Como estas redes de fast-food tratam frangos

Relatório classificou como ‘ruim’ ou ‘muito ruim’ maneira como seis de nove empresas lidam com os animais. Domino’s Pizza América zerou todos os critérios

Pelo segundo ano, a Proteção Animal Mundial (World Animal Protection) divulgou o relatório “Botando ordem no galinheiro 2020”, que verifica como grandes redes de fast-food se preocupam com o bem-estar de seus frangos de corte.

No material publicado em 15 de janeiro de 2020, foi analisada a atuação de nove empresas em diversos países, incluindo o Brasil, que podiam ser classificadas de “muito ruim” a “muito bom”.

Entre elas, seis ficaram entre “muito ruim” e “ruim”. A Domino’s Pizza América zerou a pontuação, e empresas como McDonald’s, Pizza Hut e Burger King registraram piora no tratamento em relação a 2019.

60 bilhões

é o número de frangos criados globalmente para consumo em 2019, segundo a Proteção Animal Mundial

5,7 bilhões

é o número de frangos abatidos no Brasil entre o último trimestre de 2018 e o terceiro trimestre de 2019, segundo o IBGE. O país é o maior exportador de frango do mundo

Os critérios para a organização do ranking são reflexo dos compromissos e prazos que as empresas definiram para garantir a melhora do bem-estar dos frangos, e também de relatórios de progresso de cada uma delas.

Com isso, o melhor resultado foi o do KFC, que em 2019 assinou o Better Chicken Commitment, um compromisso desenvolvido por algumas das principais organizações de proteção e bem-estar animal do mundo para melhorar a vida de frangos de corte. Seguido por mais de 140 empresas, como Nestlé e Unilever, o comprometimento do KFC para seis países europeus contou para a melhora no ranking.

Já as franquias americanas e canadenses do Starbucks e Subway, signatárias de anos anteriores e classificadas no relatório como “começando” [os trabalhos], ficaram estagnadas se comparadas a 2019.

No Brasil, nenhuma das nove empresas se comprometeu a trabalhar pela melhora do bem-estar dos frangos de corte. Para o país, foi avaliada também a atuação da rede brasileira Habib’s, que zerou todos os critérios.

Ao Globo Rural, o Burger King afirmou que se compromete com cuidados para criação de galinhas de ovos. As demais empresas foram procuradas mas não responderam. Já a Pizza Hut informou à Proteção Animal Mundial ter adotado compromisso com bem-estar de frangos na Europa, o que deve aparecer no relatório de 2021.

Como é a criação de frango de corte

São três os tipos de criação de frango: extensiva, semi-intensiva e intensiva. No primeiro sistema, os animais são criados soltos e alimentados em regime de pastejo. Em muitos casos, a criação é usada para aproveitar espaços ociosos de propriedades de famílias que desejam apenas vender o que não consomem. O uso de galpões é restrito a dias de chuva ou abrigo contra predadores durante a noite.

O sistema intensivo funciona em escala industrial, com os animais reunidos dentro de um galpão até o momento do abate. Há também um controle de vacinação, ração balanceada e equipamentos mais tecnológicos que visam ao melhor aproveitamento financeiro da produção. Por fim, no semi-intensivo, há uma combinação dos dois modelos, alinhando tecnologia com criação solta.

O mais recomendável para o bem-estar dos frangos é o sistema extensivo, mas, como explicou ao Nexo Paola Rueda, coordenadora de animais de fazenda da Proteção Animal Mundial, as empresas brasileiras têm se adequado a um padrão mais americano, intensivo, fechado e totalmente dependente de energia elétrica.

42,6 kg

foi o consumo médio por habitante ao ano no Brasil, em 2019

1,75 kg

foi o rendimento médio de carne para cada frango abatido em 2019. Esse número corresponde a 75% (proporção dada por Paola Rueda) do peso médio da carcaça, que foi de 2,34 kg em 2019

Os estabelecimentos avícolas já precisam seguir padrões sanitários e ambientais estipulados pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, entre eles, análise microbiológica da água, sistemas de ventilação, descarte adequado de carcaças e práticas para dessecação rápida de fezes.

Inclusive, muitas empresas usam o sistema “todos dentro todos fora” (do inglês all-in all-out), em que as instalações são ocupadas e desocupadas por todas as aves ao mesmo tempo. A prática, que permite melhor higienização e manutenção do aviário, também garante o melhor desenvolvimento das aves, que precisam de temperaturas diferentes de acordo com a semana de vida. Com todas crescendo juntas, a temperatura pode ser padronizada.

Essas medidas podem evitar que os frangos contraiam patogênicos, que, em última análise, afetam também as pessoas. Já quando os abusos dizem respeito apenas ao bem-estar dos animais, Paola Rueda explicou que a população não entende bem a crueldade por trás da busca pelos menores custos. “Tanto na produção de ovos quanto na de suínos são mais evidentes os problemas, pois você vê o animal dentro de uma gaiola”, diz. E por isso, nessas produções, os repositórios já estão sendo superados.

A seguir, o Nexo elenca os principais abusos denunciados por organizações de proteção animal pelo mundo:

Luz artificial

Para acelerar o crescimento, produtores costumam manter luzes acesas 24h por dia. Sem longos períodos de descanso, o nível de estresse e pânico cresce, e até comportamentos como ciscar e bicar ficam prejudicados. O que as organizações pedem é que os frangos tenham pelo menos seis horas contínuas de escuro por dia.

Falta de estímulos

Evitando custos, os longos galpões são preenchidos apenas de frangos. Enriquecimentos baratos como poleiros, fardos de feno, objetos para bicar os grãos inteiros na dieta mantêm frangos ativos e favorecem um comportamento mais natural. Com isso, o estresse das aves já pode ser reduzido consideravelmente.

Alta densidade

De acordo com estimativas da Proteção Animal Mundial, 40 bilhões de frangos são submetidos à superlotação em sistemas de produção intensiva anualmente. Assim, muitos precisam viver abarrotados em um espaço menor do que uma folha de papel A4. Para que se movam e se comportem naturalmente, o recomendado é que a densidade não passe dos 30 kg por m².

Linhagens para crescimento acelerado

Com a seleção artificial, produtores podem escolher linhagens que levam menos dias para atingir o peso de abate. Em vez dos 52 ideais, em 42 dias já é possível completar o processo. Isso, no entanto, deixa os frangos mais propensos a problemas de saúde como quebrar as pernas.

Camas desconfortáveis

Quando não há camadas secas e profundas de cama, a saúde dos pés é prejudicada a ponto de desincentivar banhos de areia. Em alguns casos, as aves passam a maior parte da vida sentadas ou até deitadas sobre os próprios dejetos.

Uso indiscriminado de antibióticos

Também promovem o crescimento rápido das aves e matam patogênicos, mas o uso excessivo, especialmente em países em desenvolvimento, cria bactérias mais resistentes para os frangos. Elas também são danosas para os seres humanos, podendo causar infecções urinárias, gastrenterites e outros problemas.

O comprometimento das empresas

Como parte do Better Chicken Commitment, as redes KFC, Subway e Starbucks se comprometeram a migrar para linhagens de crescimento mais equilibrado, aglomerar densidades menores e dispor de mais enriquecimentos, além de realizarem abates mais humanitários.

Os compromissos, no entanto, se restringem aos EUA, Canadá e Europa, onde a conscientização dos consumidores é maior. Não à toa, quando o Brasil exporta para esses países, os produtores precisam se adequar às exigências deles. “O país produz o que e como eles quiserem comprar, porém, para o mercado interno, ou seja, os brasileiros, não temos padrão nenhum em termos de bem-estar animal”, afirmou Paola Rueda.

A defesa do bem-estar animal

Embora muitas entidades defendam que a única solução para o sofrimento animal seja o vegetarianismo e o veganismo, pesquisadores questionam a eficácia do discurso.

Segundo Jo Anderson, diretora de pesquisa da Faunalytics, organização de pesquisa animal, uma pessoa pode ter se tornado vegetariana, entre outras coisas, por se importar com animais, por reconhecer os efeitos positivos do vegetarianismo e por suporte social. Com isso, é difícil direcionar uma campanha que comporte motivações tão difusas.

1,5%

é a porcentagem da população americana disposta a tentar viver como vegetariano ou vegano, entre 2003 e 2014

60%

é a porcentagem de consumidores de 14 países que pagariam mais por um frango que teve boa qualidade de vida

Em vez de tentar convencer as pessoas, muitas organizações preferem atuar pressionando mudanças corporativas, o que acaba muitas vezes sendo criticado por grupos mais radicais de proteção animal. Esse tipo de reivindicação, no entanto, já gerou ressonância em grandes empresas.

Em 2018, o Fundo de Aposentadoria Comum do Estado de Nova York, terceiro maior fundo público de pensão dos Estados Unidos e detentor na época de mais de US$ 300 milhões em ações do McDonald's, expressou preocupação com a demanda dos consumidores e a publicidade negativa que a rede de fast-food vinha recebendo. Segundo a carta do fundo a que a Bloomberg teve acesso, isso poderia trazer “riscos potenciais financeiros e de reputação associados às práticas de bem-estar do frango”.

Também, desde 2015, 29 instituições financeiras que representam 2,3 trilhões de libras em ativos aderiram à Colaboração Global com Investidores em Bem-Estar dos Animais de Fazenda para incentivar empresas do setor alimentício a aprimorar o gerenciamento de bem-estar animal.

A iniciativa é organizada pela Referência Comercial sobre Bem-Estar dos Animais de Fazenda, que mede a responsabilidade de empresas de alimentos de todo o mundo com a saúde animal. Inclusive, seis empresas brasileiras são monitoradas anualmente, e, delas, BRF, JBS e Marfrig, todas grandes exportadoras para os EUA e Europa, são as melhores colocadas, com “compromissos estabelecidos nos negócios, mas ainda com trabalhos a serem feitos”.

R$ 0,38

é o acréscimo que um produtor teria por quilo de frango para melhorar o bem-estar das aves

R$ 0,25

é o acréscimo que um consumidor pagaria em um lanche de fast food para melhorar o bem-estar das aves

Outras formas de reduzir o impacto no bem-estar animal é optar por produtos substitutos como proteínas vegetais, defendem ativistas. Além disso, carnes desenvolvidas em laboratório podem ajudar a reduzir o abate de animais. Mark Post, professor de fisiologia da Universidade de Maastrich, na Holanda, afirma que, em vez de 1,5 bilhão de bois, bastariam cerca de 30 mil animais para coletar as células-tronco necessárias para o cultivo desse tipo de carne.

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