Como vivem os 56 milhões de chineses isolados pelo coronavírus

Moradores da província de Hubei completam quase dez dias de uma quarentena marcada por tédio, preconceito e paranoia

    Desde o dia 23 de janeiro, 56 milhões de moradores da província de Hubei, no leste da China, são mantidos isolados do restante do mundo. A região é o epicentro do surto do 2019-nCov, uma variável do coronavírus altamente contagiosa.

    Na quinta-feira (30), a OMS (Organização Mundial da Saúde) declarou estado de “urgência de saúde pública em escala internacional”, com o número de mortos chegando a 213, entre 9.883 pessoas infectadas em mais de 20 países.

    Esse mesmo nível de alerta já havia sido decretado antes, pela OMS – em 2009 num surto de H1N1, em 2014 num surto de pólio, em 2016 num surto de zika e duas vezes, em 2014 e 2019, em surtos de ebola.

    O alerta em “escala internacional” significa que o risco de propagação da doença já não está mais restrito à China e a alguns poucos países próximos, podendo se alastrar mundo afora.

    A província de Hubei – e mais precisamente sua capital, Wuhan – tornou-se conhecida internacionalmente a partir de 31 de dezembro, quando o governo local informou sobre os primeiros casos da doença, que haviam sido detectados, na verdade, 15 dias antes.

    Mapa mostra localização de Wuhan

    Desde então, a região foi colocada em quarentena – sua população é maior que a de estados como São Paulo, Rio e Minas, os mais populosos do Brasil. O aeroporto de Wuhan, que tem voos diretos para as principais capitais do mundo, foi fechado. Trens e rodovias, bloqueadas. A polícia montou barreiras de controle nos pontos de entrada e saída da região.

    Em diversas cidades do mundo, começaram a eclodir casos de contaminação envolvendo pessoas que tinham passado recentemente pela região de Hubei. Para as autoridades sanitárias, isolar toda essa zona era uma medida estratégica urgente.

    Já para os moradores de Hubei – a imensa maioria, não contaminada – a quarentena deu início a um período de isolamento, estigmatização e paranoia, marcada por boatos, estocagem de alimentos e disputa por máscaras nos locais de comércio.

    O azar do Ano Novo Chinês

    Para azar dos moradores de Hubei, o surto do 2019-nCov teve início justamente às vésperas do Ano Novo chinês, cuja celebração começa em 25 de janeiro, com um feriado que dura a semana inteira.

    Nessa época do ano, milhares de chineses que vivem no exterior regressam ao país, para passar a festa em família. Muitas famílias chegaram a Hubei logo na hora em que foram registrados os primeiros casos, e acabaram impedidas de ir embora.

    No Ano Novo, é comum que vizinhos façam visitas de cortesia entre si, trocando presentes como chás e frutas secas. Esse costume tradicional é conhecido como bainian. Mas, em 2020, nenhum contato é possível. As famílias permanecem trancadas em casa o quanto puderem, evitando interagir com quem quer que seja.

    O jornal francês Le Monde trouxe na sexta-feira (31) alguns relatos de cidadãos sino-franceses que ficaram retidos em Hubei, ou que preferiram permanecer com suas famílias depois de terem viajado à região para a cerimônia de Ano Novo. Embora o governo da França tenha oferecido voos de resgate, alguns cidadãos preferiram ficar.

    Uma dessas pessoas entrevistadas por telefone, chamada Shiqi, de 28 anos, contou um episódio ilustrativo do clima que impera na região. “Há um caso suspeito no meu condomínio. Eu saí de casa uma vez, dois dias atrás, para receber uma encomenda. Quando voltei, peguei elevador com um homem de aproximadamente 50 anos. Ele não estava usando máscara. Quando cheguei em casa, joguei meu casaco no chão e lavei todas as minhas coisas, tomei banho, numa desinfestação completa”, contou a jovem.

    Na capital regional, Wuhan, as ruas estão desertas. As pessoas não saem de casa, com exceção de entregadores de encomendas e de comida pronta, que cuidam do trânsito de todo tipo de material que os próprios moradores não ousam sair para buscar.

    O pânico piora com a circulação pela internet de imagens como a que mostra um homem de meia-idade, portando máscaras e segurando sacolas de compras, morto numa calçada. Muitos consideram que essas imagens mostram que o número real de casos é maior que o contabilizado oficialmente. Mas, num regime fechado como o chinês, é mais difícil saber.

    A falta de máscaras nos mercados locais tem levado moradores da província de Hubei a improvisar. Sutiãs e absorventes íntimos são presos com elásticos contra a boca e o nariz, na tentativa de impedir a propagação do vírus. Alguns colocam grandes galões de água sobre a cabeça, ou usam até mesmo sacos plásticos.

    Cantorias na janela

    Para driblar o isolamento, moradores de cidades como Wuhan passam o dia falando ao telefone com parentes, vendo notícias na televisão ou jogando videogame em conexão com amigos distantes.

    O tédio também leva os jovens a fazerem vídeos caseiros, às vezes satirizando a própria situação. Famílias organizam competições de ping-pong ou brincam de acertar argolas no gargalo de garrafas para se distrair.

    Em alguns bairros, moradores saem nas janelas e nas sacadas dos prédios para entoar canções chinesas tradicionais de solidariedade e encorajamento, algumas delas em formato de chamado e resposta.

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

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