Os elos do ex-capitão Adriano. E as pontas soltas de sua morte

Ex-integrante do Bope foi morto em operação policial na Bahia. Além de envolvimentos com bicheiros e milícias, seu nome é ligado às investigações de um esquema de corrupção no gabinete de Flávio Bolsonaro

    Adriano Nóbrega foi morto na madrugada do domingo (9) em uma operação realizada no município de Esplanada, na Bahia. O ex-capitão da Polícia Militar do Rio de Janeiro, de 43 anos, estava foragido desde janeiro de 2019.

    A operação policial que resultou na morte de Nóbrega contou com 40 agentes e foi comandada pela Polícia Militar da Bahia. Entre os policiais presentes, havia dois membros da Polícia Civil do Rio de Janeiro, órgão que liderava as buscas pelo foragido.

    Nóbrega foi morto no sítio de Gilsinho de Dedé, vereador em Esplanada pelo PSL, partido pelo qual o presidente Jair Bolsonaro foi eleito e do qual se desligou ainda em novembro de 2019.

    Antes mesmo de sua morte, o ex-capitão Adriano já estava presente em discussões nacionais, seja pelas acusações de envolvimento com milícias ou por relações com as suspeitas de corrupção ligadas à família Bolsonaro.

    Ele também chegou a ser citado no inquérito do assassinato da vereadora carioca Marielle Franco (PSOL) e do motorista Anderson Gomes, em março de 2018. Abaixo, o Nexo mostra quem é o ex-capitão Adriano e quais as principais narrativas em que seu nome foi e está envolvido.

    Quem é Adriano Nóbrega

    Adriano Nóbrega era capitão do Bope (Batalhão de Operações Especiais), esquadrão de elite da Polícia Militar do Rio de Janeiro, onde entrou em 1999. Ele permaneceu na corporação até 2014. Antes mesmo de deixar o cargo, ele já havia sido preso em três ocasiões.

    As três prisões de Adriano

    Primeira prisão

    No início de 2004, foi preso preventivamente pela suspeita de homicídio do guardador de carros Leandro dos Santos Silva, de 24 anos. Leandro havia denunciado um grupo de policiais do Rio de Janeiro por extorsão e ameaça. Foi condenado pelo crime em 2005, mas teve novo julgamento e foi solto em 2006. Em 2007, foi absolvido em definitivo pela Justiça do Rio.

    Segunda prisão

    Em 2008, foi acusado de tentativa de homicídio e preso temporariamente. O alvo seria Rogério Mesquita, pecuarista com o qual teria travado uma disputa pelo patrimônio de Valdomiro Paes Garcia, conhecido como Maninho, bicheiro morto em 2004. O então policial do Bope foi solto após um mês, por falta de provas.

    Terceira prisão

    A última prisão ocorreu em 2011. Na ocasião, foi preso numa operação que teve como alvo o alto escalão do jogo do bicho no Rio de Janeiro. As acusações contra os presos eram de formação de quadrilha armada e tentativas de homicídio qualificado. O processo foi encerrado em 2012 por falta de provas.

    Expulsão da PM

    Foi expulso da Polícia Militar do Rio de Janeiro no início de 2014, por envolvimento com grupos ligados a jogos ilegais. Foi considerado culpado por agir como segurança pessoal de José Luiz de Barros Lopes, conhecido como Zé Personal, chefe da máfia dos caça-níqueis na capital fluminense. Personal era casado com uma das filhas do bicheiro Maninho, cuja morte desencadeou as disputas que levaram à sua segunda prisão.

    As milícias e o Escritório do Crime

    Além das suspeitas de envolvimento com o jogo do bicho e com a máfia dos caça-níqueis, o nome de Adriano Nóbrega também foi associado às milícias do Rio de Janeiro. As suspeitas passam principalmente por dois esquemas criminosos: a participação em um grupo de matadores de aluguel e na construção civil ilegal em Rio das Pedras e Muzema, bairros da zona oeste do Rio de Janeiro.

    Investigações apontavam o ex-capitão Adriano como chefe do Escritório do Crime, grupo formado por policiais e ex-policiais militares e civis, que atuava na zona oeste da capital fluminense. Os principais contratantes do Escritório seriam pessoas ligadas ao crime organizado na cidade, em especial bicheiros. Segundo documentos obtidos pelo UOL, o ex-capitão Adriano estaria envolvido em ao menos oito assassinatos entre 2006 e 2009.

    As autoridades do Rio de Janeiro também associavam seu nome à venda de imóveis grilados no Rio de Janeiro, como os prédios que desabaram em Muzema em abril de 2019. Ele era apontado como um dos líderes no esquema de construção de prédios irregulares, que envolvia também crimes ambientais e desmatamento.

    Em janeiro de 2019, uma operação do Ministério Público do Rio de Janeiro contra a milícia de Rio das Pedras tinha Nóbrega como um de seus principais alvos. Ele conseguiu evitar as autoridades, fugiu e ficou foragido até sua morte, pouco mais de um ano depois.

    As ligações com a família Bolsonaro

    Um dos motivos pelas quais Adriano Nóbrega ganhou relevância nacional é sua ligação com Jair Bolsonaro e seus filhos. Há episódios públicos que evidenciam que o miliciano mantinha uma relação com a família do presidente. Mas por mais que haja ligações entre as duas partes, não há provas que liguem os crimes cometidos pelo ex-capitão Adriano aos Bolsonaro.

    As homenagens de Flávio

    Nóbrega foi homenageado por Flávio Bolsonaro, primogênito de Jair, na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro em outubro de 2003. À época, o então deputado estadual entrou com uma moção de louvor em prol do então policial. A justificativa apresentada era a de serviços prestados à sociedade, com o argumento de que o policial exercia sua função com “dedicação, brilhantismo e galhardia”.

    “No decorrer de sua carreira, atuou direta e indiretamente em ações promotoras de segurança e tranquilidade para a sociedade, recebendo vários elogios curriculares consignados em seus assentamentos funcionais”

    Flávio Bolsonaro

    então deputado estadual e atual senador, em homenagem a Adriano Nóbrega na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, em 2003

    Em 2005, o ex-capitão Adriano recebeu da Assembleia Legislativa a medalha Tiradentes, principal honraria do poder legislativo estadual. À época, ele estava preso por homicídio. A justificativa de Flávio na homenagem era que o policial havia sido exitoso ao prender doze criminosos e ao apreender armamentos e drogas na cidade.

    O discurso de Bolsonaro em 2005

    Em 2005, quando ainda era deputado federal, o agora presidente Jair Bolsonaro defendeu o ex-capitão Adriano em um discurso no plenário da Câmara, em Brasília. Na fala, ele criticou a condenação do policial do Bope por homicídio e atacou o julgamento imposto sobre o então tenente.

    “Um dos coronéis mais antigos do Rio de Janeiro compareceu fardado, ao lado da Promotoria, e disse o que quis e o que não quis contra o tenente [Adriano], acusando-o de tudo que foi possível, esquecendo-se até do fato de ele [Adriano] sempre ter sido um brilhante oficial e, se não me engano, o primeiro da Academia da Polícia Militar”

    Jair Bolsonaro

    então deputado federal e atual presidente da República, em fala no plenário da Câmara dos Deputados em 2005

    Em seus mandatos como deputado federal (1991-2018), Jair Bolsonaro tinha como uma de suas principais bandeiras a atuação em defesa dos policiais militares.

    Queiroz e a rachadinha

    Quando era membro da força policial do Rio de Janeiro, o ex-capitão Adriano tornou-se amigo de Fabrício Queiroz, antigo amigo de Jair Bolsonaro e também ex-PM. Queiroz assumiria cargo como assessor de Flávio no gabinete na Assembleia Legislativa do Rio em meados dos anos 2000.

    Em 2007, Queiroz indicou a então esposa de Adriano, Danielle Mendonça, para ocupar cargo no gabinete de Flávio. Em 2016, foi a vez da mãe do ex-capitão, Raimunda Veras Magalhães, ganhar cargo público na equipe.

    Ambas foram exoneradas no final de 2018, na época em que tornaram-se públicas as suspeitas de um esquema de corrupção no gabinete do primogênito de Jair Bolsonaro, já eleito presidente.

    As investigações – que ainda estão em curso – apontam para a chamada “rachadinha”, em que um deputado emprega funcionários fantasmas e recebe parte dos salários de volta. Nesse esquema, os funcionários sairiam ganhando ao receber sem trabalhar, enquanto Flávio levaria a melhor ao embolsar parte dos salários.

    No final de 2019, vieram à tona novos documentos que associam o próprio ex-capitão Adriano às suspeitas de rachadinha na equipe de Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Dinheiro do gabinete foi parar na conta do miliciano.

    A rede de apoio a Nóbrega

    Uma operação conjunta das polícias da Bahia e do Rio de Janeiro já havia tentado prender o ex-capitão Adriano no final de janeiro de 2020. A ação ocorreu em um condomínio em Porto de Sauípe, na Bahia, mas localizou apenas a esposa e a filha do ex-policial.

    Antes de ir ao sítio do vereador de Gilsinho de Dedé, onde morreu, o ex-capitão passou por uma fazenda também no município de Esplanada, na Bahia. Segundo reportagem do jornal Folha de S.Paulo, o dono do local, Leandro Abreu Guimarães, afirmou à polícia que desconhecia o status de foragido de Adriano, e que conhecia o ex-policial como um criador de cavalos que procurava terras para comprar na região. Segundo o fazendeiro, o ex-capitão teria passado o final de 2019 e o começo de 2020 na propriedade. Guimarães foi preso durante a operação que matou Adriano, por porte ilegal de armas.

    O ex-capitão do Bope foi ao sítio de Gilsinho de Dedé apenas no sábado (8), véspera de sua morte. Ele teria sido levado por Guimarães até o local. O vereador de Esplanada afirmou que não conhecia Adriano e que não sabia de sua presença no sítio. Segundo moradores da região, a ação policial teria sido rápida. Os depoimentos levantaram suspeitas de uma possível rede de proteção ao foragido.

    As relações de Nóbrega com o caso Marielle

    Após a notícia da morte de Nóbrega no domingo (9), o PSOL publicou uma nota em que dizia que o ex-policial era peça chave para esclarecer o assassinato da vereadora do Rio de Janeiro Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, em 14 de março de 2018.

    Mais tarde, a nota do partido foi alterada, deixando de mencionar o caso Marielle e falando apenas do caso Queiroz, amigo da família Bolsonaro. Em suas redes sociais, a viúva de Marielle, Mônica Benício, cobrou explicações do ministro da Justiça, Sergio Moro, sobre a morte de Adriano.

    O ex-capitão já foi considerado suspeito de envolvimento no crime, e chegou a prestar depoimento à Polícia Civil do Rio em agosto de 2018. Às autoridades, ele afirmou não se lembrar de onde estava na hora do assassinato.

    A suspeita de conexão do Escritório do Crime com a morte de Marielle está ligada à identificação de Ronald Paulo Alves Pereira, um dos chefes da milícia, circulando nas imediações da região onde a vereadora foi assassinada. A identificação foi feita após rastreamento de telefone celular. Alves foi preso na operação da Polícia Civil que resultou na fuga de Adriano, em janeiro de 2019.

    Outra tese que liga o ex-capitão ao crime é uma possível ligação entre o policial militar da reserva Ronnie Lessa, principal acusado do assassinato de Marielle, e o Escritório do Crime. Em seu depoimento em agosto de 2018, Adriano havia dito que conhecia Lessa dos tempos de Polícia Militar, mas não entrou em mais detalhes.

    As teses de queima de arquivo

    No domingo (9), dia da morte do ex-capitão Adriano, seu advogado afirmou que o ex-policial previa a possibilidade de ser alvo de queima de arquivo. Segundo Paulo Emílio Catta Preta, o cliente não especificara nada sobre possíveis mandatários da chamada queima de arquivo. Adriano, como relatado acima, era suspeito de atividade criminosa em diversas frentes: jogos ilegais, milícias, grupos de assassinos profissionais e corrupção no gabinete de Flávio Bolsonaro.

    “Ele falou em queima de arquivo: 'Temo por ser uma queima de arquivo'. Mas eu não perguntei nem quem teria interesse nessa queima de arquivo nem quais eram as informações que ele eventualmente teria”

    Paulo Emílio Catta Pretta

    advogado de Adriano Nóbrega, em 9 de fevereiro de 2020

    A declaração, aliada às ligações de Adriano com a família Bolsonaro, fomentou debates, sobretudo nas redes sociais, a respeito de um possível ato em benefício de Jair Bolsonaro e seus filhos – tese instigada por adversários políticos do presidente. Não há indícios concretos que sustentem a hipótese. O deputado federal Marcelo Freixo (PSOL), padrinho político de Marielle, por exemplo, refutou a ligação do ex-capitão com o caso da vereadora em declaração dada ao colunista Leonardo Sakamoto, do UOL.

    “Adriano da Nóbrega, chefe do Escritório do Crime, tinha relações comprovadas com a família Bolsonaro, mas não era suspeito da morte de Marielle. Quem diz o contrário está equivocado. [...] Não posso afirmar que foi execução ou queima de arquivo por não termos informações detalhadas. Mas ele não era suspeito da morte de Marielle. Não havia nenhum indício, diferentemente do que acontece com Ronnie Lessa”

    Marcelo Freixo

    deputado federal do PSOL, em declaração à coluna de Leonardo Sakamoto, do UOL

    Outro fator que levou a discussões públicas sobre a morte de Adriano foi a forma como a operação da Polícia Militar da Bahia foi conduzida. A versão oficial das autoridades é de que, cercado em uma casa no sítio em Esplanada, o ex-capitão reagiu e atirou, sendo baleado na sequência por policiais. Há, no entanto, especialistas que questionam a versão, e que afirmam que a operação indica intenção de matar o ex-policial do Bope.

    “Esse procedimento de cerco lida mais com paciência, espera, controle e dissuasão do que com um confronto direto. E estamos falando de um quadro simplificado, numa casa no campo, e não numa favela ou numa malha urbana, com milhares de variáveis. Por isso a suspeita de que a morte de Adriano é um desfecho deliberado, que a operação foi feita com essa intenção”

    José Cláudio Souza Alves

    sociólogo, em entrevista publicada pela Folha de S.Paulo em 10 de fevereiro de 2020

    Em evento público na segunda-feira (10), o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, rejeitou as suspeitas sobre a ação policial que resultou na morte de Adriano. Witzel também reforçou a versão segundo a qual o ex-policial do Bope disparou primeiro, forçando a reação dos agentes presentes na operação.

    “[A Polícia Civil] chegou ao local do crime para prender, mas infelizmente o bandido que ali estava não quis se entregar, trocou tiros com a polícia e infelizmente faleceu. A Policia do Rio de Janeiro mostrou que está em outro patamar”

    Wilson Witzel

    governador do Rio de Janeiro, em evento no dia 10 de fevereiro de 2020

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