Por que a vitória de ‘Parasita’ no Oscar é histórica, em 4 pontos

Longa dirigido por Bong Joon-ho levou a estatueta de Melhor Filme em um ano que deu destaque para nomes estrangeiros

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A cerimônia do Oscar 2020 na noite de domingo (9) terminou com “Parasita”, produção sul-coreana do cineasta Bong Joon-ho, levando a estatueta de Melhor Filme e marcando a primeira vez que um filme falado em idioma não-inglês levou o prêmio.

O longa também levou o maior número de troféus da noite. Além da estatueta principal, levou Melhor Filme Internacional, Melhor Roteiro Original e Melhor Direção. "Parasita" conta a história de uma família da periferia de Seul, capital da Coreia do Sul, que traça um plano para se infiltrar na mansão de uma das famílias mais ricas do país.

Bong Joon-ho não foi o único nome de fora dos Estados Unidos a se destacar na mais importante noite do cinema americano – outros oito estrangeiros ganharam estatuetas, incluindo Han Jin Won, coautor do roteiro de “Parasita”.

Em uma noite histórica para produções estrangeiras, o Brasil não foi contemplado com um Oscar – o longa “Democracia em vertigem”, dirigido pela cineasta Petra Costa, que concorria a Melhor Documentário, perdeu para “Indústria Americana”, única produção dos EUA que competia na categoria.

A lista completa de vencedores da noite

  • Melhor Filme: “Parasita”
  • Melhor Direção: Bong Joon-Ho, por “Parasita”
  • Melhor Roteiro Original: Bong Joon-Ho e Han Jin Won, por “Parasita”
  • Melhor Roteiro Adaptado: Taika Waititi, por “Jojo rabbit”
  • Melhor Filme Internacional: “Parasita”
  • Melhor Atriz: Renée Zellweger, por “Judy”
  • Melhor Ator: Joaquin Phoenix, por “Coringa”
  • Melhor Atriz Coadjuvante: Laura Dern, por “História de um casamento”
  • Melhor Ator Coadjuvante: Brad Pitt, por “Era uma vez em Hollywood”
  • Melhor Fotografia: “1917”
  • Melhores Efeitos Visuais: “1917”
  • Melhor Edição: “Ford vs. Ferrari”
  • Melhor Design de Produção: “Era uma vez em Hollywood”
  • Melhor Figurino: “Adoráveis mulheres”
  • Melhor Maquiagem e Visagismo: “O escândalo”
  • Melhor Animação: “Toy story 4”
  • Melhor Animação em Curta-metragem: “Hair love”
  • Melhor Edição de Som: “Ford vs. Ferrari”
  • Melhor Mixagem de Som: “1917”
  • Melhor Trilha Sonora Original: “Coringa”
  • Melhor Canção Original: “I’m gonna love me again”, de “Rocketman”
  • Melhor Documentário: “Indústria americana”
  • Melhor Documentário em Curta-metragem: “Learning to skateboard in a warzone (if you’re a girl)”
  • Melhor Curta-metragem: “The neighbour’s window”

4 pontos importantes da vitória de ‘Parasita’

As vitórias de "Parasita" marcam os primeiros Oscars da Coreia do Sul, e também levantam alguns pontos importantes, que o Nexo lista abaixo:

A resistência a filmes em outros idiomas

O público americano tem uma resistência à filmes que não são falados em inglês. O próprio Bong Joon-ho mencionou esse fato no seu discurso na premiação do Globo de Ouro, em janeiro, quando afirmou que “quando os americanos superassem a barreira das legendas, seriam apresentados a um mundo novo de filmes”.

Nos 92 anos de história do Oscar, apenas dez filmes falados em línguas estrangeiras foram indicados ao prêmio de Melhor Filme, e nenhum deles levou o troféu.

Em 2012, o filme francês “O artista” se tornou a primeira produção 100% não-americana a levar o troféu de Melhor Filme – porém, o longa é mudo. A trama, que fala sobre os bastidores do cinema mudo em sua Era de Ouro, se passa em Hollywood e conta com alguns atores americanos.

A vitória de “Parasita” marca a primeira vez que um filme falado em língua estrangeira e com elenco 100% estrangeiro recebe o principal troféu da noite.

“Quando eu era jovem e estava estudando cinema, uma frase marcou fundo o meu coração, ela dizia que ‘aquilo que é mais pessoal é aquilo que é mais criativo’. Essa frase é do grande Martin Scorsese. Quando eu estava na escola, estudei os filmes de Scorsese. Só ser nomeado já foi uma honra, eu nunca achei que ia ganhar”

Bong Joon-ho

cineasta sul-coreano, no discurso do prêmio de Melhor Direção, acompanhado de sua tradutora

Os primeiros Oscars da Coreia do Sul

As vitórias de “Parasita” marcam os primeiros Oscars recebidos pela Coreia do Sul. “Escrever um roteiro é um processo muito solitário, você nunca escreve um filme para representar seu país, mas esse é o primeiro Oscar da Coreia do Sul”, disse Bong ao receber o troféu de Melhor Roteiro Original, a primeira vitória de “Parasita” na noite.

Nas últimas décadas, a Coreia do Sul vem apostando em uma série de políticas públicas para fomentar a produção cinematográfica do país.

Em 1994, o governo sul-coreano percebeu que o cinema poderia ser uma indústria lucrativa. A decisão é marcada pela influência de Hollywood – mais especificamente, o lançamento do filme “Jurassic park”, um ano antes. O fato de o faturamento do longa de Steven Spielberg ter sido duas vezes maior do que o faturamento total da indústria automobilística da Coreia do Sul foi apontado pelo secretário de audiovisual da época como argumento para defender mais investimento na produção de cinema.

Foi então que o governo federal promulgou a Motion Picture Promotion Law, lei feita para disponibilizar recursos públicos para a produção de filmes dos mais diversos gêneros. Desde então, o cinema sul-coreano se tornou um destaque entre os mercados audiovisuais da Ásia.

O destaque para estrangeiros na noite

Bong Joon-ho recebeu os prêmios de “Parasita” em um ano no qual o Oscar deu destaque para o trabalho de estrangeiros.

Além dele, o neozelandês Taika Waititi venceu o prêmio de Melhor Roteiro Adaptado por “Jojo rabbit” e a islandesa Hildur Guðnadóttir recebeu o troféu de “Melhor Trilha Sonora Original” por seu trabalho em “Coringa”.

O japonês Kazu Hiro foi um dos vencedores do prêmio de Melhor Maquiagem e Visagismo por “O escândalo”; o francês Guillaume Rocheron foi um dos ganhadores do troféu de Melhores Efeitos Visuais, por “1917”, ao lado do britânico Dominic Tuohy.

Os britânicos, em especial, tiveram destaque: Roger Deakins com o prêmio de Melhor Fotografia por “1917”; Jacqueline Durran levou o troféu de Melhor Figurino por “Adoráveis mulheres”; e Mark Taylor com a estatueta de Melhor Mixagem de Som por “1917”.

Ao lado de Bong, a produtora Kwak Sin-ae e o roteirista Han Jin Won também receberam estatuetas pelo trabalho em “Parasita”.

A vitória de Bong como Melhor Diretor reafirma uma tendência recente de estrangeiros vencendo a categoria. Entre 2011 e 2020, apenas um americano recebeu a estatueta: Damien Chazelle em 2017, por seu trabalho em "La La Land".

O (quase) empate com Walt Disney

Por pouco, Bong Joon-ho não empatou com Walt Disney no maior número de estatuetas vencidas em uma única noite.

Em 1954, Disney levou os troféus de Melhor Animação em Curta-metragem, Melhor Documentário em Curta-metragem, Melhor Documentário e Melhor Curta-metragem, totalizando quatro prêmios.

Bong também levou quatro prêmios: Melhor Direção, Melhor Filme, Melhor Roteiro Original e Melhor Filme Internacional.

Apesar da repetição no número de estatuetas, o empate não se consolidou porque o Oscar de Melhor Filme Internacional vai para o país que produziu o longa, e não para os seus realizadores diretos.

Quem é Bong Joon-ho

Mesmo antes de levar os principais prêmios da noite, Bong Joon-ho já era visto como um dos principais destaques da temporada de premiações nos EUA.

O cineasta participou não só dos prêmios em si, mas também de festas e rodadas de entrevistas, fazendo campanha para a divulgação de “Parasita”.

O diretor nasceu em 1969, na cidade de Daegu, sudeste da Coreia do Sul. Matriculou-se no curso de sociologia da Universidade de Yonsei no ano de 1988. Em 1990, serviu no exército sul-coreano por dois anos – o serviço militar é obrigatório no país.

Bong se formou em sociologia no ano de 1995. À época da graduação, já estava estudando cinema em um programa da Academia Sul-coreana de Artes Cinematográficas, onde produziu dezenas de curtas-metragens.

Seu primeiro longa-metragem foi “Cão que ladra não morde”, lançado em 2000. Ganhou destaque no ocidente a partir de 2013, quando dirigiu a ficção científica “O expresso do amanhã”, filme estrelado por Chris Evans (“Vingadores”) e John Hurt (“Alien”).

Em 2017, Bong lançou a ficção científica “Okja”, produzida pela Netflix. O filme competiu à Palma de Ouro, principal prêmio do Festival de Cannes.

Após as vitórias no Oscar, Bong deu uma entrevista coletiva e afirmou já estar trabalhando diretamente em dois filmes, um coreano e uma produção americana. Além disso, ele estará envolvido na produção de uma versão americana de “Parasita” produzida pela HBO no formato de minissérie.

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