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O golpe no McDonald's que inspirou uma série da HBO

Um ex-policial manteve esquema para desviar selos usados em uma promoção da rede de fast-food. Caso inspirou o documentário ‘McMillions’ e também chegará aos cinemas

    A cada dois anos, a rede de fast-food McDonald’s faz uma promoção em escala global, que se estende a 22 países onde a empresa opera – incluindo o Brasil. Trata-se do “McDonald’s Monopoly”, uma ação que traz o jogo de “Banco imobiliário” para os restaurantes dos arcos dourados.

    Na promoção, os clientes da rede recebem dois selos a cada compra, que emulam as casas do tabuleiro de “Banco Imobiliário”. Há duas formas de ganhar: encontrar todos os selos de uma mesma cor e trocar pelos prêmios correspondentes ou então achar um selo de prêmio instantâneo. As prendas variam de sorvetes gratuitos a grandes quantias em dinheiro.

    Para não haver muitos vencedores, o McDonald’s faz com que um dos selos de cada cor seja raríssimo, para dificultar as chances de reuni-los. O restaurante também produz uma quantidade limitada de selos dos maiores prêmios instantâneos. Por causa dessa estratégia, a chance de se tornar um ganhador na promoção é de 1 em 250 milhões.

    Em agosto de 2001, o “McDonald’s Monopoly” se viu no centro de uma operação policial nos Estados Unidos, que desmascarou um grande esquema criminoso para desviar os selos ganhadores. Essa história virou uma reportagem do site The Daily Beast em 2018, que serviu como base para “McMillions”, série documental da HBO que estreou em 3 de fevereiro.

    Qual era o esquema

    Ao todo, contabilizou-se que o esquema desviou cerca de US$ 24 milhões em prêmios, entre 1989 e a operação policial em agosto de 2001. No centro de tudo, estava Jerry Jacobson, um ex-policial que organizou uma rede de pessoas e pagamentos para conseguir executar o roubo dos selos premiados.

    O infiltrado. E os primeiros desvios

    Nascido em 1943, Jerry Jacobson viveu a maior parte da vida na Flórida, sul dos EUA. Em 1976, Jacobson se formou policial estadual, porém sua carreira foi curta: quatro anos depois, ele foi diagnosticado com uma desordem neurológica e teve de se afastar.

    Sem muita perspectiva, Jacobson se mudou para Atlanta, capital da Geórgia, estado vizinho da Flórida. Lá, a esposa de Jacobson, que também era policial, foi contratada para ser uma consultora de segurança na gráfica Dittler Brothers, e recomendou o marido para uma vaga. Eles se divorciaram em 1983.

    Dentro da Dittler Brothers, Jerry Jacobson conquistou uma reputação impecável com a chefia, que elogiava principalmente sua atenção com os detalhes. Ele se tornou chefe de segurança responsável pelo contrato da Dittler com a Simon Marketing, empresa de Los Angeles responsável pela produção dos selos usados na campanha do McDonald’s. O contrato girava em torno de US$ 500 milhões, e, a cada dois anos, a Dittler Brothers imprimia meio bilhão de selos para circularem na promoção.

    O primeiro golpe aconteceu em 1989. Naquele ano, Jacobson costurou um bolso secreto em suas roupas e conseguiu roubar um selo de prêmio instantâneo de US$ 25 mil, que foi dado a seu irmão.

    “Eu não sei se eu queria mostrar a ele que eu podia fazer alguma coisa ou se estava só me mostrando”, disse Jacobson após a descoberta do esquema. “Eu queria ver se conseguia.”

    Jacobson logo notou o potencial de retorno financeiro com o desvio dos selos. Também em 1989, o ex-policial conseguiu seus primeiros US$ 2.000 com o esquema.

    Ele roubou um selo de prêmio instantâneo no valor de US$ 10 mil e deu para um amigo de longa data, açougueiro em Jacksonville, na Flórida. Após a entrega, o açougueiro repassou o percentual a Jacobson.

    Para não levantar suspeitas para si, Jacobson instruía os “vencedores” a pedirem que uma terceira pessoa ligasse para a rede e se colocasse como a ganhadora do prêmio. Até aquele momento, o plano funcionou.

    Em meados da década de 1990, o McDonald’s mudou a operação de segurança envolvendo os selos e Jacobson ficou afastado da promoção até 1995. Quando voltou a atuar na produção dos selos, o ex-policial decidiu expandir seu esquema.

    A expansão do golpe

    Em 1995, quando voltou a ter acesso aos selos, Jacobson roubou dois prêmios instantâneos no valor de US$ 1 milhão. Um deles ficou guardado em um cofre, e o outro foi doado anonimamente para o St. Jude Children’s Hospital, instituição médica especializada no tratamento de crianças do estado do Tennessee.

    Jacobson enviou o selo em um envelope sem remetente e, por alguns meses, especulou-se a identidade do doador, que só foi descoberta anos depois, com a deflagração da operação policial.

    Para garantir a própria segurança, Jacobson roubou documentos sigilosos da Simon Marketing. Segundo ele, a empresa não queria que houvesse vencedores instantâneos no Canadá, e tinha instruído a Dittler Brothers a não enviar esses selos para o país. A acusação nunca foi de fato comprovada.

    O ex-policial entrou novamente em contato com seu amigo de Jacksonville. Dessa vez, o açougueiro conseguiu um prêmio de US$ 200 mil, repassando US$ 45 mil para Jacobson.

    Nessa época, Jacobson conheceu Gennaro Colombo, descendente de italianos que integrava a Família Colombo, uma das principais organizações mafiosas de Nova York. Um de seus mais notórios membros foi Lenny Montana, ex-boxeador e executor que fez uma participação em “O poderoso chefão”, filme de 1972, interpretando o mafioso Luca Brasi.

    Colombo e Jacobson se conheceram por acaso, no aeroporto de Atlanta. O ex-policial revelou que trabalhava na área de promoções, o que despertou a atenção do mafioso.

    Após fazer uma parceria, os dois decidiram expandir o esquema dos selos. Colombo faria pontes com interessados e os dois dividiriam o repasse resultante da venda. Em certa ocasião, Colombo vendeu um selo de US$ 1 milhão para uma amiga da sua esposa, Robin, e recebeu US$ 40 mil em dinheiro no ato.

    Tudo estava indo bem até maio de 1998, quando Gennaro Colombo morreu em um acidente de carro. Isso marcou o início do fim da operação de Jacobson.

    O fim do esquema

    Nos dois anos que sucederam a morte de seu marido, Robin sentiu que a relação com a Família Colombo estava se desgastando. Ela não queria que seu filho, Frankie, se envolvesse com a máfia e tentou se afastar dos Colombo.

    Em entrevista ao Daily Beast, Robin diz que acredita que essa decisão fez com que a Família Colombo fizesse uma denúncia anônima ao FBI dizendo que Robin, seu pai, seu primo e sua melhor amiga tinham ganhado a promoção do McDonald’s por meio de um esquema criminoso.

    A denúncia chegou em meados do ano 2000 à mesa de Richard Dent, um veterano do FBI especializado no combate à crimes financeiros. De imediato, Dent começou a investigar a afirmação, em uma operação que mobilizou cerca de 25 agentes federais e envolveu até 20 mil grampos telefônicos.

    Após muito trabalho, Dent chegou ao nome “uncle Jerry” (tio Jerry), o apelido que Jacobson usava para realizar todo o esquema.

    O FBI conseguiu cooperação dos executivos do McDonald’s, que se prontificaram a notificar os policiais das vitórias na promoção. Foi então que Dent notou um número incomum de vencedores na cidade de Westminster, na Carolina do Sul – três ganhadores em dois meses, algo improvável, dada as chances envolvidas na ação.

    Grampeando os telefones desses vencedores, Dent e seu time conseguiram chegar ao nome de Jacobson, que acabou preso em agosto de 2001, após mais de um ano de investigações.

    Ao júri, Jacobson se declarou culpado, e foi sentenciado a 15 anos de prisão. Ao todo, o esquema do ex-policial desviou US$ 24 milhões em prêmios por meio de cerca de 60 selos da promoção. Além dele, outras 50 pessoas envolvidas no esquema – de compradores a vendedores contratados após a morte de Colombo – foram consideradas culpadas.

    Após a revelação do escândalo, o McDonald’s terminou seu contrato com a Simon Marketing. A empresa de fast-food se comprometeu a premiar o valor equivalente a tudo que foi roubado pelo esquema de Jacobson. Mas, em vez de selos, os vencedores seriam escolhidos aleatoriamente nas lojas da rede, sendo informados das vitórias diretamente.

    O júri que condenou Jacobson e os outros envolvidos teve início em 10 de setembro de 2001, um dia antes dos atentados terroristas que abalaram os EUA e o mundo. Para Jeff Maysh, autor da reportagem, essa é a razão para que a história do ex-policial e de seu esquema tenha permanecido esquecida por tanto tempo e só tenha sido revivida quase duas décadas depois dos eventos.

    A produção da série

    Inspirada na reportagem do The Daily Beast de julho de 2018, a série documental da HBO “McMillions” será produzida pela Unrealistic Ideas, do ator Mark Wahlberg. As entrevistas e o roteiro do documentário ficaram nas mãos dos estreantes James Lee Hernandez e Brian Lazarte.

    Ao todo, a série terá seis episódios, com o último sendo exibido pela HBO em 9 de março.

    Além de “McMillions”, o caso será adaptado nos cinemas como um longa-metragem da Fox dirigido por Ben Affleck (“Argo”) e estrelado por Matt Damon (“A identidade Bourne”). Sem título anunciado, o filme ainda não tem previsão de estreia.

    As críticas à promoção

    A promoção do McDonald’s é alvo de críticas relacionadas à questão de saúde pública e de prevenção à obesidade e diabetes.

    Tom Watson, um dos líderes do Partido Trabalhista do Reino Unido, pediu, em 2019, que a empresa deixasse de realizar a ação “McDonald’s Monopoly”.

    Watson não entrou com um pedido formal para a suspensão da promoção, apenas escreveu uma carta direcionada aos executivos da rede de fast-food.

    Segundo ele, o jogo é uma “ameaça à saúde pública” e incentiva o consumo de alimentos ricos em sódio, açúcar e gorduras saturadas, com os clientes dos restaurantes criando a expectativa de que podem ser os vencedores da promoção.

    “Empresas têm uma responsabilidade moral com seus clientes, e enquanto sociedade, temos a responsabilidade de proteger a saúde de nossas crianças”, escreveu Watson.

    Um ano antes, a Faculdade Real de Pediatria do Reino Unido se posicionou publicamente contra a realização do “McDonald’s Monopoly”, afirmando que a ação incentiva que crianças consumam grandes quantidades de alimentos com pouco valor nutricional e repletas de açúcar, sódio e gorduras saturadas.

    O restaurante se pronunciou dizendo que a promoção é direcionada apenas para maiores de 18 anos. Para a Faculdade Real de Pediatria, tal limitação não se concretiza na prática, já que pais ávidos pelos selos podem comparecer ao restaurante e comprar os sanduíches para os filhos, na tentativa de se ter mais chances de ganhar.

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