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Como a irreverência confronta a extrema direita na Itália

Coletivo nascido em Bolonha em 2019, ‘6.000 sardinhas’ se propõe a compactar milhares de manifestantes em locais públicos para protestar por uma política melhor

    A Itália viu nascer no dia 14 de novembro de 2019 um novo movimento popular chamado “6.000 sardinhas”. Em três meses, o grupo – que se diz espontâneo, sem liderança definida e articulado pelas redes sociais – ajudou a impôr algumas das maiores derrotas à extrema direita italiana.

    A iniciativa teve início com uma convocatória feita pelo Facebook. A ideia partiu de quatro amigos, todos na casa dos 30 anos: o economista Mattia Santori, o guia turístico Andrea Garreffa, o engenheiro Roberto Morotti e a fisioterapeuta Giulia Trappolini.

    O quarteto diz estar saturado com o discurso violento e preconceituoso que a nova extrema direita italiana impôs no cenário político do país – um discurso sob medida para chocar e causar engajamento nas redes sociais, marcado por ataques virulentos contra imigrantes e mensagens ultranacionalistas, num clima que muitas vezes faz lembrar o passado fascista que a Itália viveu sob o governo de Benito Mussolini (1922-1943).

    A primeira reunião em Bolonha

    Para começar, o grupo convocou um primeiro flashmob (mobilização relâmpago). A expressão se refere às convocatórias feitas de maneira inesperada pelas redes sociais ou cadeias de mensagens, nas quais pessoas não necessariamente ligadas entre si convergem para um local público determinado e, numa hora marcada, interagem numa performance surpreendente.

    O nome “sardinhas” tinha uma razão de ser – assim como acontece com as latas do peixe em conserva, os quatro autores da convocatória também pretendiam espremer 6.000 pessoas num flashmob na Piazza Maggiore, na cidade italiana de Bolonha.

    A performance das sardinhas na Piazza Maggiore ocorreria ao mesmo tempo em que Lucia Borgonzoni, candidata do partido de extrema direita Liga, estaria fazendo seu comício de campanha pelo governo da região da Emília-Romana, em outro ponto da mesma cidade.

    A ideia era rivalizar – em número de participantes e na qualidade das mensagens – com o discurso que estaria sendo feito pela candidata da extrema direita.

    A convocatória das sardinhas teve tanto sucesso que o número de participantes foi mais que o dobro do esperado. Em vez de 6.000 pessoas, o grupo conseguiu reunir ao redor de 15 mil.

    O hino antifascista e as reuniões cada vez maiores

    Sob chuva e espremidas na Piazza Maggiore, milhares de sardinhas entoaram Bella Ciao, um canto de trabalho da região da Emília-Romana do século 19, convertido em hino informal da resistência contra o fascismo italiano na Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

    O flashmob em Bolonha gerou milhares de vídeos, fotos e textos postados em redes sociais, que, em efeito cascata, multiplicaram o alcance da mensagem, e terminaram por engajar novas sardinhas em outras partes do país.

    Depois de Bolonha, vieram mobilizações semelhantes, como a realizada quatro dias depois, na Piazza Grande, da cidade de Modena, com aproximadamente 7.000 novas sardinhas. O número de participantes não parou de crescer nos dias seguintes, com mobilizações realizadas em Florença, Milão, Nápoles, Palermo e, finalmente, em Roma, no dia 14 de dezembro, com a presença de 100 mil pessoas.

    As sardinhas italianas inspiraram movimentos semelhantes, com o mesmo nome, mas em escala muito menor, em países europeus como a França, a Bélgica e a Alemanha – locais em que também cresce o discurso ultranacionalista da nova extrema direita.

    O resultado político-eleitoral

    A conquista das sardinhas não é medida apenas pelo número de participantes, mas principalmente pelas dificuldades reais que o grupo considera ter imposto à Liga até aqui.

    A candidata da extrema direita ao governo da Emília-Romana foi derrotada na eleição de 26 de janeiro. Lucia Borgonzoni, da Liga, teve 43,7% dos votos. O candidato vencedor, Stefano Bonaccini, do PD (Partido Democrático), de centro-esquerda, teve 51,4%.

    Mas o mais surpreendente nesta eleição foi o crescimento no número de eleitores, que passou de 29,9% na eleição anterior, de 2014, para 76,7% nesta eleição, de 2020 – um salto de engajamento que as sardinhas reivindicam para si.

    A Emília-Romana era a peça mais importante nos planos que a Liga tinha para voltar a governar o país. O líder do partido, Matteo Salvini, havia anunciado que uma vitória da Liga na região – tradicionalmente, um reduto de esquerda – o faria forçar a convocação de novas eleições nacionais, para desafiar o PD. Mas o plano foi frustrado.

    As perdas e ganhos de Salvini

    A extrema direita fracassou em seu objetivo mais cobiçado, a Emília-Romana, mas também colecionou algumas vitórias. Mesmo derrotada, a sigla teve nesta eleição um crescimento de 11% no número de votos recebidos na região.

    Antes, em 27 de outubro, a Liga havia celebrado a vitória, com 57% dos votos, na Umbria, região que vinha sendo governada pela esquerda nos últimos 50 anos. Além disso, o partido de Salvini também venceu na Calábria, com 55% dos votos, em janeiro.

    A Liga – que esteve no governo nacional (2018-2019) e pretende voltar a ele – teve o melhor desempenho em toda a Itália nas eleições para o Parlamento Europeu, realizadas no dia 23 de maio, quando a legenda conseguiu 34% dos votos.

    Uma esquerda não declarada

    O jogo das sardinhas não é declaradamente de esquerda, mas seu efeito prático é inegável: o coletivo tornou-se mais um ponto de resistência contra Salvini, o que, na prática, favorece o PD, de centro-esquerda.

    Em seus manifestos e discursos, os fundadores recorrem a muitas metáforas com o mar, as sardinhas, as correntes e a navegação, fazendo conexões de qualidade literária duvidosa para passar suas mensagens políticas.

    Em vez dos manifestos duros da esquerda tradicional – contra o neoliberalismo, a burguesia e o capital –, as sardinhas falam de mágica, sonhos e emoções. “Há uma luz nos olhos das pessoas que tem alguma coisa de mágica”, diz Santori, um dos fundadores do grupo. “Muitas pessoas vêm nos dizer que já não se sentem mais sozinhas, que redescobriram seu papel na sociedade, um interesse pela política. São católicos, homossexuais, antifascistas, feministas – pessoas que partilham valores de esquerda, mas não necessariamente – que se unem numa mesma mensagem contra as ideias simplistas e de violência oferecidas pelo populismo.”

    Nadando no vasto mar do populismo

    Para alguns analistas políticos, as sardinhas são um sopro de renovação num cenário que vinha se tornando perigoso para a democracia, num momento em que 15% dos italianos dizem não acreditar que tenha havido um holocausto na Segunda Guerra, contra 4% que diziam o mesmo há 16 anos.

    Para outros, a falta de lideranças claras e de uma plataforma política mais definida pode levar à instrumentalização do movimento por outros partidos, ou à sua simples extinção.

    De qualquer forma, há espaço na sociedade italiana para movimentos de contestação à política tradicional. Foi dessa forma que nasceu em 2009 um movimento chamado 5 Estrelas, que prometia dar vazão à indignação popular, sem inclinação ideológica definida.

    O 5 Estrelas se uniria, primeiro, com a Liga, de extrema direita, e, em seguida, com o PD, de centro-esquerda, provando que dizia a verdade quando afirmava não se importar com colorações ideológicas.

    Hoje, o 5 Estrelas é um movimento rachado. Metade de seus seguidores defende que o partido mantenha-se aliado ao PD no governo nacional. Outra metade prefere seguir como um grupo de contestação. É essa metade contestadora que pode terminar aderindo a novos movimentos como o das sardinhas, num ecossistema político que abre cada vez mais espaço para grupos que se dizem espontâneos, horizontais e articulados pelas redes.

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

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