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Epidemias e zumbis: quando os vírus são vilões na cultura pop

Emergência do coronavírus despertou interesse por obras que retratam pandemias globais. Filmes, jogos, livros e HQs usam tema para contar histórias realistas e como pano de fundo para o sobrenatural

A emergência internacional do coronavírus na Ásia reacendeu o interesse do público em obras da cultura pop que retratam epidemias.

No iTunes, plataforma da Apple que inclui aluguel e compra de filmes digitais, o longa “Contágio”, de 2011, entrou na lista dos mais procurados pelos usuários na terça-feira (28).

“Contágio”, dirigido por Steven Soderbergh (“11 homens e um segredo”), conta a história de uma mulher que, após voltar de uma viagem a Hong Kong, começa a apresentar sintomas semelhantes ao da gripe. A situação se agrava quando pessoas ao redor dela começam a sofrer com os mesmos sintomas, e o que aparentava ser algo corriqueiro acaba se tornando uma crise global.

Já nos videogames, “Plague Inc.” se tornou o jogo de celular mais baixado na China, epicentro da crise do coronavírus. No game, o jogador assume o papel de um vírus e precisa traçar estratégias para contaminar e posteriormente dizimar toda a humanidade.

O jogo foi criado em 2012 e é considerado uma ferramenta educacional por contar com um modelo matemático que simula de forma realista uma epidemia global. Em 2013, um dos criadores do game foi convidado para palestrar publicamente no Centro de Controle de Doenças dos EUA.

As epidemias em 5 obras da cultura pop

As obras de ficção que retratam epidemias podem ser divididas em duas subcategorias: as que tentam criar uma trama realista e dentro dos limites científicos, como “Contágio”, e aquelas que partem da ideia de uma epidemia para contar histórias sobre criaturas sobrenaturais, como “Madrugada dos mortos”, de 1980.

“Epidemia”, filme de 1995

Protagonizado por Dustin Hoffman (“Todos os homens do presidente”) e dirigido pelo alemão Wolfgang Petersen (“Força aérea um”), o longa conta a história de um vírus que passa a contaminar uma pequena cidade dos EUA.

O vírus chegou ao país por meio de um macaco importado ilegalmente da África, e cabe a um grupo de médicos, liderado pelo personagem de Hoffman, correr contra o tempo antes que a situação se torne uma catástrofe global.

No Rotten Tomatoes, site que agrega críticas de veículos de comunicação do mundo todo, o filme tem 57% de aprovação.

“Resident evil”, jogo de 1996

Uma das franquias mais populares dos videogames, “Resident evil” conta a história de um vírus criado pela empresa Umbrella Corp. que transforma os infectados em zumbis raivosos.

Em meio à crise atual do coronavírus, espalhou-se na internet uma notícia falsa dizendo que uma das empresas que estudavam o vírus tinha o logotipo idêntico ao da Umbrella. Apesar de a empresa chinesa cujo logo foi compartilhado ser do ramo da biotecnologia, ela não está estudando a epidemia.

A franquia “Resident evil” já vendeu 80 milhões de unidades globalmente e virou uma série de seis filmes, além de render quatro animações.

“Extermínio”, filme de 2002

Dirigido por Danny Boyle (“Trainspotting”), o longa retrata uma praga que transforma boa parte da humanidade em zumbis raivosos.

O filme vai acompanhar um grupo de sobreviventes de Londres que precisa achar uma forma de sobreviver e chegar a uma fortaleza militar localizada na cidade de Manchester, a cerca de 330 km de distância da capital britânica.

No Rotten Tomatoes, “Extermínio” tem 86% de aprovação.

“The walking dead”, HQ de 2003

Criada pelo roteirista Robert Kirkman e desenhada pelo artista Charlie Adlard, “The walking dead” conta a história de uma epidemia que se espalhou pelos EUA, transformando os infectados em zumbis.

A trama acompanha o policial Rick Grimes, que entrou em coma antes da crise e acordou no meio dela. Ele partirá em busca de seus familiares e de uma forma de sobreviver.

A HQ nunca deixa claro qual é a origem dos zumbis, mas mostra que a crise tomou grandes proporções. Em 2009, “The walking dead” virou uma série de TV que originou outros dois programas derivados. A HQ também foi adaptada em quatro jogos de videogame, 11 livros e um jogo de tabuleiro.

“REC”, filme de 2008

A produção espanhola dirigida por Paco Plaza e Jaume Balagueró conta a história de Angela Vidal (Manuela Velasco), uma repórter de um telejornal de Barcelona que acompanha o trabalho do corpo de bombeiros da cidade por uma noite.

Quando uma idosa se machuca em um dos prédios do centro da cidade, os bombeiros são acionados, e Vidal acompanha-os até o local. Chegando lá, o grupo percebe que o incidente está relacionado a um vírus misterioso que transforma os infectados em zumbis raivosos.

A situação faz com que o prédio seja quarentenado, com a repórter, os bombeiros e os moradores, para que o vírus não contamine mais pessoas.

“REC” teve três continuações, bem como um remake americano intitulado “Quarentena”. No Rotten Tomatoes, o filme tem 89% de aprovação.

Por que as epidemias são recorrentes na cultura pop

Para Peter Dendle, professor de tradições folclóricas na Universidade Penn State, nos EUA, as histórias de epidemias zumbi são uma espécie de termômetro para as ansiedades da sociedade.

“O zumbi começou como uma metáfora para o trabalhador explorado nas economias industriais”, afirmou Dendle em artigo científico publicado em 2007 pela revista Brill de ciências humanas. “Ao longo das décadas marcadas por preocupações ambientais, conflitos políticos, o aumento do consumismo e a transformação do corpo humano em commodity para a biomedicina contemporânea, a criatura serviu como uma forma de articular essas e outras ansiedades”, disse.

Todd K. Platts, professor de sociologia da Universidade do Missouri, endossa a visão de Dendle no artigo “Locating zombies in the sociology of popular culture” (localizando os zumbis na sociologia da cultura popular), publicado pela revista Sociology Compass em 2013.

“Os zumbis falam sobre medos que são inerentes ao ser humano, mas também de medos específicos de cada época”, afirmou Platts. “Se produtos culturais não se articularem de maneira próxima com as ambientações sociais, provavelmente eles serão categorizados como ‘irrelevantes’, ‘irrealistas’ e ‘artificiais’”, disse.

Platts diz que as obras sobre zumbis do século 21 são marcadas pelo fato de que, na maioria dos casos, a grande ameaça é a falta de cooperação entre os sobreviventes e a desconfiança que nutrem uns pelos outros – uma ameaça que, segundo ele, costuma ser maior do que os próprios zumbis. Ele relaciona essas questões com eventos como os ataques de 11 de setembro de 2001 e o furacão Katrina, de 2006.

O jornalista especializado Pablo Miyazawa, editor do portal Adoro Cinema, acha que os filmes de zumbis podem até nascer na cabeça de seus criadores como uma metáfora, mas normalmente chegam ao público somente como espetáculo.

“São muitas camadas de interpretação que uma história precisa atravessar para chegar como metáfora”, disse ao Nexo. “Hoje eu vejo só como um gênero, que encontrou seu público”, afirmou.

Do ponto de vista psicológico, Lee Weiser, professora do departamento de psicologia da Universidade de Antioch, no estado de Seattle, o fascínio pelas histórias de zumbis está no medo que a humanidade sente de perder completamente seu poder de decisão individual.

“Os zumbis personificam a perda da vontade e o desempoderamento”, afirmou Weiser no artigo “The zombie archetype” (o arquétipo zumbi), publicado em 2015 pela revista Psychological Perspectives. Para ele, o medo da morte também é um fator que faz com que o público busque esse tipo de narrativa.

O crítico de cinema Rodolfo Castrezana, responsável pelo canal de YouTube Nerd Rabugento, diz acreditar que a evolução da caracterização dos zumbis está diretamente ligada à velocidade com que a sociedade se relaciona com a informação.

“Na época dos filmes do [cineasta americano] George Romero, os zumbis eram lentos. Aí nos anos 2000 veio o Danny Boyle com ‘Extermínio’ e colocou os zumbis correndo. Definitivamente tem relação com a forma como lidamos com a velocidade e a quantidade de informações”, disse ao Nexo.

Castrezana avalia que o interesse do público pelos filmes de zumbi se dá porque eles sempre envolvem a morte, “e a morte ativa a curiosidade das pessoas”.

Já Miyazawa diz acreditar que o pico de interesse de filmes como “Contágio” em meio à crise do coronavírus se deu porque, mesmo que a situação tenha sido categorizada como uma emergência global, ainda é algo que parece distante do público, gerando apenas um medo controlado na maioria dos espectadores.

“Quanto mais real a situação ficar, eu acho bem possível que as pessoas percam o interesse por essas histórias. Elas vão ficar apavoradas”, avaliou. “Esses filmes só têm apelo porque o público tem certeza de que aquilo não vai acontecer”, concluiu.

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