Por que ‘Sujeito de sorte’ virou hino dos millennials engajados

Canção lançada em 1976 por Belchior foi redescoberta e ressignificada pelas novas gerações, estampando posts e produtos

    Voz anasalada, um volumoso bigode e letras influenciadas pela obra de Bob Dylan. Foi assim que Belchior se tornou figura do cenário musical brasileiro, surgindo publicamente em meados da década de 1970.

    Mais de quatro décadas depois do início de sua carreira – e quase três anos após sua morte – o “rapaz latino-americano” foi redescoberto por uma nova geração, que transformou parte de seus versos em hino dos tempos atuais.

    Das mais de 100 músicas produzidas por Belchior, uma delas acabou se destacando em meio à juventude do fim da década de 2010: “Sujeito de sorte”, quarta faixa do disco “Alucinação”, lançado em 1976 e considerado a obra-prima do cantor cearense.

    “Sujeito de sorte” ganhou proporções gigantes na internet: o Google apresenta 40.600 páginas que citam o verso “ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro” -- frase originalmente escrita pelo poeta paraibano Zé Limeira e parafraseada por Belchior.

    No Instagram, 1.223 publicações foram feitas com a hashtag “#AnoPassadoEuMorriMasEsseAnoEuNãoMorro” em janeiro de 2020. No Twitter, dezenas de milhares de publicações citam os mesmos versos da música.

    Fora do mundo virtual, “Sujeito de sorte” também ganhou destaque. Em São Paulo, o mesmo trecho da letra acabou batizando um bloco de carnaval que se faz presente nas festividades da cidade desde 2017.

    O verso estampou produtos, incluindo camisetas, cadernos e pôsteres, demonstrando como a canção caiu no gosto popular, com força renovada, 44 anos depois de ser lançada.

    Na própria indústria musical, “Sujeito de sorte” foi redescoberta e ressignificada. A canção de Belchior integra “AmarElo”, rap lançado por Emicida em junho de 2019. A cantora Letícia Letrux lançou, em janeiro de 2020, um cover da música, que também integra o repertório do músico Chico Chico, filho da cantora Cássia Eller.

    A composição de ‘Sujeito de sorte’

    Belchior compôs “Sujeito de Sorte” em 1973. Nessa época, o cantor vivia na capital paulista.

    “Ele morava em uns predinhos que existem perto do shopping Pátio Paulista, no centro de São Paulo”, afirmou ao Nexo Jotabê Medeiros, jornalista e autor de “Apenas um rapaz latino-americano”, biografia de Belchior lançada pela editora Todavia em 2017. “É um disco paulistano por excelência, as músicas são relacionadas a São Paulo”, disse Medeiros.

    Para exemplificar a influência paulistana nas músicas de “Alucinação”, o jornalista cita o exemplo da canção “Não leve flores”, que integra o lado B do disco.

    “A vereadora Irede Cardoso estava inaugurando uma casa e convidou o Belchior e a mulher dele para a inauguração. Ele passou nas floriculturas que existem do lado do Cemitério do Araçá [na zona oeste da capital] e comprou flores, e no caminho rabiscou essa música, ‘Não leve flores’. Cada música desse disco tem uma relação com São Paulo”, afirmou.

    Apesar de ter se tornado um sucesso recentemente, “Sujeito de sorte” não foi um dos maiores êxitos comerciais da carreira de Belchior. “Se você for ver, ‘Apenas um rapaz latino-americano’ e ‘Como nossos pais’, músicas dele que bombaram, são muito maiores”, disse ao Nexo o crítico musical Alexandre Matias, responsável pelo site Trabalho Sujo.

    O coro é engrossado por Kamille Viola, jornalista e crítica musical do blog Rio Adentro, parte do portal Urban Taste, do UOL. “Era um disco que tinha músicas que eram bem mais famosas, ou que não eram tão famosas, mas que cresceram com o tempo, como ‘A palo seco’, que os Los Hermanos gravaram no começo dos anos 2000”, afirmou ao Nexo.

    Apesar de não verem “Sujeito de sorte” como uma faixa significativa comercialmente na carreira de Belchior, os três enxergam a canção como uma das grandes obras do músico.

    Uma canção redescoberta e ressignificada

    Matias avalia que há duas razões principais para que “Sujeito de sorte” tenha sido redescoberta pelas novas gerações. A primeira delas envolve o retorno dos discos de vinil como tendência de consumo. “Muita gente voltou aos discos clássicos da música brasileira, com destaque aos discos dos anos 60 e anos 70. Isso foi decisivo”, avaliou.

    No primeiro semestre de 2019, somente nos EUA, foram vendidas 8,6 milhões de unidades de discos de vinil, gerando uma arrecadação total de US$ 224 milhões, um valor 12,8% maior do que o do mesmo período em 2018.

    A tendência não se limita aos EUA. No Brasil, não há números divulgados, mas o fato de que, em 2018, uma fábrica de discos tenha sido inaugurada em São Paulo demonstra que há demanda o suficiente para justificar a operação.

    O segundo fator, na visão de Matias, diz respeito a um diálogo da música, em vários níveis, com a situação sociopolítica atual do Brasil.

    “Esse verso é repetido várias vezes na história recente. Primeiro quando você tem o movimento para tirar a [ex-presidente] Dilma [Rousseff] do poder, a entrada do [ex-presidente Michel] Temer”, disse. “Quando a situação política do Brasil chegou à eleição do [presidente] Bolsonaro, esses versos ganharam ainda mais força, encontrando eco em diferentes bases da população.”

    Viola vê a letra de “Sujeito de sorte” como uma mistura de amargura e esperança, algo que, para ela, virou um slogan entre os jovens. “A gente tá vivendo um período de muito retrocesso, e essa música de Belchior fala de várias coisas com que a juventude acaba se identificando”, afirmou.

    Medeiros complementa, afirmando que “Sujeito de sorte” é uma música que, de certa forma, renova a fé de certos grupos em agir como um coletivo político ativo.

    O Belchior expressava nas suas músicas o desejo de que a América Latina tivesse um protagonismo e um senso de solidariedade, disse o jornalista. “E ‘Sujeito de sorte’ é isto, um ensino básico de que não é preciso se sujeitar à derrota, se acomodar na derrota, que é possível levantar e tentar de novo”, acrescentou.

    “Se você vai aos blocos de carnaval, quando chega o verso de ‘ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro’, as pessoas cantam como se fosse ‘o povo unido jamais será vencido’. Tem o mesmo sentido. Para a juventude, soa como um hino”, concluiu.

    Viola, que acredita que a música foi tão citada que acabou sendo gasta até certo ponto, acha que o fato de Belchior ter ficado desaparecido por alguns anos, alimentando um meme, também fez com que sua obra fosse redescoberta. “Foi algo que reacendeu o interesse nele”, disse.

    Em 2009, a frase “onde está Belchior?” ganhou o Orkut, principal rede social da época, e foi repetida à exaustão. Naquela época, o cantor estava longe dos holofotes, vivendo uma vida reclusa no Uruguai.

    Seu paradeiro foi descoberto após meses de difusão do meme, por meio de uma reportagem do Fantástico, da Rede Globo, que encontrou o sítio onde o músico vivia.

    “Eu não sou uma celebridade”, Belchior disse ao programa dominical. “Achei que [o meme] não tinha nenhuma relação comigo”, acrescentou. À época, o cantor disse que estava trabalhando em uma tradução de sua discografia para o espanhol, bem como em canções inéditas. Nenhum dos projetos foi lançado.

    Matias também acha que os anos de autoexílio de Belchior fizeram com que as novas gerações tivessem contato com sua música. “Pode-se dizer que ‘onde está Belchior?’ foi um dos primeiros memes da internet brasileira”, disse.

    Para Jotabê Medeiros, também houve uma ressignificação de “Sujeito de sorte” feita por seus diferentes intérpretes. “Há a coisa da superação pessoal”, disse. “Mas o Emicida, por exemplo, foi para outro lado, dando para a música o poder de exclusão da exclusão, deu voz para grupos que são excluídos, colocou também o contexto da depressão. Cada um foi para um lado, mas o substrato é o mesmo”, acrescentou.

    Belchior, apenas um rapaz latino-americano

    De fala mansa e vida reclusa, Antonio Carlos Belchior nasceu na cidade de Sobral, no Ceará, em 26 de outubro de 1946. Estudou filosofia, tentou o sacerdócio católico, desistiu e foi estudar medicina, abandonando o curso no quarto ano, em 1971, para tentar a carreira artística.

    Um ano depois, Elis Regina, a maior cantora de sua época, gravou uma das canções de Belchior: “Mucuripe”, que deu um impulso para o jovem aspirante a músico.

    O primeiro disco de Belchior, informalmente conhecido como “Mote e glosa”, chegou às lojas em 1974, mas seu sucesso só se consolidou dois anos depois, com a chegada de “Alucinação”, amplamente considerado sua obra-prima.

    Dentre suas músicas mais importantes estão “Como nossos pais”, “Apenas um rapaz latino-americano”, “Velha roupa colorida”, “Tudo outra vez”, “A palo seco” e “Comentários a respeito de John”.

    Belchior morreu no dia 30 de abril de 2017, aos 70 anos, em decorrência de uma aneurisma na aorta, a principal artéria do corpo humano.

    NOTA DE ESCLARECIMENTO: A primeira versão deste texto não trazia referência ao poeta Zé Limeira, autor da frase "morri no ano passado, mas esse ano eu não morro", parafraseada por Belchior. A informação foi acrescentada às 13h15 do dia 04 de fevereiro de 2020.

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