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Qual o significado da vitória do Sinn Féin na República da Irlanda

Legenda que era a voz política do grupo armado IRA consegue vitória histórica e briga por espaço numa região marcada pelo Brexit

    Pela primeira vez em 100 anos, o Sinn Féin – partido que foi o braço político do grupo armado IRA (Exército Republicano Irlandês) – recebeu o maior número de votos na eleição realizada no sábado (8) na República da Irlanda.

    A legenda terminou em primeiro lugar, com 24,1% dos votos, na frente dos maiores e mais tradicionais partidos políticos do país, Fine Gael e Fianna Fáil – ambos empatados com 22,1% cada um. Os verdes ficaram em quarto lugar, com 7,4%, seguidos de partidos menos expressivos. Esses resultados dizem respeito à apuração de 96% das urnas, dado disponível na segunda-feira (10).

    O percentual de votos não se reflete automaticamente no número de cadeiras conquistadas por esses partidos na Câmara dos Deputados da Irlanda, a chamada Dáil Éireann. A distribuição dos 160 assentos da Casa depende ainda da aplicação de uma equação complicada, cujo cálculo só sairá nesta terça-feira (12), ou ainda mais tarde, segundo o jornal britânico The Guardian.

    Ainda assim, o sucesso do Sinn Féin é um feito que marca uma nova fase na história da legenda, pondo fim ao bipartidarismo que reinou absoluto na República da Irlanda, com o Fianna Fáil e o Fina Gael se alternando por 100 anos no topo da cena política local.

    Em busca de consensos

    Em qualquer sistema parlamentarista, é preciso que um partido obtenha a maioria dos assentos para governar – o que, na Irlanda, corresponderia a 81 assentos. Quando isso não acontece, os partidos mais votados tentam então formar uma coalizão majoritária. Esse processo está sujeito às vezes a longas negociações.

    Como o Sinn Féin é um ator novo nesse grande jogo, é impossível prever o desfecho das negociações, que podem até mesmo derivar na convocação de uma nova eleição nacional – passível de ser repetida quantas vezes forem necessárias, até que emerja um vencedor único ou uma coalizão majoritária viável.

    Por muitos anos, o Sinn Féin foi visto como companhia tóxica pelos demais partidos irlandeses. Isso acontecia pela associação da legenda com o grupo armado IRA. Mas, após os acordos de paz de 1998 e o fim do IRA em 2005, o cenário mudou.

    Hoje, o Sinn Féin é visto como um partido democrata, plenamente integrado ao sistema político, com uma plataforma pouco diferente dos partidos tradicionais de esquerda, com forte apelo entre os trabalhadores de menor renda e uma agenda que defende a diversidade, o feminismo, a imigração e outras pautas consideradas progressistas no debate atual.

    A legenda obteve 13,8% dos votos na eleição de 2016, pouco mais da metade do que obteve agora. A nova condição, de partido grande e com votação expressiva, pode mudar a correlação de forças no país daqui em diante.

    Principais partidos irlandeses

    Fine Gael

    É um partido economicamente liberal, cujo nome significa, literalmente, “família ou tribo irlandesa”. Defende o receituário de austeridade nas contas públicas, combinado com discurso social. É liderado por Leo Varadkar, que é também primeiro-ministro da Irlanda desde a eleição de 2017.

    Fianna Fáil

    É um partido de centro, embora ideologicamente maleável, cujo nome significa literalmente “soldados do destino”. Foi responsável pelos melhores e, em seguida, pelos piores anos da economia irlandesa, quando então cedeu a primazia da política local ao rival Fine Gael em 2017.

    Sinn Féin

    Legenda que nasceu no início do século 20 e cujo nome significa “nós mesmos” ou “nós próprios”. O Sinn Féin foi o braço político do grupo armado IRA até 2005, quando a defesa da unificação das irlandas se dava pelas armas. Em seguida, converteu-se num partido de esquerda, ligado a movimentos de trabalhadores e às classes mais baixas.

    O contexto histórico das Irlandas

    A Irlanda, como um todo, tornou-se parte do Reino Unido em 1801, mas a partir de 1918 começou a viver as primeiras tensões separatistas.

    As tensões envolviam “nacionalistas”, que defendiam a formação de uma república independente, na porção sul da ilha, e “unionistas”, que defendiam a união da Irlanda com o Reino Unido – composto por Inglaterra, Escócia e País de Gales –, sob autoridade da coroa britânica, na porção norte da ilha.

    Mapa mostra a localização da Irlanda do Norte e da República da Irlanda em relação ao Reino Unido.

    A maior parte da população irlandesa “nacionalista”, adepta da fundação de uma república independente, era católica. A maior parte da população irlandesa “unionista”, adepta da permanência sob o poder da coroa, era protestante.

    Em 1921, dos 32 territórios da Irlanda original, 26 formaram a República da Irlanda. Os outros seis permaneceram como parte do Reino Unido.

    As ações armadas do IRA

    A ação do IRA teve início com um grupo de irlandeses nacionalistas que se recusaram a defender o Reino Unido na Primeira Guerra Mundial (1914-1918), no período em que a Irlanda, como um todo, estava sob o poder da coroa britânica.

    A partir desse núcleo original, o grupo formado por nacionalistas passou a empreender ações de guerrilha e a executar atentados terroristas contra alvos britânicos e contra os unionistas na Irlanda do Norte.

    O conflito entre as duas Irlandas teve fim oficialmente no dia 10 de abril de 1998, com a assinatura do Acordo de Belfast, também conhecido como Acordo de Sexta-Feira Santa.

    Desde então, com o fim das hostilidades, a República da Irlanda constitui um Estado soberano, cuja capital é Dublin, enquanto a Irlanda do Norte, cuja capital é Belfast, tornou-se uma nação independente, mas que faz parte do Reino Unido.

    O Sinn Féin é anterior ao IRA – o partido foi fundado em 1905, enquanto o grupo armado foi formado entre 1914 e 1918. A legenda sempre teve discurso nacionalista e muitos de seus dirigentes foram acusados de exercerem papéis preponderantes também no IRA, sobretudo a partir dos anos 1970. Mas essa ligação sempre foi objeto de controvérsia, e arrefeceu com o tempo, conforme seus líderes pregaram o distanciamento das ações armadas.

    A questão do separatismo

    A eleição de 2020 na República da Irlanda ocorre num contexto em que o separatismo volta a ser assunto na região. Embora seja um país soberano, a República da Irlanda tem uma história marcada por um debate permanente e nunca completamente extinto a respeito da possibilidade de reunificação com a Irlanda do Norte.

    Essa possibilidade de os norte-irlandeses se descolarem do Reino Unido e se reunificarem com a República da Irlanda cresceu sobretudo após a aprovação do Brexit. A decisão de sair da União Europeia corresponde ao desejo dos moradores da Inglaterra e do País de Gales, mas não dos moradores da Escócia e da Irlanda do Norte, como mostra a série de gráficos abaixo, com os resultados do plebiscito de 2016 em cada um dos países.

    É a favor da saída da União Europeia?

    Brexit_Irlanda
    Brexit_Escócia
    Inglaterra_Brexit

    Na Escócia, a premiê Nicola Sturgeon negocia com o premiê britânico, Boris Johnson, a possibilidade de realizar um referendo sobre a separação do país em relação ao Reino Unido. Na República da Irlanda, o Sinn Féin sonha com a possibilidade de que algo semelhante ocorra até 2025.

    Muito aquém do Brexit

    “A eleição não foi sobre o Brexit, mas sobre assuntos domésticos”, disse Brigid Laffan, diretora do Centro Robert Schuman, dedicado a estudos sobre processos de integração entre os países da Europa.

    De acordo com ela, a principal conclusão desse pleito é a de que “as armas estão definitivamente fora do processo” político na República da Irlanda, e os eleitores estão mais preocupados com a gestão da administração pública em si.

    Laffan ressalva, no entanto, que devem haver novos espaços de diálogo entre atores das duas Irlandas no futuro, sobre a reunificação. O Sinn Fein, graças à votação expressiva, naturalmente terá uma presença legítima.

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

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