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Quem é a executiva que impulsiona o cinema e a música coreanos

Responsável pela primeira rede de salas multiplexes do país e pelo financiamento do estúdio de animação DreamWorks, Miky Lee viabiliza projetos do diretor de ‘Parasita’ e do k-pop

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    “Parasita” foi o grande vencedor do Oscar 2020, que aconteceu no domingo (9). Com quatro estatuetas, ele é o primeiro filme falado numa língua não inglesa a conquistar o prêmio máximo da noite.

    Durante essa temporada de premiações, o público americano se acostumou a ver e ouvir figuras como o diretor Bong Joon-ho, o elenco vencedor do SAG Awards (Prêmio do Sindicato de Atores) e a tradutora Sharon Choi subirem ao palco para fazer seus agradecimentos. Mas quando a categoria de “Melhor Filme” foi anunciada, foram ao microfone Kwak Sin-ae e Miky Lee, coprodutoras do filme.

    “Queria agradecer meu irmão, que sempre me apoiou a construir nossos sonhos, mesmo quando pareciam impossíveis”, disse Lee, seu nome coreano, em discurso que encerraria a noite.

    O sonho ao qual ela se refere foi consolidar o maior conglomerado de entretenimento da Coreia do Sul, que responde por grande parte da produção cultural do país ou, em números, US$ 4,1 bilhões em 2019.

    Neta de Lee Byung-chull, fundador da Samsung, Lee e seu irmão Lee Jay-hyun estão por trás de uma série de dramas televisivos e eventos de k-pop, a música pop coreana, assistidos por milhões de pessoas anualmente. No cinema, o CJ Group, da qual ela é vice-presidente, controla da produção à exibição, passando por financiamento, licenciamento e distribuição dos filmes.

    US$ 25 bilhões

    foi o rendimento em 2019 de toda o CJ Group, que conta com subsidiárias nos ramos de alimento, biofarmacêutica, compras para casa, logística, varejo e construção

    Dentre algumas das condecorações que recebeu, em 2006, ela seria tanto a primeira asiática a ganhar um World Business Award no Women’s World Awards quanto uma das executivas referência da indústria cinematográfica no relatório de impacto feminino da Variety.

    O início da trajetória de Miky Lee

    Nascida em abril de 1958 no estado do Tennessee, nos Estados Unidos, Lee Mi-kyung, nome coreano de Miky Lee, se mudou para Seul com três anos. Enquanto o avô consolidava o recém-fundado CJ Group, ela estudava letras e linguística em universidades pela Coreia, Taiwan e Japão.

    Mais tarde, durante o mestrado em estudos asiáticos na Universidade Harvard, ela descobriria uma paixão por apresentar a cultura coreana para estudantes coreanos-americanos. Atualmente, ela é também conselheira da Berklee College of Music, considerada um dos melhores conservatórios de música do mundo.

    Antes mesmo de assumir a vice-presidência do CJ Group em 1987 com a morte do avô, ela atuaria como diretora da Samsung America, liderando projetos culturais e educacionais como a criação da Parson School of Design em Seul ou o braço da Art Center College of Design para a Samsung, na Califórnia.

    Já no CJ Group, inicialmente responsável pela fabricação de açúcar e farinha, Lee ajudou a diversificar a produção, garantindo também que a empresa pudesse atuar independentemente da Samsung a partir de 1996.

    “Nós fomos uma empresa de alimentos desde sempre, e, mesmo após expandir para os setores de bioquímica e farmacêutica, ainda éramos muito voltados ao consumidor. Para uma guinada para a mídia, o CJ primeiro teria que construir a indústria do entretenimento do país essencialmente do zero”, afirmou em entrevista ao Hollywood Reporter.

    Em 2017, ela despontaria em uma lista que incluiria quase 10 mil artistas que não deveriam mais receber subsídios do governo. Durante a corrida eleitoral, Lee produzia o programa de TV SNL Coreia, que trazia uma série de esquetes críticas à presidente empossada Park Geun-hye.

    Entre 2014 e 2016, Lee se afastaria da empresa alegando problemas de saúde, mas, mais tarde, o presidente do CJ Group revelaria em audiências da Assembleia Nacional ter recebido uma notificação do assessor de Park para afastá-la. A perseguição contra a classe artística inclusive levaria a ministra da Cultura Cho Yoon-sun presa.

    A relação de Miky Lee com o cinema

    A magnata explica que ninguém achava que o cinema coreano era suficientemente bom para alguma coisa: Costumava carregar e levar DVDs para a Warner, Universal, Fox, e qualquer pessoa com quem tivesse chance para apresentar filmes coreanos”, diz. Mas depois de “Oldboy” vencer o Grand Prix de Cannes em 2004, “não precisava mais dar longas justificativas”.

    O filme de Park Chan-wook foi a porta de entrada para que uma geração de cineastas como Bong Joon-ho e Kim Jee-woon ganhassem notoriedade internacional. Alguns deles são “A criada” (Park, 2016), “Memórias de um assassino” (Bong, 2003) e “Os invencíveis” (Kim, 2008), produzidos por Lee. Só com o ganhador do Oscar, foram quatro — “Expresso do amanhã” (2013) e “Mother” (2009), além dos já citados.

    Mas o trabalho dela é muito anterior às láureas. Ainda em 1994, Steven Spielberg, David Geffen e Jeffrey Katzenberg entrariam em contato procurando investimentos para criar um novo estúdio: a DreamWorks. Nos anos 1990, Sony e Panasonic (antiga Matsushita) firmavam acordos, respectivamente, com a Columbia Pictures e Universal.

    Na ocasião, ainda sob tutela da Samsung, o projeto não foi adiante, mas, um ano mais tarde, já em vias da separação do CJ Group, ela e o irmão concordaram em investir US$ 300 milhões em troca de uma participação de 10,8% dos negócios. Além disso, ela deteria a distribuição dos filmes do estúdio, como “Shrek” (2001), “Madagascar” (2005) e “Kung Fu panda” (2008) em toda a Ásia, com exceção do Japão.

    Segundo Katzenberg, a DreamWorks não existiria sem duas pessoas: Paul Allen, primeiro empresário, e Miky Lee.

    O problema �� que, até aquele momento, a Coreia do Sul não tinha uma rede de cinemas capaz de exibir filmes produzidos por alguém como Spielberg na proporção necessária. Lee decidiu então, em 1998, fundar o CJ CGV, a primeira rede multiplex do país, que hoje responde por 50% do mercado coreano.

    Ela, no entanto, viu a expansão também como uma ótima oportunidade de estimular a produção nacional, e na mesma época criou um fundo para financiar o cinema coreano.

    50%

    é a porcentagem de salas coreanas ocupadas por filmes coreanos. Antes desse crescimento, a fatia não passava de 10%

    4

    é o número médio de vezes em que um coreano vai ao cinema ao ano. Até o fim dos anos 1990, esse valor era de 0.9. Com esse crescimento, a Coreia do Sul é a quinta maior bilheteria mundial

    Atualmente, o CJ Group é o único estúdio coreano com distribuição estrangeira direta. Ao todo, já foram mais de 140 filmes nos EUA, mais de 50 ao redor do mundo e 57 já receberam um remake. Segundo Lee, o objetivo é que a subsidiária americana — são outras cinco na Ásia — produza de dois a três filmes em língua inglesa ao ano. Em desenvolvimento, já são 17, contando os remakes de duas comédias de sucesso na Coreia protagonizadas por Kevin Hart.

    Qual a relação de Miky Lee com o k-pop

    Hoje, grupos como BTS e Blackpink fazem turnês mundiais e encabeçam os principais festivais de música do mundo. Mas há uma década, quando o k-pop ainda ganhava espaço, a principal janela para o mundo era a KCon, uma convenção de cultura e música coreana realizada desde 2012 em diversos lugares do mundo.

    A segunda apresentação do grupo BTS nos EUA foi durante a KCon 2014. Mais de um milhão de pessoas já participaram de um desses eventos, que já aconteceram no México, França e Abu Dhabi.

    990

    é o número de músicas apoiadas pelo CJ Group em 2019 através da produção ou financiamento de projetos de gravadoras de k-pop

    Além disso, sob o braço do CJ E&M Music, duas outras empresas são vitais para os negócios do k-pop: a Stone Music Entertainment, que atua como gravadora, agência de talentos, produtora musical, gerenciadora de eventos, produtora de shows, editora musical e investidora, e a Mnet, canal de TV que exibe diversos programas de auditório, que revelam uma série de artistas semanalmente. É nela, por exemplo, que é televisionado anualmente o Grammy asiático: o Mnet Asian Music Awards.

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