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Como uma renúncia embaralha os planos de Merkel na Alemanha

Pressionada por aliança com a extrema direita na Turíngia, Annegret Kramp-Karrenbauer, apontada como sucessora de Merkel, deixa o cargo e levanta incertezas sobre o futuro da legenda

    Annegret Kramp-Karrenbauer anunciou na segunda-feira (10) sua renúncia à presidência do partido político CDU (União Democrata-Cristã), de centro-direita, e sua desistência de concorrer ao cargo de chanceler nas eleições nacionais de 2021.

    AKK, como é conhecida, havia assumido a presidência da CDU em dezembro de 2018. Desde então, ela era tratada como a sucessora natural da atual ocupante cargo, Angela Merkel.

    A chanceler anunciou que pretende se aposentar em 2021, quando terá completado 16 anos ininterruptos no poder, e depois de ter sido eleita por nove vezes consecutivas a mulher mais poderosa do mundo pela revista Forbes.

    A relação de AKK com Merkel era considerada tão estreita que setores da imprensa e do mundo político alemão referiam-se a ela como “mini-Merkel”.

    “Respeito a decisão, mas a lamento enormemente. Posso imaginar que não tenha sido uma decisão fácil para ela”

    Angela Merkel

    chanceler alemã, em declaração sobre a renúncia de Kramp-Karrenbauer ao comando da CDU

    Com a mudança nos planos, AKK torna incerto o futuro de um dos maiores e mais influentes partidos do país, a CDU; põe em risco o legado de sua madrinha política, Merkel; e agrega incertezas ao cenário futuro de uma Alemanha que, ao lado da França, tornou-se a força motriz de uma União Europeia golpeada pela saída do Reino Unido e fustigada pelo crescimento da extrema direita – uma extrema direita contra a qual AKK, Merkel e o comando nacional da CDU tinham prometido erguer um “cordão sanitário” na Alemanha.

    Qual o motivo da saída

    AKK teve dificuldade em lidar com os dirigentes regionais de seu partido na Turíngia – uma das 16 regiões que comp��em a federação alemã. O episódio é ilustrativo de tensões maiores que rondam a legenda e foi decisivo para sua decisão de renunciar.

    Na eleição regional do dia 5 de fevereiro, o comando local da CDU na Turíngia aproximou-se da bancada do partido de extrema direita AfD (Alternativa para a Alemanha), desafiando uma diretiva nacional que havia sido imposta por AKK.

    A CDU e a AfD terminaram alinhadas nessa eleição regional, sustentando o mesmo candidato à chefia do Executivo na Turíngia: Thomas Kemmerich, do FDP (Partido Democrático Liberal).

    Na prática, essa aliança regional entre a CDU e a AfD rompeu o “cordão sanitário” que AKK havia jurado que não seria transposto por seu partido. Ela viajou então à região para enquadrar os dirigentes locais e tentar minimizar os danos provocados pela aproximação da legenda com a extrema direita.

    Em 24 horas, Kemmerich renunciou, a aliança política foi abortada e uma nova eleição foi convocada. O estrago, entretanto, já estava feito, e a autoridade de AKK havia sido contestada.

    Christian Hirte, vice-presidente da CDU na Turíngia e secretário do governo Merkel responsável pelas relações com as regiões da antiga Alemanha Oriental, foi exonerado do cargo, depois de ter elogiado publicamente a aliança entre seu partido e a AfD.

    O lucro da extrema direita

    A AfD é beneficiária direta do desarranjo causado no partido de Merkel. Primeiro porque impõe uma baixa pesada num partido do qual, hoje, é opositor em nível nacional. Depois, porque fortalece os setores mais conservadores dentro da CDU, que não veem problema em trabalhar numa aproximação futura.

    A extrema direita experimenta seu maior crescimento na Alemanha desde a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Em 2017, a AfD entrou pela primeira vez no Parlamento nacional (Bundestag), tornando-se, de cara, a terceira maior força, com 94 dos 361 assentos.

    Na eleição regional da Turíngia, o partido dobrou sua bancada em relação à votação anterior, recebendo agora 23,4% dos votos. Com a polêmica criada e a eleição por ser refeita, não está descartada a hipótese de que a AfD melhore ainda mais seu desempenho.

    O partido não é classificado como neonazista e sua existência é constitucional. Porém, muitos de seus líderes e simpatizantes fazem questão de manter uma relação ambígua com o nazismo.

    O que acontece agora

    Além de presidente da CDU, Kramp-Karrenbauer é ministra da Defesa da Alemanha. Ela esclareceu que não pretende renunciar a esse cargo.

    As articulações internas para a escolha do novo presidente ou da nova presidente do partido já estão em curso. O próximo encontro nacional da legenda ocorre durante o inverno no hemisfério norte, entre abril e junho, quando o sucessor será apontado.

    Entre os mais cotados para o cargo estão dois críticos de Merkel. O maior deles é o conservador Friederich Merz, que foi derrotado por AKK na eleição anterior, em 2018, e defende uma guinada do partido à direita.

    Além dele, desponta também o atual ministro da Saúde, Jens Spahn, que é abertamente gay e tem apenas 39 anos. Spahn foi crítico aberto da política migratória de Merkel sobretudo em 2015, quando a chanceler foi atacada por setores conservadores por abrir as portas a estrangeiros.

    Há ainda Armin Laschet, governador da Renânia do Norte-Vestfália, que é próximo de Merkel e tornou-se conhecido pelo discurso linha-dura na segurança pública.

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

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