O perfil da população de rua de São Paulo, em 5 pontos

Censo da prefeitura mostra que número de pessoas que vive em vias e abrigos públicos aumentou 53% em quatro anos. Dados são contestados por recenseadores

    O número de pessoas que vivem nas ruas ou em centros de acolhimento da cidade de São Paulo aumentou mais de 50% em quatro anos, segundo a última edição do Censo da População em Situação de Rua do município, divulgado na sexta-feira (31) pela prefeitura paulistana.

    A pesquisa censitária, que mostra dados de 2019, avaliou o perfil de 24.344 pessoas que estavam em situação de rua na cidade e foram abordadas pelos recenseadores em outubro daquele ano. A realização é do Instituto Qualitest, com apoio da Secretaria de Assistência Social.

    A divulgação do relatório foi feita por representantes da secretaria e pelo prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), que anunciou um pacote de políticas públicas para reduzir o deficit habitacional da cidade em 2020 e atender a quem está em situação vulnerável nas ruas.

    “[...] grupo populacional heterogêneo que possui em comum a pobreza extrema, os vínculos familiares interrompidos ou fragilizados e a inexistência de moradia convencional regular, e que utiliza os logradouros públicos e as áreas degradadas como espaço de moradia e de sustento, de forma temporária ou permanente, bem como as unidades de acolhimento para pernoite temporário ou como moradia”

    Pesquisa Censitária da População de Rua de São Paulo

    ao definir o que é população de rua no contexto do censo. O texto leva em consideração o decreto federal n. 7.053, de dezembro de 2009

    A pesquisa, realizada desde 2000 em São Paulo, chega à quinta edição em 2019. Apesar de o perfil da pessoa que vive nas ruas na cidade ter mudado pouco no período, a edição atual registrou que os números foram influenciados pela a alta do desemprego, e que atualmente há mais gente optando por ficar nas vias públicas em vez de se recolher nos albergues municipais.

    Abaixo, o Nexo destaca 5 dados sobre a população em situação de rua na cidade de São Paulo.

    Aumento de 53% de pessoas nas ruas

    Pessoas em situação de rua cresceram pouco mais de 5.000, em 2000, para mais de 24 mil em 2019 em São Paulo. A previsão da prefeitura era de que essa população crescesse até os 18 mil neste ano.

    A capital paulista tinha 24.344 pessoas em situação de rua em 2019. A quantidade representa 0,2% do total da população da cidade, que, naquele ano, foi medida em 11.786.630 pessoas, segundo a Fundação Seade (Sistema Estadual de Análise de Dados).

    Desde o ano de 2000, a população de rua de São Paulo aumentou 179%. Entre 2015, quando foi feito o último censo, e 2019, o crescimento foi de 53% — a previsão da prefeitura era de que ele fosse menor, de pouco mais de 15 mil em 2015 para cerca de 18 mil pessoas no último ano. Ao mesmo tempo, a população paulistana como um todo cresceu 1,7%. Atualmente, a população de rua representa o dobro em relação ao total da cidade do que em 2015, quando era de 0,1%.

    Maioria de homens, adultos e pardos

    A maioria da população de rua é de homens adultos e pardos. Há 15% de mulheres, 28% de brancos e minorias indígena e amarela. Há 664 crianças ou adolescentes e 368 adultos que se identificam como travestis, transexuais ou transgêneros.

    A maioria das pessoas em situação de rua em 2019 era homem (85%), perfil que mudou pouco em relação ao registrado no censo de 2015 (82%). A novidade, na pesquisa mais recente, foi uma pergunta sobre identidade de gênero, que revelou que há 386 transexuais, transgêneros e travestis vivendo em situação de rua na cidade, equivalente a 1,6% do total.

    Ao todo, quase metade da população em situação de rua (47,6%) é parda, quase um terço (28%) é branca e um quinto (21%) se declara preta. Há ainda uma minoria de indígenas (1,7%) e amarelos (0,9%).

    A média de quem vive nas ruas é de 41,6 anos. Mais de 80% são adultos de 18 a 59 anos, segundo o censo. A proporção de adultos entre 31 e 49 anos aumentou 10 pontos percentuais entre 2015 e 2019, enquanto os percentuais de crianças e adolescentes diminuíram.

    Maioria na região central de São Paulo

    A maior parte da população de rua (45%) vive na região da Prefeitura Regional da Sé, onde ficam os distritos de Bela Vista, Bom Retiro, Cambuci, Consolação, Liberdade, República, Santa Cecília e Sé. A região era também a mais habitada quando houve o censo de 2015.

    A Prefeitura Regional da Mooca (19%), que fica na zona leste, e a Prefeitura Regional de Santana/Tucuruvi, na zona norte, aparecem em seguida na distribuição espacial da população de rua de São Paulo. Ambas as regiões fazem divisa com a Sé. Alguns dos distritos onde há mais pessoas nesses lugares são Pari, Brás, Mooca e Santana.

    Metade das pessoas entrevistadas pelo censo disse que não costuma ir a outros bairros. As áreas periféricas, como Parelheiros (sul), Sapopemba (leste) e Perus (norte), registraram a menor concentração de pessoas em situação de rua, com 0,07%.

    Maior parte prefere ruas a albergues

    Em 2019, número de pessoas que buscam centros de acolhida é menor do que quem fica nas ruas.

    A quantidade de pessoas que vivem exclusivamente nas ruas em São Paulo (12.651) é maior que daquelas que procuram abrigos e centros de acolhida regularmente para passar a noite ou parte do dia (11.693). A situação é diferente de 2015, quando os abrigos eram mais procurados.

    Atualmente, existem mais de 17 mil vagas em centros de acolhida para a população de rua em São Paulo. O número aumentou 41,84% em relação a 2015, quando havia cerca de 5.000 vagas a menos. Apesar de as vagas não serem suficientes para abrigar os mais de 24 mil que estão nas vias públicas hoje, uma parte significativa delas está ociosa.

    A pesquisa censitária de 2019 mostra que a procura por abrigo é maior entre crianças e adolescentes (81%) e idosos (81%) que vivem na rua. Atrás, vêm os adultos (57%) e pessoas cuja idade não foi identificada (17%). Ao todo, 48% do total da população de rua faz uso desses centros.

    Maiores problemas são família e desemprego

    Maiores motivações para ir à rua são, nesta ordem, problemas familiares, dependência química, perda de trabalho, perda de moradia, problemas de saúde, migração/imigração e saída do sistema prisional.

    A pesquisa da Prefeitura de São Paulo identificou que metade da população de rua local não mora mais em suas casas por conflitos familiares, como separação e falecimento de parentes próximos.

    Atrás estão a dependência de álcool ou drogas (33%), o desemprego (23%) e a perda de moradia (13%). Alguns passam por problemas devido à migração ou imigração (4%) ou são egressos do sistema prisional (3%) e do sistema socioeducativo (0,3%) para adolescentes.

    A pesquisa mostra que há relação entre o aumento no número de pessoas em situação de rua e a alta da taxa desemprego em São Paulo — que foi de 12,8% em 2015 para 16,4% em 2019. Na região metropolitana, a taxa subiu de 13,2% para 16,6%.

    Por que os dados são contestados

    O evento de lançamento do censo, na sexta-feira (31), foi interrompido por recenseadores que disseram ter participado da contagem da pesquisa, mas que contestam os números divulgados pela prefeitura.

    Estão divulgando uma mentira. São mais de 32 mil pessoas em situação de rua em São Paulo”, disse Anderson Miranda, que afirmou ter feito parte da pesquisa como recenseador, segundo o jornal Folha de S.Paulo. Ao lado de outros integrantes do Movimento Pop Rua, ele acusou recenseadores de terem excluído entrevistados da pesquisa.

    A exclusão teria se dado de suas formas, segundo o grupo. Primeiro, a equipe do censo teria expulsado pessoas de regiões tipicamente habitadas pela população de rua (como o Minhocão e a cracolândia) antes de fazer as entrevistas. Segundo, teria desconsiderado pessoas vivendo em barracos de madeira debaixo de pontes e viadutos.

    O padre Julio Lancellotti, representante da Pastoral do Povo de Rua, afirmou também que a pesquisa de 2019 usou o mesmo itinerário do censo anterior, desconsiderando as mudanças espaciais da população de rua entre 2015 e 2019, segundo o jornal O Estado de S. Paulo.

    A secretária municipal de Assistência e Desenvolvimento Social, Berenice Giannella, disse à Folha que o método usado em 2019 foi o mesmo de censos anteriores. O coordenador-geral da pesquisa, Cristiano Luiz Rebello de Araújo, afirmou que o censo contava quem estava em situação “mais improvisada”. “Aquilo que estava construído, por exemplo, como um barraco, a pessoa não foi contada”, disse.

    Colaborou Lucas Gomes com os gráficos

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