Como ficou o emprego em 2019. E o que esperar de 2020

Média anual de desocupação foi de 11,9%. Especialistas divergem quanto à avaliação do ano e às perspectivas do mercado de trabalho para o ano que começa

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    O desemprego no último trimestre de 2019 foi de 11%, segundo dados divulgados na sexta-feira (31) pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Os números do mercado de trabalho são coletados pela Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), pesquisa divulgada a cada mês e que abrange um grupo representativo da população brasileira.

    O desemprego de 11% representa quedas de 0,8 ponto percentual em relação ao trimestre anterior e 0,6 ponto percentual em relação ao último trimestre de 2018. Com o balanço, a média do desemprego em 2019 ficou em 11,9%. Em 2018, essa taxa havia sido de 12,3% – a queda, portanto, foi de 0,4 ponto percentual.

    EVOLUÇÃO EM QUATRO ANOS

    No dia 24 de janeiro de 2020, o Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) já havia divulgado o saldo do emprego formal em 2019. Segundo o cadastro ligado ao Ministério da Economia, o Brasil criou 115 mil mais novos postos formais em 2019 do que em 2018.

    644 mil

    é o número de postos formais criados no Brasil em 2019, segundo o Caged

    Formalidade e informalidade

    O balanço do Caged mostrou que o saldo do emprego formal em 2019 foi o melhor desde 2013. Entre 2015 e 2017, o Brasil perdeu 2,9 milhões de postos de carteira assinada. Na combinação de 2018 e 2019, foram recuperados 1,2 milhão dessas vagas. O saldo total da segunda metade da década de 2010, portanto, foi negativo.

    1,7 milhão

    foi o total de empregos formais perdidos no Brasil no quinquênio 2015-2019

    EVOLUÇÃO NA DÉCADA

    Saldo de vagas formais no Brasil, em milhares. Queda gradual de 2010 a 2014, até ficar negativa em 2015 até 2017. Em 2018 e 2019, recuperação gradual

    Mesmo tendo criado centenas de milhares de vagas formais em 2019, isso não significa que a informalidade tenha diminuído. Isso porque mais empregos informais foram gerados ao longo do ano.

    Cinco categorias diferentes de trabalho se enquadram dentro do conceito de trabalho informal, conforme classificado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). São elas:

    • Emprego por conta própria sem CNPJ registrado. É o caso dos motoristas de aplicativos de transporte
    • Emprego sem carteira de trabalho no setor privado
    • Emprego doméstico sem carteira de trabalho
    • Emprego como familiar auxiliar, que ocorre quando a pessoa trabalha ajudando parentes na profissão
    • Trabalho como empregador sem CNPJ registrado, como é o caso de microempreendedores não registrados que contratam auxiliares (podem ser pedreiros ou ambulantes)

    Os números do IBGE revelaram que, na média total do ano, 2019 registrou nova alta no trabalho informal. O crescimento do emprego não registrado nos 12 meses do ano foi de 0,3 ponto percentual em relação a 2018.

    41,1%

    foi a parcela da população ocupada que trabalhou na informalidade em 2019

    Os números indicam, entretanto, uma desaceleração do crescimento da informalidade no Brasil. Isso porque, entre 2016 e 2018, a informalidade cresceu em ritmo mais elevado do que em 2019.

    INFORMALIDADE EM ALTA

    Porcentagem da população ocupada: trabalho formal e informal. Entre 2016 e 2019, crescimento da proporção de empregos informais

    O trabalho por conta própria

    Um dos principais traços do emprego brasileiro em 2019 foi o recorde de pessoas trabalhando por conta própria. Foram, na média total do ano, 24,2 milhões de pessoas trabalhando nessa categoria. Isso inclui tanto aqueles trabalhadores registrados – como os MEIs (microempreendedores individuais) – como os informais, como quem trabalha com aplicativos de entrega. Desse total, cerca de 80% estavam empregados informalmente.

    Conta própria

    Pessoas trabalhando por conta própria no Brasil, por trimestre. Crescimento considerável no número entre 2016 e 2019

    19,3 milhões

    foi a média de pessoas trabalhando por conta própria sem CNPJ em 2019

    O rendimento médio

    Os números divulgados em janeiro de 2020 pelo Caged mostraram que, apesar do aumento do emprego formal em 2019, o salário não teve alta correspondente. A diferença entre o salário médio de quem é demitido de uma vaga formal e quem é admitido cresceu ao longo do ano, já descontada a inflação dos valores.

    DIFERENÇA AUMENTANDO

    Evolução do salário médio real no emprego formal no desligamento e na admissão. Diferença aumentou em quase 50 reais ao longo do ano: da faixa dos 170 para 220

    Um levantamento do jornal O Globo com os números do Caged mostrou que o Brasil não cria postos formais com rendimentos médios acima de dois salários mínimos desde 2006.

    Ao mesmo tempo, os dados do IBGE corroboram a tese de que a renda mostrou pouca evolução em 2019. A média real anual do rendimento do trabalho foi de R$ 2.330 – o aumento em relação a 2018 foi de apenas 0,4%. Os salários, portanto, praticamente não oscilaram.

    ESTÁVEL

    Rendimento médio real do trabalho em 2019. Na faixa dos 2.330 reais ao longo de todo o ano

    Duas análises sobre o emprego no Brasil

    O Nexo conversou com dois economistas para entender qual diagnóstico pode ser feito do emprego em 2019 e quais as perspectivas para 2020.

    • Renan Pieri, professor de economia da FGV (Fundação Getulio Vargas)
    • Guilherme Mello, professor de economia da Unicamp

    Podemos dizer que o ano de 2019 foi bom para o emprego no Brasil?

    Renan Pieri ​​​​Temos que tentar entender o contexto dos últimos anos. Perdemos uma quantidade enorme de empregos em 2015 e 2016. Em 2017 o mercado de trabalho ficou praticamente estável: as demissões pararam, mas as contratações foram muito poucas. Em 2018 há um ensaio de uma recuperação, mas ainda muito lenta. A taxa de desemprego oscilava – ora diminuía, ora crescia. E 2019 já é positivo nesse contexto, na ideia de que foi o primeiro ano desde 2014 em que consistentemente geramos mais empregos. Podemos dizer que a economia, aos trancos e barrancos, começou a aquecer e diminuir um pouco a taxa de desemprego.

    Em termos de renda, há muitos desempregados no mercado, uma massa de desempregados muito grande – e mais, você tem ainda um estoque de desalentados também muito grande. O fato de ter gerado mais empregos não significa necessariamente ter mais renda. A gente sabe que a remuneração do trabalhador depende de uma série de fatores: da participação dele, mas também depende das condições de mercado. Se tem muita gente querendo trabalhar, então você não deve esperar um aumento expressivo da renda. A renda está crescendo, mas está crescendo pouquinho.

    Guilherme Mello Quando se fala em bom ou ruim, tem que se pensar em relação a quê. Em relação a 2017 e 2018, e em particular 2015 e 2016, quando houve a recessão, [2019] foi um ano melhor. Em relação ao que o Brasil pode ter e precisa ter de geração de empregos, aí não acho que é possível falar em um bom ano. Nós temos uma quantidade de pessoas desempregadas e subempregadas muito elevada. Quando olhamos para além do número de quantidade de empregos e começamos a olhar para a qualidade do emprego, é ainda mais difícil falar que foi um ano bom, porque, apesar de você ter gerado mais empregos que em 2017 e 2018, os empregos gerados foram de qualidade bastante baixa.

    Estamos destruindo vagas com salário maiores e criando novas vagas com salários menores. Há um nível de informalidade muito elevado e um crescimento de formas mais precarizadas de trabalho – tanto as tecnológicas, como Uber e Rappi, mas também de outras formas criadas pela reforma trabalhista, como trabalho por tempo parcial ou intermitente. O sujeito oficialmente está empregado, mas o rendimento dele é muito baixo, pode ser inferior a um salário mínimo.

    Do ponto de vista da qualidade do emprego, há um problema que é grave, persiste e que reflete também a estrutura produtiva e o crescimento da economia brasileira. É uma economia que cresce muito pouco depois da maior recessão da sua história. E essa economia em depressão, quando gera emprego, gera em setores de baixa produtividade e baixa remuneração.

    Quais são as perspectivas para o emprego em 2020?

    Renan Pieri ​​​​Neste ano [2019], batemos recordes de informalidade – o mercado informal já gerava a maior parte das vagas em 2018, e em 2019 não foi diferente. Houve um aumento maior de trabalhadores por conta própria do que de trabalhadores formais. O trabalho informal ainda é mais relevante que o trabalho formal, mas você tem como um fato positivo a retomada do emprego formal.

    Foram mais de 640 mil vagas no ano, segundo os dados do Caged, o que é uma boa notícia. É claro que ainda é pouco perante o total de desempregados – ainda é menor que o total de empregos informais gerados, mas isso representa um investimento maior das empresas. O trabalho formal, como tem todas as garantias legais, tem um custo maior de contratação e demissão. Então as empresas só realizam os investimentos que geram os trabalhos formais se elas tiverem mais confiança na economia.

    Nesse sentido, devemos esperar uma continuidade desse processo de redução da taxa de desemprego em 2020. A questão é a velocidade: não dá para saber exatamente qual será. Vivemos um momento de maior otimismo. O Brasil tem excelentes oportunidades de investimentos. Então tudo isso pode levar a um crescimento mais rápido do emprego em 2020.

    Guilherme Mello Quando um economista faz previsões, mesmo que seja para poucos meses, há um risco grande de errar porque a economia muda muito rapidamente. Feita essa ressalva, a tendência que observamos é a seguinte: a economia provavelmente vai crescer um pouco mais em 2020 do que cresceu em 2019. Em 2019, a taxa de crescimento vai ser a mesma ou muito próxima das taxas de 2017 e 2018 – próxima a 1%. É uma economia que está quase estagnada depois de uma recessão, ou seja, é uma situação muito grave.

    Em 2020, há uma expectativa de crescimento um pouco maior, em torno de 2%. Ele pode se confirmar, evidentemente, a depender das condições externas, das condições políticas domésticas e, fundamentalmente, da capacidade que o governo terá de repetir alguns fatores que empurraram o crescimento em 2019. Em 2019, no fim do ano, houve uma injeção muito grande de recursos na economia por meio do FGTS e dos recursos do pré-sal que foram para os governadores, que pagaram salários, despesas e custeios. Isso não vai se repetir em 2020. Ou vai se repetir num volume menor, provavelmente.

    Mesmo que haja um crescimento de 2% ou 2,5% [do PIB], o crescimento do emprego vai continuar no mesmo padrão. Ele pode até acelerar um pouco, mas a qualidade tende a permanecer baixa: empregos de baixa produtividade, com salário baixo, crescentemente precarizados e com uma grande concentração em empregos informais. A tendência é que a qualidade não mude porque não há à vista nenhuma transformação estrutural da economia brasileira. O que pode acontecer é uma pequena aceleração na redução da desocupação. Mas continua sendo absolutamente insuficiente para as necessidades de um país que está em uma situação tão delicada quanto a brasileira.

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