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Coronavírus: como é a quarentena dos brasileiros em Anápolis

Repatriados, médicos, tripulantes e assessores de imprensa estão entre as pessoas que serão isoladas. Instalações contarão com pula-pula, telão de cinema e apresentação de banda militar

    Os 30 brasileiros repatriados da cidade de Wuhan, epicentro do surto de coronavírus na China, chegaram na noite de sábado (8) ao país. A partir deste domingo (9), eles estarão instalados na base aérea de Anápolis, cidade goiana a 150 km de Brasília.

    As duas aeronaves enviadas pelo governo deram carona a poloneses e indianos até Varsóvia, uma das escalas para abastecimento, e seguiram até para Goiás com médicos, equipe de bordo e mais quatro chineses que se casaram ou são filhos de brasileiros.

    Para deixarem a China, todos os tripulantes precisaram passar por um exame médico que impediria o embarque caso constatado algum sintoma da doença. Não foi o caso, e todos deixaram o país.

    Em Anápolis, eles serão submetidos a um isolamento de 18 dias sem visitas. Ficarão em quartos individuais ou familiares, onde terão os sinais vitais aferidos três vezes ao dia. Amostras respiratórias serão coletadas até o 14º dia.

    Todo esquema de quarentena estabelecido pelo governo para os brasileiros repatriados da China constam da lei sancionada pelo presidente Jair Bolsonaro, que tramitou em caráter de urgência no Congresso.

    Contra o temor de uma proliferação do vírus, Bolsonaro afirmou em reunião com os responsáveis pela operação de repatriação que “ao levar informação clara para o Brasil e, em especial, para o pessoal de Anápolis, que não existe qualquer risco para terceiros aqui”. “É uma operação muito bem preparada e planejada”, afirmou.

    O governador do Goiás, Ronaldo Caiado (DEM), explica que essas pessoas não terão contato algum com a cidade de Anápolis. “É importante que seja frisado tudo isso, a transmissão do vírus não se dá pelo ar, a transmissão do vírus se dá por gotículas”, disse.

    Mapa da região de Goiânia com destaque para a cidade de Anápolis em vermelho. No noroeste, em amarelo, base aérea de Anápolis

    Até sexta-feira (7), o país registrava nove casos suspeitos, ainda sem comprovação. Já a China contabilizava mais de 600 mortes e mais de 31 mil casos confirmados. A Europa também já retirou cidadãos de mais de 30 nacionalidades de Wuhan.

    Como são as acomodações em Anápolis

    De acordo com a Força Aérea Brasileira, o hotel da base aérea tem 38 suítes, que serão adequadas de acordo com as necessidades dos repatriados, oferecendo ainda TV, internet, telefone, frigobar, ventilador e ar condicionado. Durante esse período, eles terão tratamento gratuito e serão informados constantemente sobre o estado de saúde.

    Ficarão alojados nos quartos, mas terão que lavar frequentemente as mãos com sabonete líquido e álcool gel, e quando saírem para as áreas de convivência, usar máscaras cirúrgicas para andar e conversar com os outros residentes evitando o contágio por meio de espirros ou tosse.

    A ideia, no entanto, é criar um clima de humanização e receptividade, diz o comandante da operação Marcelo Damasceno. Para isso, serão instaladas brinquedoteca, filmoteca, biblioteca, copa 24 horas e até um pula-pula, além de atividades e musicais, como a apresentação de uma banda de músicos das Forças Armadas.

    Isso principalmente porque dentre os repatriados, sete são crianças, algumas de dois e três anos. Para tal, serão providenciados também berços, fraldas descartáveis e cortinas de material antialérgico.

    As refeições, preparadas fora da área de quarentena, serão servidas seis vezes ao dia em área coletiva. Segundo a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), os resíduos serão descartados seguindo os padrões utilizados em hospitais, passando por equipamentos de esterilização antes de serem encaminhados aos lixos comuns.

    Ainda que o vírus tenha pouca chance de sobreviver no clima brasileiro, os dois aviões serão desinfectados por uma equipe das Forças Armadas treinada para lidar com contaminação biológica ou nuclear. As aeronaves enviadas à China também são utilizadas para as viagens oficiais da Presidência da República.

    Durante o tempo de quarentena, não haverá restrições ao uso de redes sociais, mas Damasceno diz que será feita uma sugestão de toque de recolher para repouso dos quarentenados.

    Além dos repatriados, participam da operação 12 médicos da Força Aérea, dois médicos do Ministério da Saúde, dois assessores de imprensa e oito tripulantes, que também ficarão em quarentena em Anápolis. Ao todo, o número de pessoas alojadas pode chegar a 58.

    O que será feito em caso de suspeita da doença

    Quem está contaminado pode ficar com o coronavírus incubado no corpo por até duas semanas antes de apresentar sinais de febre, tosse, dificuldade para respirar e, posteriormente, pneumonia severa — que pode levar à morte.

    Se algum repatriado apresentar alguns dos sintomas iniciais, ele será reconduzido a uma área específica para exames e primeiro atendimento. Se o quadro se intensificar, ele será transportado para o Hospital das Forças Armadas em Brasília, a 150 km, onde ficará isolado enquanto é tratado.

    É esperado também ao final dos 18 dias um procedimento especial para que os repatriados deixem a unidade militar, algo que ainda está sendo discutido entre Anvisa e o Ministério da Saúde.

    Colaborou com o mapa Thiago Quadros.

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