberto, mas Araújo não quis denunciar a agressão física. No final daquele ano, Harter foi convidado a participar do programa “A Fazenda”, da Record, que segue a mesma premissa do “BBB”, em um ambiente rural.

    A repercussão na internet

    Os casos de sexismo no “BBB 20” geraram grande repercussão para o programa nas redes sociais e na internet como um todo.

    O reality frequentemente aparece nos assuntos mais comentados no Twitter, como foi no caso em que a hashtag “#PetrixExpulso” foi compartilhada milhares de vezes.

    No Trends, ferramenta que monitora a evolução da pesquisa de termos específicos no Google, é possível ver um grande aumento nas buscas por “machismo bbb”.

    As pesquisas pelo termo “sororidade” aumentaram em 250% após a cantora Manu Gavassi falar sobre o tema na hora de indicar o arquiteto Felipe Prior ao paredão. Dentro da teoria feminista, sororidade é o companheirismo entre mulheres na luta contra as desigualdades e violências de gênero.

    A posição da Globo no debate

    Segundo o colunista de TV Mauricio Stycer, do UOL, a Globo está ciente de que o debate sobre o sexismo alavanca o engajamento do “BBB 20”.

    Chico Barney concorda com essa visão. “Eles não só sabem como apostam nisso. É um tema que extrapola as questões da casa, tem relevância social”, disse. “Eles esperam que isso vá movimentar as pessoas”.

    O colunista considera que o programa sempre foi marcado por episódios que levantavam algum debate sobre um aspecto que extrapolava o confinamento na casa.

    “Essas pautas já acontecem há muito tempo, desde a gênese do programa. Ano passado foi o racismo”, afirmou. “O que está diferente agora é que há um elenco de pessoas que já são conhecidas e contam com alguma base de fãs e seguidores pregressa. Mas sempre esteve lá”, acrescentou.

    “Qualquer que fosse o assunto, teria uma reverberação muito forte nas redes por conta das figuras escolhidas. Ter pessoas que já têm bases estabelecidas de seguidores fez com que houvesse um outro tipo de atenção neste ano”, concluiu.

    ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto dizia que o ginasta Petrix Barbosa foi eliminado do "BBB 20" no terceiro "paredão" da temporada. Na verdade, ele foi o segundo eliminado da edição. A informação foi corrigida às 13h13 do dia 13 de fevereiro de 2020.

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