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As mentiras contra a jornalista da Folha na CPI das Fake News

Repudiado por sua misoginia, depoimento de ex-funcionário de empresa que realizou envio de mensagens durante campanha eleitoral foi endossado por Eduardo Bolsonaro e outros deputados

    Um ex-funcionário de uma empresa de marketing digital usou informações falsas para atacar a repórter especial do jornal Folha de S.Paulo Patrícia Campos Mello na terça-feira (11), durante depoimento à CPI das Fake News, comissão parlamentar de inquérito que investiga o uso sistemático de desinformação na campanha de 2018. Hans River do Rio Nascimento, que trabalhou para a Yacows nas eleições, declarou que Campos Mello teria se insinuado sexualmente com o objetivo de obter informações.

    Campos Mello foi a autora de uma reportagem publicada em dezembro de 2018 que expunha uma rede de empresas que distribuía mensagens falsas por meio do WhatsApp. A jornalista se baseou em documentos da Justiça do Trabalho e em declarações de Hans River. Segundo as informações do ex-funcionário, contidas nos autos do processo e em declarações dadas à jornalista, nomes e CPFs de idosos eram utilizados para registrar chips de celular e conseguir volume de envios.

    As mensagens beneficiariam políticos em campanha. Segundo a reportagem de dezembro, Hans River afirmou que a linha de produção de mensagens funcionou sem interrupção durante as eleições. A reportagem diz que o ex-funcionário alegou não saber quais campanhas usaram o mecanismo. O material exclusivo revelado pela repórter especial complementou uma reportagem de outubro, também escrita por ela, que apontou a atuação de empresários bolsonaristas no envio em massa de mensagens anti-PT.

    A Yacows trabalhou para várias campanhas políticas, conforme revelado por Campos Mello. Também foi subcontratada pela AM4, produtora que atuou na campanha presidencial de Jair Bolsonaro. Hans River movia um processo trabalhista contra a empresa em que alegava não ter sido registrado, não ter tempo para almoço e não ter recebido por horas extras. O processo trabalhista é público.

    Em 25 de novembro de 2019, Hans River acabou fechando um acordo com a Yacows e voltou atrás em relação a sua colaboração com a reportagem da Folha. "Pensei melhor, estou pedindo pra você retirar tudo que falei até agora, não contem mais comigo", afirmou em mensagem de WhatsApp.

    "Em uma comissão parlamentar de inquérito, e estando sob juramento, qualquer cidadão tem que dizer a verdade, sob pena de cometer crime. Acusações sobre a honra, a conduta profissional e moral da jornalista, ao meu ver, caracterizam crime"

    Major Olímpio

    Senador do PSL de São Paulo

    "Dar falso testemunho numa comissão do Congresso é crime. Atacar a imprensa com acusações falsas de caráter sexual é baixaria com características de difamação. Falso testemunho, difamação e sexismo têm de ser punidos no rigor da lei"

    Rodrigo Maia

    presidente da Câmara

    Segundo o Código Penal, fazer afirmação falsa como testemunha em processo judicial ou inquérito é crime, com pena prevista de dois a quatro anos de prisão, além de multa. O regimento do Senado afirma que o questionamento de testemunhas em CPIs segue a legislação processual penal.

    A deputada Lídice da Mata (PSB-BA), relatora da CPMI, anunciou que irá acionar o Ministério Público para investigar Hans River por falso testemunho. Lídice se reuniu com técnicos da comissão para avaliar o que pode ser feito contra o ex-funcionário da Yacows, que prestou juramento antes de depor aos congressistas.

    Hans River foi convocado para depor na CPI pelo deputado Rui Falcão (PT-SP). Durante seu testemunho, afirmou que o partido para quem realizava disparos de mensagens no WhatsApp era o próprio PT. Acusou também Falcão de chamá-lo de “favelado”. O parlamentar disse que a acusação era mentira.

    A misoginia nos ataques

    Presente na CPI, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), endossou as mentiras de Hans River: “Eu não duvido que a jornalista possa ter se insinuado sexualmente em troca de informações para tentar prejudicar a campanha do presidente Jair Bolsonaro”. Terceiro filho do presidente da República, Eduardo reafirmou o teor de sua declaração em seu perfil no Twitter.

    As falas de Hans River na CPI foram rapidamente editadas por apoiadores de Bolsonaro, destacando as partes em que ele disse que trabalhou para o PT e que Campos Mello se insinuou sexualmente. Em minutos, memes e vídeos foram montados e propagados pela militância digital bolsonarista nas redes sociais. Os perfis de Patrícia Campos Mello e do jornal Folha de S.Paulo no Twitter e no Instagram foram bombardeados por mensagens ofensivas à jornalista e ao veículo.

    Em resposta, a Folha afirmou que “repudia as mentiras e os insultos direcionados à jornalista Patrícia Campos Mello na chamada CPMI das Fake News. O jornal reagirá publicando documentos que mais uma vez comprovam a correção das reportagens sobre o uso ilegal de disparos de redes sociais durante a campanha de 2018. Causam estupefação, ainda, o Congresso Nacional servir de palco ao baixo nível e as insinuações ultrajantes do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP)”.

    O jornal publicou, depois, prints de diversas trocas de mensagens no WhatsApp entre Hans River e a jornalista em que ela apurava as informações para a reportagem. Por meio das imagens de conversas, a Folha desmentiu nove declarações de Hans River e uma de Eduardo Bolsonaro.

    Sobre a alegação de insinuação sexual, a Folha reproduziu um print que mostra que quem convida Campos Mello para um show é Hans River. “A repórter não responde e não vai ao show”, afirmou o jornal.

    “É assustador que um agente público use seu canal de comunicação para atacar jornalistas cujas reportagens trazem informações que o desagradam, sobretudo apelando ao machismo e à misoginia”, disse a Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), em nota, sobre as declarações de Eduardo Bolsonaro.

    Em repúdio aos ataques à repórter, mulheres jornalistas organizaram um manifesto de apoio. “Não vão calar a imprensa livre nem intimidar mulheres recorrendo a velhos e repugnantes expedientes machistas”, diz o texto da iniciativa.

    “[Hans River fez] ataques inaceitáveis à jornalista Patrícia, e de baixo nível, que eu fui obrigada a me referir porque não posso aceitar esse tipo de tratamento no que diz respeito às mulheres”, criticou a relatora da CPI, deputada Lídice da Mata (PSB-BA).

    O MBL (Movimento Brasil Livre), de direita, condenou o ataque à jornalista da Folha. “Mentir em CPMI e dizer que uma mulher ofertou o próprio corpo? Apoiar isso pode ser qualquer coisa, menos conservadorismo e patriotismo!”, afirmou a organização no Twitter. Outra voz conservadora conhecida que repudiou os ataques contra Campos Mello foi a jornalista Rachel Sheherazade, que classificou as declarações de Hans River de “abjetas”.

    O que é a CPI das Fake News

    O objetivo da CPI das Fake News é investigar ataques na internet “que atentam contra a democracia e o debate público”. Entre suas propostas está a apuração de perfis falsos em redes sociais utilizados no âmbito da campanha eleitoral de 2018.

    Seu escopo abrange uma série de crimes virtuais. Para além dos atos ligados às eleições, a comissão também tenta levantar informações sobre cyberbullying e aliciamento de crianças para crimes de ódio e suicídio. Ela é categorizada como “mista” por incluir 15 deputados e 15 senadores.

    A CPI foi instalada em 4 de setembro de 2019. Seu início foi marcado por disputas. Uma das prioridades do PT é garantir a investigação sobre a difusão de notícias falsas durante as eleições de 2018, em que o candidato do partido, Fernando Haddad, foi derrotado por Jair Bolsonaro no segundo turno.

    Do outro lado, a bancada do PSL, antigo partido de Bolsonaro que ainda abriga parte de seus apoiadores, uniu forças para blindar investigações que possam atingir o presidente. Os parlamentares tentam evitar o avanço de temas da campanha eleitoral de 2018.

    Os governistas também querem direcionar a investigação para o hackeamento dos celulares de autoridades e dos vazamentos feitos pelo site The Intercept Brasil, que atingem diretamente o ministro da Justiça, Sergio Moro.

    A comissão é presidida pelo senador Angelo Coronel (PSD-BA). A deputada Lídice da Mata (PSB-BA) é a relatora, enquanto o deputado Ricardo Barros (PP-PR) é o vice-presidente.

    Os ataques a Joice Hasselmann

    Em seu depoimento à CPI, no início de dezembro, a deputada federal Joice Hasselmann (PSL-SP) apresentou documentos que comprovariam o envolvimento de perfis bolsonaristas na propagação de notícias falsas na internet. Joice afirmou que havia um “gabinete do ódio” instalado no Palácio do Planalto do qual fariam parte Eduardo Bolsonaro e o vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ), também filho do presidente.

    Em resposta, Carlos atacou Joice, fazendo referência a aspectos físicos da deputada. “Gabinete do ódio é a orelha da mãe de quem acusa! CPMI DA FOFOCA!”, escreveu o vereador, que acrescentou três emojis de porco ao texto. Entre militantes bolsonaristas, Joice já foi várias vezes chamada de “Peppa”, em referência ao desenho animado "Peppa Pig".

    O coro de ataques à deputada foi reforçado pelo próprio presidente Jair Bolsonaro, em live de janeiro de 2020. "Tem dois deputados que não vou falar o nome aqui. Uma fofucha de São Paulo e um meio japonesinho [em referência a Kim Kataguiri, deputado do DEM ligado ao MBL]”, afirmou o mandatário. "Se estivessem fazendo coisas boas, a primeira estaria mais magra e o segundo estaria menos pitoco sem vergonha… Eu acho que mentir engorda, mentir engorda".

    Segundo reportagem do portal UOL, dois integrantes da CPI, os deputados federais Filipe Barros (PSL-PR) e Coronel Tadeu (PSL-SP), aparecem como administradores de grupos de WhatsApp que espalham notícias falsas. Ambos afirmaram que seus nomes foram incluídos nesses grupos à sua revelia.

    De acordo com o UOL, nessas comunidades circula material de apoio ao governo Bolsonaro junto com ataques contra o Supremo Tribunal Federal e congressistas como Joice Hasselmann e os presidentes do Senado, Davi Alcolumbre, e da Câmara, Rodrigo Maia.

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